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O outro caso analisado foi o do abrigo temporário instalado na escola Centro Integrado Educação Pública (CIEP) 283 Maria Amélia Pacheco, localizado em Sumidouro. As entrevistas ocorreram em circunstância não pré-programada. A amostra favoreceu-se da observação de um dia normal de atividade das abrigadas,

21 “Nos países em desenvolvimento existe um aumento significativo dos problemas de saúde mental

durante as fases de reabilitação e reconstrução em longo prazo, o que requer tratá-los durante estes períodos (Tradução livre)”.

bem como da aleatoriedade como se encontravam presentes ao local quando foram abordadas.

Em entrevista concedida para a equipe do NEPED, logo de início, o discurso aflito do prefeito já dava indícios que encontraríamos uma situação diferente em Sumidouro: argumentou que não havia como restabelecer a normalidade. As máquinas e caminhões da prefeitura estavam tomados pela lama, sendo que alguns, a enxurrada empurrou para o rio (vide figura 7, p. 85). A situação era tão calamitosa que apesar do Ministério das Cidades ter oferecido recursos financeiros para o processo de construção, não havia área segura para implantar obras de moradia. Dessa forma, Sumidouro

não se inviabilizava, como lugar, pelo tradicional descaso das autoridades ou pela ausência de apoio financeiro à recuperação, mas pelo reconhecimento de que os fatores de ameaça perdurariam para além daquela estação chuvosa. O poder público local não estava ausente, estava impotente (VALENCIO ET. AL, 2008, p. 13).

Observou-se que a população afetada, em meio ao transtorno, tinha consideração pelos membros da gestão, que circulavam, com a equipe do NEPED, em meio ao caos, permeáveis à vocalização das queixas, como, por exemplo, o Coordenador Municipal de Defesa Civil, a Secretária Municipal de Educação e Cultura e a Secretária Municipal de Saúde e Assistência Social. Desta forma, estas autoridades não tinham suas práticas contestadas; pelo contrário, suas atuações lhes concediam uma legitimidade que não necessariamente passava pelos cargos ocupados por eles.

O ente público, presente junto à população, demonstrava estar agindo perante o problema, envolvendo-se por assim dizer, no drama das famílias. Envolver-se, no caso, significava permitir que as famílias vocalizassem as suas demandas e implementassem as soluções. Coube ao poder público, em meio a

situação calamitosa, levar as famílias desabrigados para a escola e permitir que elas mesmas organizassem a divisão das salas de aula que se tornaram os “quartos”, além de local para guardar os poucos bens que puderam salvar (vide figura 17). Na divisão das salas do abrigo entre as famílias, o critério definidor das escolhas que faziam, para que mais de uma família partilhasse do mesmo espaço, era o vínculo de parentesco. Esta foi uma forma encontrada por elas para manter algumas intimidades que podem ser partilhadas na relação entre consangüíneos.

Figura 17 – Cômoda, produtos de beleza, botijão de gás, tábua de passar roupas: alguns dos objetos salvos por uma das abrigadas e realocados na sala de aula – ao fundo a lousa (Acervo NEPED, 17 jan. 07).

Uma liderança já reconhecida no bairro – funcionária do estabelecimento escolar – logo se tornou a referência para quem as pessoas pudessem buscar orientação para a realização das tarefas, tais como: limpar as áreas de uso restrito (salas de aula); limpeza das áreas de uso comum (pátios, rampas, sanitários); elaboração do cardápio; feitura das refeições; e higienização da cozinha e refeitório, dentre outros.

A presença não constante de agentes do Estado no abrigo, todavia, não se traduzia no descaso dos mesmos. Funcionários da prefeitura, das mais diversas funções, ajudaram em aspectos da organização do abrigo, contudo sem desvalorizar o trabalho colaborativo dos abrigados a quem cabia, de forma coletiva, decidir. Auxiliaram, ainda, em tarefas cotidianas, como na preparação das refeições.

