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4 – RESULTADOS E DISCUSSÃO 4.1 – INTRODUÇÃO

Com o objetivo de fazer um estudo comparativo entre os processos de nitretação por plasma convencional DCPN e tela ativa ASPN, foram realizados tratamentos em amostras de aço AISI 1020, que apresenta estrutura ferrítica e baixa concentração de elementos de liga. Os

processos foram realizados em atmosfera de 80%N2– 20%H2e temperaturas de 673, 773 e

843 K, sob pressão de 360 Pa. Este capítulo está dividido em três partes.

No primeiro tópico analisamos a eliminação do efeito de bordas. São abordados os diversos parâmetros investigados e suas variações com vistas à obtenção de camadas com propriedades e morfologia equivalentes às apresentadas pelas amostras tratadas pelo processo DCPN. A seguir, são apresentados os resultados dos ensaios de microdureza, que foram realizados sistematicamente ao longo das superfícies das amostras para ambos os processos. No terceiro tópico são apresentadas e discutidas as composições e fases formadas, a partir das análises dos espectros de difração de raios-X característicos, associados aos dois processos. 4.2 – FORMAÇÃO DO PLASMA

No processo de nitretação a plasma DCPN as amostras são envolvidas pelo plasma, de modo que as partículas que o compõem possam interagir diretamente com as superfícies a serem tratadas. O aspecto visual desta interação plasma-superfície pode ser observado na figura 4.1(b). Nesta configuração a temperatura de tratamento necessária para a realização dos processos é obtida diretamente da transferência de energia das partículas do plasma com superfície do material. Assim, amostras com alturas diferentes apresentam um gradiente térmico entre o topo e base que afeta as características das camadas formadas.

Quando as amostras são colocadas dentro da tela ativa, diretamente sobre o porta amostras, ou seja, quando não estão isoladas eletricamente (não permanecem em um potencial flutuante), o efeito de borda torna-se evidente, do mesmo modo que nas amostras nitretadas em DCPN.

Por sua vez, no processo ASPN as amostras permanecem no interior da tela ativas, isoladas eletricamente sobre uma pastilha de cerâmica, não estando, portanto, submetidas à interação direta com as partículas do plasma. Na figura 4.1(a) podemos observar como o

plasma é formado sobre a superfície da tela. Dessa forma, o aquecimento das amostras se dá essencialmente pela radiação térmica proveniente da tela, o que devido à sua simetria geométrica, proporciona uma distribuição uniforme do calor.

Figura 4.1 - Aspecto visual da formação do plasma no processo (a) ASPN e (b) DCPN.

4.3 – ASPECTO MICROESTRUTURAL DAS AMOSTRAS NITRETADAS

O exame visual das amostras nitretadas revela que a nitretação a plasma convencional DCPN produz uma superfície não uniforme, principalmente para as amostras de altura maior

(A)

ou igual a 3 mm e pressões elevadas, como 360 Pa. A coloração superficial varia do centro para a periferia das amostras nitretadas (ALVES JR. et al., 2001). Este fenômeno é conhecido como efeito de bordas, que é um problema comum associado ao processo DCPN, provocado pela competição existente entre sputtering e deposição durante o processo, devido a alterações no campo elétrico em cantos e arestas, como mostrado na Figura 4.2 (a).

Em comparação a nitretação ASPN, produz uma coloração cinza escura, uniforme em toda a extensão superficial das amostras, independente da temperatura, da altura das amostras (1, 3, 5, 8 e 10 mm) e para pressão elevada (360 Pa). Como o plasma não é formado diretamente na superfície das amostras, estas não sofrem sputtering ativo e com isso, os defeitos causados pelo efeito de borda são eliminados, como observado na Figura 4.2 (b).

Figura 4.2 – Defeito de bordas (a) em DCPN e a eliminação do efeito de bordas (b) em ASPN.

