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Langsgående tøyning – Tid

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4.3.3 Langsgående tøyning – Tid

Como uma das alternativas de instituição a aglutinar os envolvidos com a retomada da luta anti-racismo em 1979, o CECERNE tinha o desafio de conciliar posições bastante díspares. Eis a razão, segundo Silvio Ferreira, para o estatuto proposto ser um “saco de gatos”. A proposta de logomarca470

também reflete essa ideia de união, ao mesmo tempo que remete ao aperto de mão característico da comunicação entre negros.

O CECERNE não chegou a ter sua diretoria empossada nem seu estatuto aprovado e após o lançamento do livro do escritor Abdias do Nascimento, Silvio Ferreira, um dos seus pioneiros e idealizadores, se afastou, alegando a existência de um “fosso ideológico-racial entre nós e a Entidade”.471 O fosso, de fato, ocorreu entre Ferreira e seus aliados e o grupo

contrário à tese de Gilberto Freyre. Os aliados de Silvio Ferreira, principalmente o jornalista Paulo Viana, assumiram a condução do CECERNE. Foi por meio da pesquisa jornalística que acompanhamos a trajetória dessa Entidade até o ano de 1986. Apesar de desvinculado do CECERNE, Silvio Ferreira continua realizando palestras sobre a cultura negra,472 sempre como professor e/ou psicólogo, sem qualquer vinculação institucional, exceções para a matéria do Jornal do Commercio de 13/05/1983,473 na qual é citado como membro da Associação Brasileira de Antropologia – ABA, e em matéria de 14 de fevereiro de 1986, quando o mesmo figura como Diretor do Centro de Estudos Afro-Brasileiros da FUNDAJ.

Segundo o JC de 13/maio/1981, o CECERNE foi fundado em 20 de novembro de 1979,

...com a finalidade de preservar e valorizar os costumes e tradições da raça negra bem como estimular os estudos e as pesquisa concernentes à temática do negro e seus descendentes. São também objetivos do movimento: combater o racismo e o preconceito de cor onde quer que se façam presente ou manifestem em quaisquer circunstâncias; conscientizar racialmente o

470 Acervo: Inaldete P. Andrade. 471 FERREIRA, op. cit., p. 43. 472 JC, 13/05/1981; 14/05/1981.

473 JC, 13/05/1983 – Palestra realizada no Arquivo Público Estadual com o tema: “O negro no Brasil – de

negro a recuperar sua identidade étnica historicamente perdida; conscientizá- lo e a seus descendentes da secular situação de exploração econômica, política e social a qual se encontra historicamente subjugado e promover cursos, ciclos de palestras pesquisa e outras atividades de caráter interno, referentes à vida, hábitos e costumes da raça negra.474

Conforme pesquisa em dois jornais locais,475 a sigla CECERNE continua a mesma, porém há mudança em seu significado. Antes era Centro de Cultura e Emancipação da Raça

Negra; nas citações encontradas para os anos de 1984 e 1986, a instituição citada era Centro

de Cultura e Estudo da Raça Negra – CECERNE. O que me leva a inferir que o grupo reforçou seus interesses de constituir uma organização negra na qual a cultura e o estudo fossem os eixos centrais. As atividades realizadas, ao menos aquelas publicadas na imprensa local, revelam essa opção. Em publicação de maio de 1984, o JC inicia desta forma uma matéria:

Entre as solenidades comemorativas ao 13 de maio está o ato que o Centro de Cultura e Estudo da Raça Negra – CECERNE fará em Suape, simbolizando o tombamento de um baobá – árvore símbolo da África – encontrado no perímetro do Complexo Industrial Portuário mandado preservar pelo diretor-presidente Eliezer Menezes. Em torno da árvore, o Teatro de Equipe do Recife encenará o auto do jornalista Paulo Viana „Banzo – a dor que mata o negro‟. 476

Observa-se que além do tombamento do Baobá, constava na programação deste evento visita ao Engenho Massangana,477 onde conheceram a casa-grande e uma “autêntica senzala”, e sessão solene no Colégio Joaquim Cardoso, no bairro de Tejipió. Durante a visita ao Engenho Massangana foi representado um texto de Silvio Ferreira, “Evocações da Senzala”; Paulo Viana, então presidente do CECERNE, fez

a exaltação à „mãe preta‟, procedendo ao lançamento da campanha em prol da ereção de um monumento votivo à negra que embalou e amamentou a geração branca dos séculos passados, dívida que a sociedade pernambucana tem a saldar para com a raça negra, e que agora passará a ser cobrada.478

474 JC. 13 de maio de 1980.

475 Os jornais pesquisados foram o Jornal do Commercio e o Diário de Pernambuco.

476 JC 13/ 05/ 1984. Não tenho, até o momento, confirmação se esse tombamento se efetivou.

477 Construído no século XIX, foi onde Joaquim Nabuco passou parte de sua infância. Localizado no município

do Cabo de Santo Agostinho, abriga atualmente o Centro Cultural Engenho Massangana, ligado à FUNDAJ.

Em novembro de 1984, o CECERNE comemorou o Dia Nacional da Consciência Negra com uma palestra do pesquisador Clovis Melo sobre “Zumbi: o negro e a abolição”.479

Em 12 de maio de 1985, o JC publicou que Ferreira realizou palestra no Museu da Abolição com o tema “O Negro após a Abolição: a década de 30 e as associações afro-brasileiras em Pernambuco”. Em 1986, a instituição participou das comemorações ao 13 de maio na cidade do Cabo, realizando a encenação do auto-dramático “Noite dos Tambores Silenciosos” escrito por Paulo Viana, idealizador de evento com nome homônimo, que acontece todas as segundas-feiras de carnaval do Recife no Pátio do Terço. A mesma matéria informa que a Secretaria Estadual de Educação realizou o “Projeto: Pernambucanos, vamos homenagear a abolição!”. Apesar de os textos jornalísticos serem enfáticos quanto ao caráter comemorativo das atividades, é possível garimpar falas que refletem a posição hegemônica dentre os movimentos negros da necessidade de fazer do 13 de maio uma data de reflexão. Em 1986, Silvio Ferreira, então diretor do Centro de Estudos Afro-Brasileiros da FUNDAJ, “rejeita a comemoração desta data preferindo tomá-la como ponto de partida para uma reflexão crítica”.480 Segundo pesquisas em jornais, no ano de 1986 foi encontrada a última referência

ao CECERNE. Não posso afirmar que a instituição encerrou suas atividades naquele ano, porém não encontrei mais registros de suas atividades posteriores.

Entre os anos de 1980 até o ano de 1986 o CECERNE e o Movimento Negro do Recife/MNR atuaram simultaneamente, não sendo constatada a absorção de um pelo outro. Percebe-se, também, a identificação do CECERNE com uma luta contra o racismo que, apesar de negar o 13 de maio e exaltar Zumbi, se expressava de forma bastante tímida no que se refere à construção de um discurso de oposição radical ao mito da democracia racial.

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