Até o cachorro, que tava magrinho, agora engordou (...) É comida normal, do dia-a-dia. Arroz, feijão, macarrão, carne. [quem faz a comida] é seu Mauro. Ele não é empregado não [da escola], ele trabalha, deixa eu ver, no posto de dentista. Ele é funcionário da prefeitura. E um outro filho meu, este. E as outras filhas, a nora, tudo ajuda, tudo vai pra cozinha. Aí acaba, todo mundo vai pra cozinha, todo mundo ajuda na hora de arrumar a cozinha, todo mundo ajuda e então não fica pesado, né? (abrigada 1)

Eu já engordei a roupa não ta cabendo em mim. Tão todo mundo como porquinho de engorda (risos). Eu acho que tá tudo bem assim em termos de alimentação né?! Melhor vai ficar quando volta todo mundo pra casa da gente. E lá pode até deitar no chão que é outra coisa (abrigada 2).

Até cada um arruma seus negócios e amarra umas coisinhas, todo mundo socorrendo todo mundo (...) ainda bem que tem muito vizinho bom. Como é o nome dele? Fabinho? Nós dormimos lá. O Roberto da Areia ajudou também dando café, deu um sopão, depois veio leite também. Eu sei que no início, nós ficamos sem socorro ... ficamos ali ilhados...aquela coisa...ficamos sem socorro, mas agora eles ... no outro dia veio o socorro (abrigada 2).

Cada uma faz uma coisa: uma ajuda a varrer, outra ajuda a limpar lá dentro. Aqui colabora tudo. Cada um faz uma coisa (abrigada 3).

O esquema da divisão das tarefas da limpeza das áreas comum do abrigo realmente era algo que funcionava. Quando da visita da equipe do NEPED, a cozinha estava limpa, o fogão também, com toda a louça lavada (vide figura 18).

Figura 18 – Cozinha do abrigo instalado na escola Maria Amélia Pacheco (Acervo NEPED, 17 jan. 07).

A questão da alimentação no abrigo não se constituía como um problema, já que receberam uma doação substancial da comunidade japonesa paulista e a escolha/preparação era negociada, partilhada entre as abrigadas. O executivo municipal permitiu que os próprios abrigados administrassem os recursos de tal doação (vide figura 19) e elaborassem o cardápio.

Figura 19 – Área que servia de dispensa para os mantimentos – sala aberta, na qual todos tinham acesso (Acervo NEPED, 17 jan. 07).

Contudo, ocorreu um episódio de roubo de parte do estoque que os abrigados atribuíram à vizinhança da escola que, segundo os mesmos, os tratavam com hostilidade:

(...) roubaram fardo de papel higiênico, pinho e iam roubar arroz também, só que não agüentaram levar o fardo de arroz e deixaram aí (...) pulou o portão e pulou o muro ali do refeitório e chegou ali. Quando acordaram, a porta do refeitório tava aberta (abrigada 4). Nós estamos esperando o que eles vão fazer, porque falaram que iam mostrar a fita [câmera de segurança que as abrigadas garantem que deve ter filmado o roubo] que gravou pra gente. Vamo ver se o prefeito aparece aí, ficou de fazer uma reunião (abrigada 5).

Todo mundo sabe que todo mundo tá precisando. E ainda tem gente por aí que fica debochando de quem tá precisando. Porque eles ficam falando assim: “ah, os desabrigados, isso daí ta parecendo o Carandiru”. O pessoal daí... [e aponta pra fora do abrigo] (abrigada 4).

Por conta da negociação na preparação dos alimentos, as abrigadas não cozinhavam em separado nos seus quartos, até porque quase nenhuma tinha levado seu fogão para lá. Uma fala recorrente entre elas era que não levaram todos os bens que conseguiram salvar da enchente, pois acreditavam mesmo na provisoriedade do abrigo, e na dificuldade de ter de carregar para outros lugares, que não o abrigo, até se ter uma definição. Os relatos a seguir expressam este fato:

Aí, se tem que sair daqui, vai levar as coisas pra onde? E lá, também, é um lugar ruim de tirar as coisas. Entendeu? A gente tira aquilo lá de lá e traz pra cá. Aí, daqui a pouco tem que levar pra lá. Aí a gente pega e deixa lá. Esse negócio de mudança é horrível. Agora se eles fala que vai para um lugar certo, ou uma casa ... qualquer coisa, pelo menos a gente vai lá, sabe que vai ter aquele trabalho, mas vai ficar num lugar só. Fica mudando com as coisas pra lá e pra cá, também não dá! (abrigada 6).