No processo DCPN utilizou-se a composição 20%N2+ 80% H2. A técnica ASPN com

baixo percentual de N2 e dependendo da pressão de trabalho, só apresenta camada de

compostos para tempos longos, como 20 horas de tratamento; por isso foram utilizadas

misturas de gases com composições de 20% N2+ 80% H2, 50% N2+ 50% H2 e 80% N2+

20% H2, sendo que com as duas primeiras misturas foram obtidas zonas de difusão, porém o

$,6,

$,6,

D









 

E

percentual de nitrogênio não foi suficiente para formação da camada de compostos. Assim, o

percentual de N2foi aumentado para 80% a fim de obter-se camadas de compostos, com

tempo de tratamento equivalente ao do processo DCPN, isto é, 3 horas, conforme mostrado na figura 4.3.

A técnica ASPN é mais versátil, permitindo obterem camadas nitretadas com ou sem camada de compostos. Amostras sem camada de compostos apresentam maior resistência ao desgaste, porque não existe a possibilidade da camada de compostos ser destacada.

Figura 4.3 - Micrografias de amostras tratadas em ASPN nas condições (A) 20 % N2e (B)

50 % N2e (C) 80 % N2.

Observa-se que embora a espessura e a morfologia da camada nitretada sejam afetadas pelo tempo e pela temperatura de nitretação, o método de nitretação por plasma utilizado (DCPN ou ASPN) não apresentou nenhuma variação sobre o aspecto morfológico. No entanto, observa-se da Figura 4.4 que o processo ASPN produz camadas de espessura relativamente uniforme, independentemente da altura das amostras utilizadas. No processo

(A)

(B)

(C)

=RQDGH'LIXVmR γγγγ¶ =RQDGH'LIXVmR γγγγ¶ =RQDGH'LIXVmR &DPDGDGHFRPSRVWRV γγγγ¶

DCPN, ao contrário, isto não ocorre, devido às diferenças de temperatura nas amostras de alturas diferentes.

Figura 4.4 - Micrografias (500X) de amostras tratadas em (A) DCPN e (B) ASPN.

A Tabela 4.1 apresenta um comparativo das medidas de espessuras de camadas obtidas nas amostras de aço AISI 1020 obtidas por ambas as técnicas, demonstrando que as espessuras de camadas de compostos são equivalentes para temperaturas de até 773 K. Já a

8 mm - 843 K - 360 Pa 1 mm - 843 K - 360 Pa (A) 10 mm - 843 K - 360 Pa (B) =RQDGH'LIXVmR &DPDGDGHFRPSRVWRV &DPDGDGHFRPSRVWRV =RQDGH'LIXVmR =RQDGH'LIXVmR =RQDGH'LIXVmR =RQDGH'LIXVmR =RQDGH'LIXVmR &DPDGDGHFRPSRVWRV &DPDGDGHFRPSRVWRV &DPDGDGHFRPSRVWRV &DPDGDGHFRPSRVWRV γγγγ¶

espessura da zona de difusão obtida pela técnica ASPN, nestas condições de trabalho, é bem maior.

Tabela 4.1 - Espessura das camadas nitretadas pelos processos DCPN e ASPN.

A figura 4.4 mostra que as amostras de 8 e 10 mm de altura tratadas a 843 K apresentam na camada nitretada uma fase de grãos colunares, resultante da transformação do Fe - γ em Fe - α, comprovando que a superfície das amostras se encontram a temperaturas

mais elevadas, porque esta transformação começa a ocorrer no resfriamento lento de

amostras que se encontram em temperaturas em torno de 873 K. De fato, as espessuras das camadas de compostos das amostras tratadas nestas condições são bem maiores nas amostras DCPN, especialmente para as de alturas maiores. Por sua vez, o mesmo não ocorre em ASPN, devido à temperatura ser relativamente uniforme, não havendo um gradiente de temperatura entre o porta amostras e o topo das amostras, conforme mostrado na figura 4.4 (B).

