O modelo de família conjugal denominado “breadwinner”, com o homem no papel de provedor e a mulher de cuidadora do lar e dos filhos, por muito tempo representou o cenário propício para pro(criação) dos filhos.
Prevalecia a noção de que a produção para o mercado e o trabalho doméstico era regida por diferentes princípios, em que as regras do mercado aplicar-se-iam à produção, enquanto o trabalho doméstico seria um dote natural que as mulheres aportavam ao casamento em troca do seu sustento (SORJ, 2004).
O casamento era considerado uma oportunidade de autonomia para as mulheres, já que a perspectiva escolar e a inserção no mercado de trabalho não se apresentavam como alternativas reais. No entanto, esse modelo veio perdendo espaço cada vez mais no mundo ocidental, inclusive no Brasil.
De acordo com Alves e Cavenagui (2012) casais com filhos que representavam quase 65% em 1980 caiu para 61,3% em 1991, 58,8% em 2000 e chegou a 52,5% em 2010. Isso demonstra quão o tipo de arranjo familiar que sempre foi hegemônico na sociedade brasileira está prestes a perder a maioria absoluta; e a tendência é continuar perdendo participação relativa no conjunto dos arranjos familiares.
Tais mudanças cedem espaço a novas e diferentes configurações familiares, como as famílias “monoparentais”, "reconstituídas", "unipessoais", de "casais sem filhos”, de casais “em coabitação” ou “do mesmo sexo”, entre outras. Fatores diversos se combinam para explicar e realimentar essa reconfiguração dos lares contemporâneos. Dentre eles podem-se destacar a modernização econômica, a maior liberdade sexual, o aumento do número de divórcios, o adiamento do casamento, os avanços na equidade de gênero. Além disso, destaca-se a crescente participação das mulheres no mercado de trabalho e sua maior autonomia de decisão na esfera privada, a melhoria nos indicadores educacionais e de renda, a queda da fecundidade e a ampliação do mercado e da tecnologia de serviços domésticos (GUERRA, 2013).
Assim, no interior das famílias biparentais modificou-se o número de mulheres que passaram a trabalhar por remuneração. Se antes grande parte delas se ocupava dos
afazeres domésticos e do cuidado dos membros da família, atualmente consolida-se cada vez mais o aumento das taxas de atividade feminina. As principais manifestações dessa consolidação se expressam de acordo com Leone et al. (2010), na elevação da proporção de famílias com mulheres em atividade econômica e no caráter cada vez mais permanente da contribuição do rendimento da mulher na renda total familiar.
O engajamento das mulheres em atividades econômicas contribui para aumentar a proporção de adultos geradores de renda nas famílias biparentais, aumentando o nível de renda familiar per capita, o que amortece a desigualdade da distribuição de renda familiar. Por outro lado, reduz o tempo disponível das mulheres em atividade domésticas e de cuidados com os membros da família. Isso faz com que com que muitas delas optem por ocupações mais vulneráveis e menos rentáveis, em troca de uma maior flexibilidade de jornada. Isso porque embora inseridas no mercado de trabalho, as atribuições definidas a partir da tradicional divisão sexual do trabalho, permanece como função padrão feminina em nossa sociedade.
Por outro lado, ainda que se valorize o trabalho da mulher, há ainda aquele momento da vida dos casais em que, conforme enfatiza Becker (1981), contabilizam o custo do cuidado com as crianças ao decidirem se é vantajoso ou não que a esposa trabalhe remuneradamente fora de casa. Para Budig e Hodges (2010), embora a penalidade da maternidade esteja presente entre todas as mulheres, é entre as situadas na distribuição inferior salarial onde o problema se intensifica. Diante do escasso acesso a creches e pré-escolas, da inflexibilidade dos horários de trabalho, a alternativa de muitas mulheres é isentar do mercado e cuidar dos filhos, o que contribui para diminuir as oportunidades de ganho e desequilibrar o orçamento no domicílio.
Quanto aos filhos dos arranjos biparentais, vários estudos sobre estrutura familiar comparam o comportamento das crianças oriundas de famílias biparentais, monoparentais e criadas com um dos pais não legítimos. Esses estudos enfatizam que as crianças que vivem com ambos os pais biológicos são associadas a uma série de resultados positivos em relação ao desempenho acadêmico, bem-estar econômico e problemas comportamentais (SIGLE-RUSHTON; MCLANAHAN, 2002). Outros autores se dedicaram a associação da estrutura familiar e saúde infantil,
demonstrando que as crianças oriundas de estruturas biparentais são menos propensas a terem problemas como acidentes e lesões (MACLANAHAN; SANDERFUL, 1994).
De acordo com Parke (2003), os efeitos positivos da biparentalidade sobre o bem- estar da criança são provavelmente derivados não só do casamento em si, mas de características distintas dos pais que se unem e permanecem unidos. Sua hipótese é de que há alguns benefícios no casamento, como o acesso ao seguro de saúde e benefícios fiscais, que contribuem para o aumento da probabilidade de bem-estar da criança. Além disso, é possível que aqueles que se casam tenham atributos como compromisso, lealdade e orientação futura, que os distinguem de quem não se casam ou não permanecem casados. É também possível que o próprio ato de casar- se altera atitudes e comportamentos dos casais de maneira positiva, assim como as dos outros em relação a eles. Berger e Maclanahan (2012) enfatizam, ainda, que a base jurídica e o apoio público envolvido na instituição do casamento ajudam a criar condições propícias para o desenvolvimento de fatores que as crianças precisam para prosperar-se consistentemente. Para Brown (2010) não é a estrutura de biparentalidade que influencia o bem-estar das crianças, mas a propensão dos pais que permanecem unidos em serem indivíduos melhor ajustados e ricos em recursos estáveis.
Independente disso, a família biparental tradicional vem dando lugar as mais diversas estruturas, seja pelo aumento de separações, divórcio, seja pelo aumento de famílias monoparentais, ou ainda pelo acréscimo de casais de mesmo sexo e da homoparentalidade.