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CHAPTER 6: Discussion

6.2 WWF final project evaluation report

Dentre a poucas informações que temos sobre sua formação acadêmica sabemos que Conceição durante a sua primeira fase de estudos assimilou bem o latim, além das 4 operações: quebrados, decimais e proporções, catecismo, história

208Aqui, se tivéssemos este foco apresentaríamos as grandes questões que envolve o conceito de “sagrado”.

Tão importante na visão de Caillois quando ressalta que o sagrado “..,é uma qualidade que as coisas não possuem por si mesmas: acrescentasse-lhes uma graça misteriosa...” (CALLOIS, 1988, p. 19). Bem como as de uma força com que o homem deve contar (ibidem), e soma-se a isso as perspectivas de terror, de mistério e de fascínio de Otto, suscetível de um processo evolutivo (OTTO,. 1992. p. 128). Ou bem mais como a compreensão de Eliade, uma experiência que coloca o homem diante de um fato inegável que o chama (ELIADE, 1986, p. 76).

sagrada. A Constituição do Império e o Catecismo de Montpellier eram usualmente os livros de leitura, esta foi à primeira base de ensino de José Manoel (Cf. RIBEIRO, 1979, p. 26). Já na segunda formação temos uma pista sobre as leituras de sua geração:

No Curral dos Bichos, que era como os veteranos chamavam ao Curso Anexo da Academia Jurídica, tudo era também novidade para o rapaz de Sorocaba. Uma mocidade turbulenta e boêmia, que lia poetas franceses, que se dividia entre o romantismo cada dia mais forte e o ceticismo filosófico, quando não pulava cercas, nas caladas da noite, para roubar galinhas (RIBEIRO, 1979, p.32).

Ribeiro destaca o seguinte quanto aos seus estudos de filosofia:

Lecionava filosofia o padre Francisco de Paula Oliveira, que a irreverência dos rapazes alcunhara "padre Mimim". Mandava-os adquirir o Antônio Gennense, em latim, e marcava cada dia a lição a estudar. Na aula seguinte os alunos deviam repetir de cor o texto marcado, passando então o professor a explicá-lo. Seus comentários eram um amálgama de Kant com os franceses em voga. Às vezes o entusiasmo arrebatava o mestre, que declamava, para a classe atônita: "O espaço é meu; Kant m'o deu!" Também se usava ler então, na filosofia, um alemão traduzido: Storckman (RIBEIRO, 1979, p.32).

Sobre esta formação, podemos dizer que eles abraçavam uma lógica aristotélica de Antônio Gennense, que pode ser encontrado também como Genuense, que foi um dos principais autores que constituíam a formação básica do curso de filosofia em Coimbra, sua obra era usada para matérias de Lógica, Metafísica e Ética. Esta obra foi combatida por Pombal por seu puro aristotelismo (Cf. CUNHA, 2007, p.52). Já quanto a Kant e autores franceses podemos perceber então o que já tratamos do ecletismo no Brasil e desta forma fica evidente que José Manoel da Conceição é fruto de sua época, sobretudo o que mencionamos aqui:

• Reformas pombalinas;

• O ecletismo espiritualista tendo como forte base Victor Cousin (que a meu ver é chamado por Ribeiro como “autores franceses em voga”;

• O próprio senso comum, que muito se assemelha ao contexto de Conceição;

• Fora os aspectos teológicos entre utramontanismo e jansenismo.

De cara percebemos que a importância do contato com os protestantes gerou nele uma série de características que para um jovem de 20 anos se assemelham ao pensamento protestante.

Na cidade de Rio Claro, Blackford ouviu falar de um padre protestante, que aconselhava sempre a leitura da Bíblia,209 um pregador do Evangelho de forma revolucionária, mas que estava afastado, cuidando de uma chácara. Sobre esse encontro, Boanerges Ribeiro escreve: “Mas nesse dia de novembro de 1863 o missionário não percebeu que acabava de encontrar o homem que iria abrir o caminho da Reforma em São Paulo e Sul de Minas” (RIBEIRO,1979, p.103).

A amizade de Blackford com José Manoel da Conceição aconteceu de maneira empolgante. O curioso foi que Blackford não percebeu a importância de ter um homem como aquele no trabalho missionário. O interessante é que dali surgiu o desejo por contato com correspondência assídua entre os dois homens; até que, ocorreu um encontro numa quinta-feira, 19 de maio de 1864. Dava-se início ao vigor, no meio de lutas e crise, do espírito missionário de um homem, que se tornou o primeiro missionário protestante (RIBEIRO, 1979, p. 109). Depois

de longas conversas com Blackford, toma a dura decisão de ser protestante. Estudou as doutrinas reformadas e professou sua fé em Cristo. Acredito que aqui, provavelmente, ocorreu o contato do futuro ex-padre com a filosofia do Senso Comum por meio dos ensinos de Alexander Latimer Blackford (1829-1890) e Simonton.

Como estamos verificando a matriz filosófica do presbiterianismo, por hora vamos definir nossa linha de pesquisa nestas duas únicas pistas para entender o

209 A chegada de Bíblias, como vimos acima, o território para o protestantismo estava de fato bem preparado. Os elementos são estes: Sociedades Bíblicas, os madeirenses que vieram com o Dr. Robert Reid Kalley, as condições políticas favoráveis e por fim a prédica do padre protestante José Manoel da Conceição (RIBEIRO 1981, p.13).

que pensava o primeiro e o mais importante elemento de desenvolvimento e divulgação da nova fé no Brasil, repito as duas notas de Ribeiro que já citei acima para continuar nossa linha de raciocínio:

Uma mocidade turbulenta e boêmia, que lia poetas franceses, que se dividia entre o romantismo cada dia mais forte e o ceticismo filosófico (RIBEIRO, 1979, p.32).

