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FIGURE 4.4 Customs Revenue (in USD)

Dona Zélia inicia a narração da travessia, no momento em que destaca, conforme suas palavras, que foi severa com o filho, apresentando como marca de sua severidade a atitude de trancar Claudinor dentro de casa, para não ter amigo na porta, que o chamasse, acrescida dos dilemas e dificuldades vividos em razão de sua atitude disciplinadora. Indica o companheiro presente no momento do relato como testemunha do que diz, concluindo a narração relâmpaga desse tema, que parece retroceder aos primórdios dos cuidados com o filho pequeno, o momento em que decide tirar cópia da chave e entregar a ele, é acompanhada da afirmação de que “ele nunca se negou a abrir o portão para ninguém”, evidenciando seu contra-argumento à afirmação dos policiais de que o filho havia se recusado a abrir o portão, e recorre, em favor de seu argumento, ao fato de que ele era orientado pelo tenente Cerilo e um coronel de que não se recordava o nome, do comando geral da polícia militar, que chegaram a visitar o filho. A respeito do comportamento de Claudionor afirma: “via nele igual uma pessoa normal. Eu nunca ví nada estranho no meu filho” . Desse ponto, há um novo deslocamento da narração, que se fixa no que define como uma perseguição.

Dona Zélia argumenta que houve, da parte dos policiais que o assassinaram, uma

perseguição, uma marcação que se iniciara no colégio, e resultara na prisão do filho, por duas

vezes. Assim, contra-argumentando as justificações dadas pelos policiais, para o assassinato do seu filho, ela conta:

começou que um dia eles [o] prendeu no colégio. Outra vez tornou a prender ele no colégio novo, porque ele saiu do outro colégio. A polícia. E eles fizeram tipo uma perseguição, uma marcação com ele, você entendeu? Mas nunca! Nunca! até hoje, como Deus no céu e essa luz me iluminando, eu nunca tive provas. Eles nunca me mostraram prova de nada contra meu filho,

você entendeu? Então, quer dizer que ele não tinha nada errado. Se tivesse com uma coisa, algo de errado com ele, tinha que ter provas. Então, o dia que eles mataram ele mesmo aqui, dizem que ele tinha roubado uma caminhonete. Dizem que a caminhonete estava aqui dentro de casa, aqui dentro do meu quintal. Olha que coisa mais absurda do mundo que você pode acreditar. Quando a caminhonete entrou e quando ela saiu que nós não vimos? Nós não sabíamos dessa caminhonete. Tinha gente trabalhando aqui: pedreiro. Eu tinha empreitado serviço. Todo mundo era testemunho. Meus vizinhos aqui óh!, em peso, você pode fazer pesquisa, perguntar meus vizinhos como era o Claudionor aqui (linhas 140-151).

Do ponto de vista da análise, vale ressaltar para os argumentos indicados, como justificativas para o assassinato do seu filho. Nesse, como em outros casos analisados, o uso do argumento de roubo de caminhonete para justificar os assassinatos, argumento, que a depender do contexto enunciativo, é substituído por outros, como a tese de suicídio ou de latrocínio. Como nos contos de fadas, não importa se o enredo é real ou fictício, já que os policiais são portadores de um poder, não apenas de produzir a morte, mas também a culpa. Ademais, uma outra mãe declara: “O comandante acredita em cem mentiras deles e não acredita em uma verdade da gente” (N4, linhas 82-83). Sente que se trata de um recurso retórico aceito pelos superiores como verdade. Embora mães, pais e demais familiares comuniquem suas impressões e avaliações sobre os fatos ocorridos, suas descrições e avaliações são desacreditadas pelas figuras de autoridade, sobretudo, as autoridades policiais militares. Pela peculiaridade do processo de desqualificação dos testemunhos dos que estiveram in loco diante das expressões da violência administrativa, ele merece um breve destaque.

No prefácio à sua obra Os afogados e os sobreviventes, Primo Levi (2004) refere-se ao período em que se propagaram os primeiros rumores sobre os campos de extermínio nazistas, ocorrido no crucial ano de 1942, “que delineavam um massacre de proporções tão amplas, de uma crueldade tão extrema, de motivações tão intrincadas que o publico tendia a rejeitá-la em razão de seu próprio absurdo” (LEVI, 2004, p. 9). Para o autor, essa atitude de rejeição havia sido prevista muito antecipadamente pelos próprios soldados dos esquadrões de defesa [Schutzstaffel] (SS), que “se divertiam avisando cinicamente os prisioneiros”, que independentemente do resultado da guerra que se tratava, aquela que havia sido ganha pois empreendida contra os prisioneiros dos campos, maioria judia, mas não apenas, já havia sido ganha, não restaria pessoa alguma como testemunha, e, mesmo se alguém escapasse com vida, “o mundo não lhes daria crédito” (LEVI, 2004, p. 9). O autor, acrescenta que seus algozes afirmavam que poderia haver suspeitas, discussões, investigações históricas, mas não certezas, pois eles destruiriam as provas e os prisioneiros. Os soldados SS diziam:

e ainda que fiquem algumas provas e sobreviva alguém, as pessoas dirão que os fatos narrados são tão monstruosos que não merecem confiança; dirão que são exageros da propaganda aliada e acreditarão em nós, que negaremos tudo, e não em vocês. Nós é que ditaremos a história dos Lager – campos de concentração (LEVI, 2004, p. 9).

