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Os primeiros trabalhos de voluntariado do grupo espírita junto às pessoas que vivem nas ruas começaram em 2001. Nesse primeiro momento, um grupo pequeno de espíritas utilizava uma perua kômbi para percorrer a cidade nas sextas-feiras à noite, entregando pão e leite. O trabalho voluntário cresceu e passou a ser realizado todos os domingos, na praça central. Durante os encontros, há entrega de alimento, roupa, kit de higiene pessoal e corte de cabelo.

Inicialmente, a entrega itinerante de pão e leite nas sextas-feiras à noite também foi uma forma de convidar as pessoas encontradas nas ruas a irem nos encontros aos domingos. O trabalho com a perua kômbi parou, e o grupo espírita se concentrou na atividade aos domingos, na praça. Não foi mais preciso anunciar o trabalho voluntário, pois as pessoas vão procurá-los espontaneamente. Desde 2001, este trabalho voluntário nunca teve interrupções.

Uma entrevista foi feita na própria praça com um dos voluntários mais antigos. Catarino é um senhor na faixa dos 60 anos e está envolvido nessa atividade há seis. Segundo ele, o objetivo é “dar comida, dar uma palavrinha e atenção para conversar”.

Ele explica que a comida que os voluntários preparam e distribuem é conseguida ao longo da semana, com doações de alguns sacolões da cidade. Geralmente, são frutas ou verduras que já estão ficando velhas, apresentam uma mancha ou um amassado. Dificilmente elas seriam vendidas, mas ainda estão apropriadas para o consumo.

Além dos sacolões, também há pessoas que fazem doações para esta atividade. Um radialista anunciou este trabalho voluntário no seu programa de rádio e, com isso, foi possível conseguir ainda mais alimentos. Catarino comenta, ainda, que há pessoas que passam pela praça, veem a atividade, vão conversar e terminam por oferecer algo como ajuda para a atividade. Também acontece de pessoas oferecerem ajuda aos voluntários. O próprio Catarino tem um amigo que sempre doa dois frangos por semana, para que integrem o cardápio da refeição na praça.

Com o aumento das doações vindas de várias fontes, o grupo pôde, ao longo do tempo, diversificar a preparação dos pratos. Há cerca de cinco anos só se oferecia sopa; atualmente, há um cardápio semanal, com variedade de refeições. Por exemplo, em uma semana prepara- se arroz à grega, na outra semana é servido macarrão, na seguinte, tem-se uma feijoada. Ele explica que a refeição sempre vem com alguma carne e também alguma fruta; salada de frutas ou balas como sobremesa, e uma vez por mês é oferecido um bolo em comemoração aos

aniversariantes.

A cada domingo, há em torno de 20 a 25 pessoas envolvidas no trabalho voluntário – desde aquelas que buscam as doações de comida durante a semana, até as que estão no domingo atuando na cozinha, na limpeza, na organização etc.

A alguns quarteirões da praça, um centro espírita é a sede do trabalho. Lá é feito o preparo da comida, a seleção e estoque das roupas para doação etc.

Durante o domingo, a equipe de voluntários se divide em dois grupos: aqueles que ficam na praça e aqueles que ficam trabalhando na sede. A comida é levada de carro para a praça em uma grande panela; é montada uma mesa onde ficam os pratos, talheres e copos, e também são organizadas as cadeiras em formato de círculo, para que as pessoas aguardem. As pessoas interessadas vão chegando, se sentando nas cadeiras, ou ainda nos bancos de cimento da praça. Pequenos grupos se espalham em conversas enquanto aguardam a comida. A atividade costuma começar em torno das 9h30 da manhã; então um dos voluntários passa o “aviso” para os que estão presentes.

O aviso é: não fume na roda porque é desagradável alguém tá comendo e o outro tá fumando. Então, pra fumar saia fora do circuito. Outra coisa é bebida. Na roda não pode ter bebida, quem quiser beber vai longe. E a terceira, é que não haja violência, porque na rua os caras se resolvem na violência (Catarino).

O “aviso” é uma enunciação das regras de convivência naquele local. São três regras mínimas para participar da roda, sem as quais não é possível manter a atividade voluntária. “Fumo”, “bebida” e “violência” são afastados do centro da atividade, mas chegam a acontecer nas bordas da praça, distantes do trabalho voluntário.

Depois de passado o aviso, um dos voluntários se posiciona no meio do círculo e faz uma leitura de um livro espírita, comenta uma passagem do evangelho, (por exemplo, sobre a vida de Jesus) e, por fim, busca refletir sobre ensinamentos cristãos. Muitas vezes, a fala do voluntário visa relacionar o ensinamento cristão às dificuldades da vida na rua. A mensagem religiosa tem o propósito de proporcionar melhoria espiritual e de transmitir coragem para enfrentar as dificuldades da vida, uma vez que se compreendam os ensinamentos cristãos.

Nem todos os voluntários falam no meio do círculo; geralmente, se vê alguns dos voluntários mais velhos. Catarino é um deles. A maioria dos voluntários circulam pela praça ou ficam próximos ao círculo, prestando atenção na mensagem. Depois de cerca de 10 a 15

minutos de fala com a mensagem cristã, é feita uma oração e, na sequência, as pessoas que frequentam a atividade formam uma fila em direção à mesa onde estão os pratos e a refeição a ser servida por alguns dos voluntários.

Em um local mais afastado do círculo, onde estão as pessoas comendo, outro voluntário leva uma cadeira e alguns utensílios para fazer corte de cabelo e barba. Os interessados vão até ele. Duas outras voluntárias se encarregam de anotar os pedidos daqueles que precisam de roupas ou sapatos. As pessoas as procuram para dizer o que querem (por exemplo, calça do tamanho X, sapato do tamanho Y). Elas fazem as anotações dos pedidos e os levam até a sede do centro espírita, onde ficam armazenadas todas as roupas para doação. Lá, outros voluntários recebem os pedidos e selecionam as roupas e sapatos, os separam em sacolas segundo os nomes daqueles que receberão as vestimentas. Algumas vezes, não é possível atender a todos os pedidos (sempre há falta de sapatos, por exemplo).

As doações são entregues depois que a refeição termina, mais ou menos às 11h da manhã. Kits de higiene também são oferecidos para aqueles que pedem. Os kits contêm papel higiênico, sabonete e escova de dente.

Durante a manhã, enquanto há entrega de comida, corte de cabelo e anotações dos pedidos por parte de alguns, a maioria dos voluntários apenas circulam e conversam com as pessoas. Percebe-se que a frequência semanal da atividade faz com que as conversas sejam bastante fluidas; as pessoas se conhecem e vários assuntos são possíveis: histórias de vida, piadas, músicas etc.

Depois de finalizada todas estas atividades, o grupo de voluntários faz uma oração para marcar a finalização do trabalho junto ao público. Passam, em seguida, a recolher e guardar as cadeiras, mesa, pratos etc. Tudo é levado para a sede do centro espírita, onde se dá a organização e limpeza final dos materiais.

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