Lecionava filosofia o padre Francisco de Paula Oliveira, que a irreverência dos rapazes alcunhara "padre Mimim". Mandava-os adquirir o Antônio Gennense, em latim, e marcava cada dia a lição a estudar. Na aula seguinte os alunos deviam repetir de cor o texto marcado, passando então o professor a explicá-lo. Seus comentários eram um amálgama de Kant com os franceses em voga (RIBEIRO, 1979, 32).

Conceição era um devoto perseverante de sua fé, mas que podia desde o início de sua vida acadêmica seguir outros caminhos, Ribeiro comenta isso desta forma:

Mas enquanto colegas seus saíam embriagados com a Razão, e tardiamente iluministas, "ilustrados", céticos e destruidores da fé, José Manoel não saiu assim. Anos mais tarde, e já pregador evangélico, escrevera sob o título "Ilustração":

"Ó meu Deus! Eu respeitarei a religião do ignorante, a fé daqueles que não têm tantas ocasiões de conhecer-vos, de venerar-vos de modo mais digno. Jamais servirei à vaidade e presunção, de tal sorte que abale a fé piedosa dos outros com palavras e ações inconsideradas" (RIBEIRO, 1995, p. 19).

Léonard entende que as relações com protestantes desde cedo formaram o homem que tinha mais prazer em testemunhar suas convicções morais devido a este contato que muito lhe chamava atenção210. Pois desde cedo teve a preocupação com a moral protestante em termos de cumprimento do domingo, oração e leitura da Bíblia, o que gerava o testemunho em meio à vida cética de

210 Emile G. Leonard (historiador francês das mentalidades, especialista em história do protestantismo) entende que Calvino é o pai de uma nova civilização e também de um tipo de homem, o reformado (Cf. LÉONARD, 1988, p. 309), e que esta influência esteve fortemente no Brasil (LÉONARD, 1988, p. 56-57). A mesma compreensão tem Costa quando mostra que Calvino valoriza o ser humano com ser criado a imagem e semelhança de Deus (Cf. COSTA, 2009, p. 25). Os mesmos assuntos foram trabalhos por Abrahan KUIPER que entende que o calvinismo é um sistema de vida (2002, p. 20) e McGRATH (2004, p. 70).

muitos que estudavam naquele seu contexto acadêmico (LÉONARD, 1950, p. 56, cf. também, RIBEIRO, 1979, p. 27; VIEIRA, 1980, p.31).

O que nos cabe aqui é entender que os escritos da vida estudantil dos alunos211 da década de 40 do século XIX giravam em torno do que vimos acima, o empirismo e o espiritualismo eclético.212 Defendo a ideia de que seja a segunda escola objeto de estudo do aluno de Sorocaba.

O que temos aqui nestas duas notas sobre o contexto acadêmico de Conceição, é que o mesmo poderia ser um incrédulo, alguém que meramente olharia para fé como uma forma de manter o status e por fim um político em meios às causas iluministas. Quando observamos sua posição: "Ó meu Deus! Eu respeitarei a religião do ignorante, a fé daqueles que não têm tantas ocasiões de conhecer-vos, de venerar-vos de modo mais digno. Jamais servirei à vaidade e presunção, de tal sorte que abale a fé piedosa dos outros com palavras e ações inconsideradas" (RIBEIRO, 1995, p. 19), podemos alcançar o quanto a Bíblia tinha valor e peso em suas decisões.

Mas continuemos com os elementos levantados para compreender o seu desafio no contexto acadêmico.

1. Mocidade turbulenta e boêmia, que lia poetas franceses, que se dividia entre o romantismo cada dia mais forte e o ceticismo filosófico (RIBEIRO, 1979, p.32).

211 José Manoel da Conceição estudou como candidato a sacerdote entre 1940 a 1942 (Cf. RIBEIRO, 1995, p. 18).

212

Durante o Período regencial, diante ao caos social gerado durante a hegemônica administração liberal, ajudou para que surgissem os primeiros elementos antagônicos contra o iluminismo brasileiro. É importante observar que, com o fim do ensino dos jesuítas a forma da filosofia passa a ser de um método de escrita puramente ensaístico, gerando contribuições de pessoas de diversas áreas do conhecimento. O maior polo formador da erudição filosófica serão as faculdades de direito como Faculdade do Largo de São Francisco, em São Paulo e a Faculdade de Direito de Olinda. Muitas contribuições para a filosofia serão através de juristas, romancistas, poetas e políticos. Em 1838 foi criado o elemento de transformação para as ciências sociais, com o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, gerando o início para o estudo da historiografia do Brasil. Com o objetivo de compreender os elementos da integridade nacional será o foco da reflexão de Francisco Adolfo de Varnhagen.

Em reação ao iluminismo, o ecletismo surgiu como uma fusão do espiritualismo metafísico, fruto do racionalismo francês de René Descartes, e do empirismo inglês de John Locke sendo o maior expoente o educador francês Victor Cousin. O ecletismo vai ter grande adesão na primeira metade do século XIX, por diversos setores da sociedade brasileira, como o poeta Gonçalves de Magalhães, pintor Pedro Américo e o médico Eduardo Ferreira França e Antonio Pedro de Figueiredo. Será característica a influência do indianismo como forma de buscar os valores de identidade da nação brasileira.