Ah minha filha ... trazer pra cá [no abrigo], pra depois ter que sair correndo, porque as aulas começam agora esses dias ... Ninguém vai poder ficar sem estudar aqui não! (abrigada 5).

O relato acima mostra como no meio da desestruturação de seu cotidiano ela ainda consegue pensar nas crianças que poderiam ficar sem aula caso a situação demorasse a ser resolvida. Ainda alegou que, se as aulas começassem e ela ainda estivesse ali, voltaria para sua casa, mesmo tendo sido interditada e sentindo medo de ficar lá.

No dia-a-dia, os aspectos referentes à manutenção de um ambiente de tranqüilidade, sem a necessidade de estratégias coercitivas, também aparecem nos relatos das informantes:

De noite, aqui, fica um silêncio. Parece que não tem ninguém. Aqui, agora, todo mundo conversa, vem almoçar(...). Aí, quando chega de tarde, todo mundo toma um lanche, na hora da janta todo mundo janta. Depois, cada um em seus quartos e não se escuta conversa de ninguém. É tudo família, né. É tudo uma família só. Na hora do almoço tá tudo junto, na hora do café, na hora da janta. Mas é legal. Aí, quando sai daqui, vou até sentir falta... (abrigada 1).

Para manutenção da rotina, do habitus que fazia sentido nas moradias,

várias abrigadas tentam dispor o pouco do que conseguiram levar para o abrigo da mesma forma que estaria em sua casa. As mulheres mantinham os colchões arrumados, com a roupa bem posta (vide figura 20), com os cobertores dobrados, a mesa com o vaso de decoração (vide figura 21), o tapete etc.

Figura 20 – Organização do espaço feito pela abrigada na sala de aula. No detalhe: improvisação de cortinas, lençóis estendidos na cama e no colchão no chão (Acervo NEPED, 17 jan. 07).

Figura 21 – Organização do espaço feito pela abrigada na sala de aula. No detalhe: vaso de decoração na mesa, uma tentativa de representação da ordem do lar (Acervo NEPED, 17 jan. 07).

Realizar tarefas domésticas dentro da casa avariada são práticas usuais entre as mulheres desabrigadas e que transcendem, no geral, ao fato de que

a área está sujeita a novos riscos. Em Sumidouro, algumas mulheres dirigiam-se até suas casas para lavarem roupas: “A gente lava em casa. A gente vai lá devagar. Vai lá, abre a casa. Quando é roupa mais leve, short de criança, a gente lava aqui e pendura aqui mesmo [roupas secando na janela da sala de aula]” (abrigada 6).

Pode-se verificar, ainda, formas de solidariedade entre as abrigadas por meio do compartilhamento de alguns bens, tais como os tanquinhos de lavar roupas. Havia um grupo de mulheres que conseguiu salvar seus tanquinhos e organizaram uma lavanderia que foi posta a serviço de todas as famílias (vide figura 22):

Tá cada uma ajudando a outra, vai usando [tanquinho de lavar roupas]. Aquelas que não têm, que não ficam acanhada pra pedir...tem gente que não pede, né?!. Aí lava em outro lugar, se ajeita como pode. Nessa hora acho que todo mundo tem que estar unidas, não tem ninguém pensando em você Na sua casa seu filho come isso... [aqui] passa a comer o que tiver (abrigada 2).

Figura 22 – Do privado ao público: Lavanderia improvisada com os tanquinhos das abrigadas. No detalhe: uma única tomada para dois tanquinhos – nova “área de risco” (Acervo NEPED, 17 jan. 07).

Como demonstra o relato, em razão de pudor – para algumas mulheres não convém, por exemplo, expor suas peças íntimas aos estranhos, pois acreditam que isso poderá lhes criar significados impróprios, tal como: um sinal que esteja disponível para relacionamentos amorosos – algumas donas de casa preferem lavar as roupas da família em torneiras e pias existentes no local. Aquelas que lavavam as roupas no abrigo, contudo, não tinham onde pendurá-las. Assim, em várias salas havia roupas penduradas nas janelas (vide figura 23).

Figura 23 – Janelas das salas de aula servindo de varal para pendurar as roupas (Acervo NEPED, 17 jan. 07).