4.4 – ANÁLISE DE MICRODUREZA

A microdureza medida ao longo da superfície das amostras pela técnica DCPN e ASPN são mostradas na figura 4.5, respectivamente. As amostras tratadas na técnica DCPN

(gráficos à esquerda) apresentam uma região próxima à borda em que a dureza superficial da camada nitretada cai sistematicamente. Essa característica deve-se ao sputtering não-uniforme que ocorre devido ao efeito de bordas. É conhecido que em bordas imersas em plasma a curvatura das linhas de campo elétrico define uma incidência oblíqua de partículas do plasma em uma região ao longo da borda. Como o sputtering oblíquo é mais efetivo que o sputtering com incidência normal, há nessa região um predomínio da taxa de sputtering comparada à taxa de deposição superficial (SOUSA, 2005). Então, em peças contendo bordas imersas em plasma a dureza da camada nitretada mostra-se não-uniforme. Os maiores valores de microdurezas (picos) que aparecem na borda de cada amostra tratada em DCPN estão relacionados aos efeitos térmicos (maior aquecimento) inerentes à técnica, levando a maiores espessuras de camadas de compostos nesse tipo de aço. Contrariamente, as amostras tratadas pela técnica ASPN (gráficos à direita) mostram uma completa uniformidade da dureza ao longo da superfície da amostra. Ou seja, a técnica ASPN suprime os efeitos de bordas uma vez que o sputtering ativo se dá na tela e não na amostra (LI e BELL, 2003).

No entanto, os resultados mostraram que, mesmo para diferentes temperaturas, a dureza média foi equivalente para ambos os processos de tratamento, independente da altura das amostras.

Figura 4.5 – Dureza Superficial em aço 1020 nitretados pelos processos DCPN e ASPN, respectivamente.

4.5 – ANÁLISE DE DIFRAÇÃO DE RAIOS-X

Os processos de nitretação por plasma DCPN convencional e tela ativa ASPN produzem microestruturas semelhantes, conforme a análise de raios-X mostrados nas figuras 4.6, 4.7 e 4.8.

Uma análise mais detalhada dos espectros de raios-X mostra que nitreto γ’- Fe4N está

presente em maior quantidade em todas as amostras tratadas em DCPN quando comparadas ao processo ASPN. Esse efeito deve-se ao sputtering que ocorre no cátodo, efeito inerente ao

+

9



processo DCPN. Segundo (RUCET, 2003) o sputtering provoca descarbonetação superficial

em aços nitretados, favorecendo a estabilização do nitreto γ’- Fe4N. No processo DCPN de

aços baixa-ligas (0,26 C, 3,44 Cr, 0,54 Mo e 0,48 Mn) as intensidades do nitretos ε-Fe2-3N são

ligeiramente menores do que os de γ’- Fe4N, a intensidade relativa entre as fases Iε/Iγé 0,97

(LI et al., 2003).

Na técnica ASPN, como sputtering na superfície das amostras é minimizado (o sputtering intenso se dá na tela ativa), não ocorre descarbonetação superficial e isso favorece

uma maior formação do nitreto ε-Fe2-3N, conforme nas figura 4.6, 4.7 e 4.8. Os picos de γ’-

Fe4N foram menores no processo ASPN, nesse caso a intensidade relativa entre as fases Iε/Iγ

aumentou para 5,97 (LI et al., 2003). Segundo (LI et al., 2003) essa predominância do nitreto

ε-Fe2-3N no processo ASPN em detrimento de γ’- Fe4N, ocorre de maneira mais acentuada

quando a tela ativa é confeccionada de aço carbono.

Figura 4.6 - Difratogramas de raios-X das amostras nitretadas a 673 K / 360 Pa.

Altura da amostra: 35 40 45 50 Condição 673 K / 500 Pa/DCPN Fe ε γ , + ε , γ 10 mm 8 mm 5 mm 3 mm 1 mm In ten s idad e 2θ 35 40 45 50 Fe ε γ , + ε γ , Condição 673 K / 500 Pa/ASPN 10 mm 8 mm 5 mm 3 mm 1 mm In tens idad e 2θ 35 40 45 50 ε Condição 673 K / 500 Pa/ASPN/Rasante γ , + ε ε Fe γ , 10 mm 8 mm 5 mm 3 mm 1 mm Int ens idade 2θ

Condição 673 K / 360 Pa/DCPN Condição 673 K / 360 Pa/ASPN

Condição 673 K / 360 Pa/ASPN- Rasante

Fe + C r Fe + C r

Nas amostras nitretadas em DCPN à medida que a altura das amostras aumenta, a fase

ε-Fe2-3N torna-se mais estável. Isso evidencia que há aumento na temperatura superficial para

amostras com maiores alturas. É também percebido que no processo DCPN à medida que a altura da amostra aumenta a quantidade relativa entre Fe e N na superfície nitretada diminui,

mostrando o aumento da difusividade do N2.

