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Tal como afirma Alexandre Melo, numa perspectiva mais genérica, parece fazer mais sentido falar de globalização política no século XX, dado que foi o século onde ocorreram duas guerras mundiais (2002, p. 31).

No final da I Guerra Mundial foi criada uma organização política internacional, a Liga das Nações, que embora todos os esforços, não evitou o desenrolar de mais uma guerra.

Com o final da II Guerra Mundial, é criada a Organização das Nações Unidas (ONU), que desenhou uma política global assente num “equilíbrio geoestratégico bipolar” (Melo, 2002, p. 33), que mais tarde se veio a designar

3 Segundo Augusto Mateus (2002, p. 250) entendemos o processo de internacionalização como as relações

económicas correspondentes a uma interacções de espaços económicos, políticos e sociais, que perante o impacte do fluxo de mercadoria se capitais, conservam as suas diferenças e as suas especificidades.

4 Por multinacionalização/transnacionalização entendemos que se trata de uma evolução da organização, da estratégia

e dos comportamentos dos grandes agentes económicos (Tolda, 2002, p. 250).

5 Para distinção, referimos também a noção de globalização de João Tolda como um processo de globalização dos

mercados e das actividades económicas, que atinge não só os processos e os produtos, como também os modelos de funcionamento e consumo criando realidades mundiais.

de Guerra Fria6. Este sistema político teve o seu fim com a queda do muro de Berlim, reflexo do colapso das ditaduras comunistas dos países do leste.

Desde o fim das ideologias comunistas temos vindo a assistir à emergência de vários países que se pretendem democráticos, baseados na defesa dos direitos do homem, o que abriu a oportunidade de criação de uma nova ordem mundial. O que Mário Murteira designa de “capitalismo desenvolvido” que caracterizou a economia mundial desde a II Guerra Mundial, assentava numa política primordialmente com objectivos económicos de fomentar o crescimento do pleno emprego, proporcionando um ambiente estimulador para o consumo e o investimento, à escala nacional, tendo o Estado como missão reduzir as desigualdades sociais com vista à propensão ao consumo (Murteira, 1995, p. 40). Esta foi a “época feliz do capitalismo” (p. 42).

No entanto, a partir da década de 60 assentua-se o conflito entre a lógica social (que legitimava o Estado de Providência) e a lógica económica.

Foi na década de 70, que a crise petrolífera obrigou ao abrandamento do crescimento económico dos países desenvolvidos ocidentais colocando-se, assim, em causa os princípios orientadores do sistema capitalista.

As novas estratégias dos anos 90, passam a entender o desenvolvimento como sinónimo de competitividade no mercado mundial, obrigando os governos nacionais a reorientar as suas políticas económicas e sociais (Murteira, 1995, p. 58). A globalização política, assume, assim, um nível sem precedentes. Um outro fenómeno importante de referir é a crescente dependência financeira dos países pobres em relação ao países ricos, devido aos endividamentos provocados pelos apoios concedidos. Esta dependência económica é visível na sobre-representação dos países ricos nas organizações internacionais que definem as políticas económicas, como é o caso do G8, da OCDE e do Banco Mundial.

Alertando para estas assimetrias mundiais, Allemand e Borbolan defendem uma globalização que seja mais benéfica para os países pobres, e que seja sustentada por uma nova ordem política e económica mundial, diferente da herdada do período pós-guerra (2001, p. 80).

No entanto, autores como Waters aponta-nos um futuro optimista, defendendo que é possível que a globalização política venha a ser completa, pois com a expansão da democracia liberal e dos valores pós-materialistas de uma sociedade para outra poderemos vir a assistir a uma política global comum (1999, p. 117).

No entanto persistem as preocupações de o aumento de poder das economias em detrimento dos Estado, provoca a difusão dos mercados globais que têm uma influência directa sobre o futuro das democracias.

No entanto, Boyer e Drache acreditam que o Estado-Nação não poderá ser facilmente substituído pelo mercado, pois o estado é a única instituição que organiza, protege e salvaguarda os interesses e valores sociais, que não poderão ser tratados como mercadorias (1996, p. 25).

A criação de políticas nacionais é, inevitavelmente, “um processo de bricolagem”, no sentido em que existe um constante processo de empréstimo e cópia de ideias, modas e tendências, que resultam numa combinação de lógicas globais muito distantes das locais (Stephen Ball, 2001, p. 102).

Neste sentido, Ball refere que está a ser desenvolvida uma reconfiguração institucional provocada pelo estabelecimento de uma nova cultura competitiva com novos objectivos e incentivos, onde se destacam os valores, as culturas, as relações, as subjectividades e as formas de disciplina que elas fundamentam (Ball, 2001, p. 105).

Ou seja, muitos autores acreditam que estamos a assistir à emergência de um novo Estado, como novas formas institucionais. E, para que consigamos atingir uma globalização sustentável, as políticas têm de consistir essencialmente em duas coisas: uma imagem do mundo para que as pessoas compreendam onde estão; e um conjunto de políticas de Segurança Social que apoiem as pessoas a lidar com este modelo global. Só assim se poderá ter um equilíbrio correcto. (Friedman, 2000, p. 471)

Este autor refere ainda que este equilíbrio terá de passar por democratizar a globalização educacionalmente; democratizar a globalização financeiramente; e democratizar a globalização politicamente (Friedman, 2000, p. 476).

“Democratizar a globalização não é apenas a maneira mais eficaz de torná-la sustentável, é também a política mais útil e moral que um governo pode adoptar” (idem, p. 482).

Outra questão importante a destacar e com repercussões no panorama político actual, é que, durante estas duas últimas décadas, temos vindo a assistir ao emergir de vários movimentos sociais, vindos de várias correntes sejam elas anti-globalização ou apologistas da globalização. Estes movimentos sociais visam pressionar os Estados a assumirem as suas responsabilizações económicas, ambientais e sociais. A tudo isto Allemand e Borbolan chamam “cidadania global” (2001, p. 61). Esta é a prova de que a globalização tem um cada vez maior peso na mobilização da opinião pública.

Partindo do princípio que a democracia requer uma aprendizagem, a participação da sociedade civil tem a vantagem de pressionar e questionar a acção dos Estados. Este contexto, leva a que se faça notar a necessidade de criação de uma “new governance”, que associe mais directamente a sociedade civil aos debates sobre os grandes problemas de carácter planetário.

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