Por fim, diante de tantas estratégias para manter a coesão social frente às circunstâncias de vulnerabilidade, que a desestruturação dos elementos materiais da rotina do grupo causou, o desafio final das abrigadas era lidar com a ausência de informação dos gestores, a qual muitas mulheres se queixavam, acerca das providências que estão sendo tomadas para a produção de novas moradias. Porém, a ausência de informações não decorria da sonegação das mesmas, mas do fato de

que o executivo municipal, frente a um quadro que tendia ao agravamento, não tinha o principal meio para lidar com a situação: a base física para repensar a organização do lugar. A noção de segurança deu lugar a uma incerteza geral acerca do futuro (VALENCIO ET. AL, 2008).

Diante do exposto, encontramos nos casos de Nova Friburgo e Sumidouro semelhanças e distinções em relação à territorialização dos abrigos temporários. Em relação às semelhanças, temos as seguintes características: a limpeza do abrigo feita pelas próprias abrigadas; os “quartos” organizados, tentando reproduzir o espaço da casa; a ida para suas casas condenadas para lavarem roupas; ausência de informação dos gestores acerca das providências que estão sendo tomadas para a produção de novas moradias. Em relação às dessemelhanças, temos as seguintes características, no abrigo de Nova Friburgo: a presença constante de uma gestora; refeições preparadas por cozinheira contratada; abrigadas que têm fogões preferem cozinhar nos “quartos” para sua família. Já no abrigo de Sumidouro, as próprias abrigadas negociam a preparação dos alimentos, elaboram cardápios e administram os recursos recebidos.

Porém, mesmo onde há semelhança o que importa não é a configuração territorial em si, mas o conteúdo das relações sociais que a ancoram. Por exemplo, em Nova Friburgo, por de trás da limpeza dos abrigos, da organização dos “quartos” há a coerção da assistente social que, num primeiro momento, impôs regras gerando conflitos. Isso ocorreu porque a figuração social neste abrigo estava pautada no papel tradicional do Estado, de imposição de regras, de manutenção da “ordem”. Já em Sumidouro, por de trás dessas mesmas atividades houve negociação e consenso, demonstrando o alto nível de coesão social deste grupo – por exemplo, a solidariedade de algumas mulheres que transformaram seus

tanquinhos de uso privado em lavanderia para uso coletivo, vide figura 22, p. 112. Assim, pode-se dizer que mesmo numa espacialização muito próxima o conteúdo das relações sociais pode ser muito diferente, ou seja, o que motiva cada uma das práticas citadas acima são relações diferentes, embora o drama comum de ficarem num abrigo temporário e de terem perdido suas casas.

Outro ponto que deve ser observado é a ausência de um tipo de

habitus ordenador de algumas práticas sociais dentro do abrigo de Sumidouro. O

que vemos no abrigo de Nova Friburgo não é apenas a assimetria de poder do Estado, por meio da atuação da assistente social, em relação as desabrigadas, mas também o próprio habitus da dominação masculina operando. Como coloca

Bourdieu, a dominação masculina também é exercida pela mulher, esta, apesar de viver a dominação, é também sujeito neste processo. Assim, o tipo de cobrança que a assistente social faz às abrigadas, por exemplo, quando dita as regras e policia a organização e limpeza dos “quartos” e cozinha (espaços primordialmente femininos da casa) do abrigo, traz consigo um conjunto de violências simbólicas pautadas no

habitus da dominação masculina. Seguindo nesta linha de raciocínio, o que seria

mais perturbador: a abrigada receber uma ordem que parta de outra mulher ou receber estas ordens de um homem? Esta pergunta foi suscitada neste trabalho, mas não pôde ser respondida e fica para pesquisas posteriores.

Por fim, em Sumidouro/RJ, os desabrigados participaram de seu próprio processo de reabilitação, criando regras próprias de funcionamento do espaço que consideraram a minimização do sofrimento social dos que ali foram inseridos. Diante a recorrência de relações hierárquicas entre gestores de abrigos temporários e abrigados, a lógica comunitária de gestão, referente ao abrigo temporário instalado no CIEP Escola Maria Amélia, se mostrou, em termos práticos,

adequada, por pautar-se na manutenção da coesão social por princípios de solidariedade e não coercitivos. As mulheres puderam simular, relativamente à organização do seu antigo lar, aspectos de seu habitus e permitindo, em parte, a

6. O DESCOMPASSO ENTRE AS NECESSIDADES DOS ABRIGADOS E AS

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