Levi (2004), assinala ainda que esse mesmo pensamento – mesmo que se contasse, ninguém acreditaria – também brotava nos pensamentos dos prisioneiros, na forma de sonhos noturnos, que lhes causavam certo desespero. Segundo autor, oralmente, ou em suas memórias escritas, muitos sobreviventes recordavam-se de haver sonhado com esse tema, nas noites de confinamento. O conteúdo do sonho consistia em que voltavam para casa, contavam “com paixão e alívio os seus sofrimentos passados, dirigindo-se a pessoas queridas” (p. 10), que, no entanto, não lhes davam crédito ou mesmo nem sequer os escutavam: “na forma mais típica (e mais cruel), o interlocutor se virava e ia embora silenciosamente” (LEVI, 2004, p. 10). Tanto algozes quanto vítimas tinham consciência do absurdo e da não credibilidade daquilo que ocorria nos campos de concentração. O autor acrescenta: “de todo modo, o vencedor é dono também da verdade, pode manipulá-la como lhe convier” (LEVI, 2004, p. 11).

A dimensão de descrédito que recai sobre o testemunho dos sobrevivente, há que se considerar, não se restringe a um tempo espaço específico, mas é característica de todas as formas de violência instrumental, fundadas nos princípios da hierarquia e da obediência cega, e pode ser constatada também no caso dos testemunhos de familiares de mortos e desaparecidos após intervenção policial. Na audiência pública realizada em 2006, após o nome de um tenente assassino ter sido revelado, por uma testemunha, e ele ter sido questionado pela representante da Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH), acerca dos motivos pelos quais, mesmo acusado, ainda permanecia em atividade, obteve como resposta que não havia provas, tratava-se de uma simples denúncia verbal. O enunciado da mãe que afirma que o comandante acredita em cem mentiras de seus subordinados e não acredita em uma das que elas enunciam revela também a condição de descrédito das testemunhas diante de seus algozes, de forma que o pesadelo descrito por Levi (2004), parece continuar reproduzindo-se em grandes ou pequena escalas, a depender da extensão da barbárie.

Além do descrédito do testemunho, as ameaças constituíam um outro elemento que contribuiu para implantar o terror no núcleo familiar e na vizinhança de dona Zélia. O registro da fala centrada no marco temporal, posterior ao assassinato do filho, retoma os motivos da

preocupação de pessoas de seu círculo mais próximo com sua integridade física, o que colaborava para que amigos e vizinhos buscassem convencê-la a esquecer o assunto e resignar-se diante do ocorrido, como declara dona Zélia:

Sempre que passava uns carros diferentes na rua, os vizinhos já ficavam todo mundo preocupado, porque vivia muito, me expondo muito. Meus vizinhos me pediram também:

– Não Zélia! Pára com isso! Nada vai trazer ele de volta. Só traz dor, revolta.

– Realmente! É mesmo! Só traz revolta.

Porque cada vez que a gente toca no assunto [.] Vou ser franca de falar para você, é uma coisa que mexe na ferida profunda, sabe? Então:

– Sabe que você está certa. Vamos parar mesmo.

E assim: o dia que eu posso ir eu vou. Estava me comprometendo muito no meu trabalho. Graças a Deus, assim! Que não tive problemas com o patrão. Mas sim compromete sua tarefa no seu trabalho.

Eu falei: – Ah! Não vou!

Minha patroa chegou em mim e falou para mim – Ela já perdeu uma filha também. Não da forma que eu perdi. Mas ela falou:

– Zélia. Nada traz de volta. Tem dez anos que eu perdi minha filha. Tem a minha neta, mas não substitui mais nada! Só revolta que traz na gente. É só revolta.

Realmente! É só revolta. (linhas 36-43).

Dona Zélia destaca ainda, além da mistura de dor e revolta, aliada à insistência de sua rede de relações mais próximas para que se resignasse em relação ao ocorrido, os efeitos que tiveram sobre ela aqueles acontecimentos:

eu preciso de ajuda. Igual hoje eu falei pra minha amiga. Eu falei pra ela. Essa que estava aqui.

– As pessoas às vezes pensam assim: é tão fácil você imaginar a tragédia do próximo. É difícil você viver ela!

Não é? Nossa senhora! Você sente (...) você, em beliscar, você não sentiu a dor? Não é? Eu te (...) você leva um tropeção ali você vai sentir. É diferente, não é?

O enunciado também evidencia as diferenças percebidas pelo ator, entre a perspectiva de viver a tragédia, em relação à do observador, que trava contato com ela por meio da

imaginação. Os exemplos cotidianos, em que o ator que tropeça, que se belisca, e sente a dor,

é diferente, conforme a exposição, daquele que imagina. A imaginação coloca-se do lado do observador ao passo que a experiência legítima, se situa do lado do ator, na vivência dos eventos, realça a legitimidade do fenômeno consciente ordinário tal como é experimentado subjetivamente pelo ator, em detrimento da atitude distanciada do observador. Após esse breve destaque referente às diferenças entre a posição do ator e a posição do observador, a narração é assumida do lugar experimentado pelo ator.