Nas amostras tratadas por ASPN, conforme mostrado nas figuras 4.6, 4.7 e 4.8, não há variação das intensidades relativas dos picos de ε, γ’ e ε + γ devido a maior uniformidade da temperatura sobre as amostras. Os espectros de raios-X do processo ASPN mostra picos de Fe associado ao Cr, a presença do elemento Cr deve-se ao fato de que a tela ativa foi confeccionada em aço inoxidável.

Figura 4.7- Difratogramas de raios-X das amostras nitretadas a 773 K / 360 Pa.

35 40 45 50 Fe ε γ , ε γ , + ε 773 K / 360 Pa / DCPN - Rasante 10 mm 8 mm 5 mm 3 mm 1 mm In te nsi d ade 2θ 35 40 45 50 Fe ε γ , γ , + ε Condição 773 K / 360 Pa/DCPN 10mm 8mm 5mm 3mm 1mm Int ens idad e 2θ 35 40 45 50 Condição 773 K / 360 Pa/ASPN Fe ε γ , γ , + ε ε 10 mm 8 mm 5 mm 3 mm 1 mm Int e nsidade 2θ Fe + Cr 35 40 45 50 ε Fe ε γ , γ , + ε 773 K / 360 Pa/ASPN/Rasante 10 mm 8 mm 5 mm 3 mm 1 mm Intensid ade 2θ Fe + C r

Figura 4.8 - Difratogramas das amostras nitretadas a 843 K / 360 Pa.

As amostras tratadas em ASPN apresentaram uma pequena formação do nitreto ε devido ao baixo teor de carbono na tela ativa, a qual foi confeccionada em aço inoxidável AISI 316. Também se pode comprovar o baixo teor de carbono pela predominância de ε + γ’ na superfície.

Em DCPN para as amostras de 8 e 10 mm de altura tem-se picos de Fe-α, resultante da transformação do Fe-γ em Fe-α, comprovando que estas amostras apresentam na superfície temperatura em torno de 913 K (LIMA, 2003).

Os difratogramas de raios-X revelam uma variação nas intensidades relativas dos picos dos nitretos ε, γ’, ε + γ’ das amostras com diferentes alturas nitretadas pelo processo DCPN. Esta variação de intensidade dos picos se deve a uma variação de temperatura entre a

Fe + Cr 35 40 45 50 ε Fe ε ε γ , γ , + ε 843 K / 360 Pa / DCPN - Rasante 10 mm 5 mm 8 mm 3 mm 1 mm Inte ns id ad e 2θ 35 40 45 50 Condição 843 K / 360 Pa/DCPN γ , + ε Fe γ , 10 mm 8 mm 5 mm 3 mm 1 mm Inten s ida d e 2θ 35 40 45 50 Condição 843 K / 360 Pa/ASPN γ , + ε ε ε Fe , γ 10 mm 8 mm 5 mm 3 mm 1 mm In te nsida d e 2θ / DCPN / ASPN 35 40 45 50 843 K / 360 Pa/ASPN/Rasante Fe γ , + ε γ , 10 mm 8 mm 5 mm 3 mm 1 mm In te ns idade 2θ Fe + Cr γ’+ ε γ’+ ε

base e o topo das amostras, podendo esta variação chegar a 100oC, nas amostras de 10mm de altura (Sousa, 2005). Como há uma uniformidade de temperatura no processo ASPN, não ocorre variação com a altura das amostras, das intensidades relativas dos picos dos nitretos acima citados, como podemos confirmar através dos difratogramas de raios-X Bragg-Bretano e também em ângulo rasante. A temperatura é uniforme porque as amostras estão em um potencial flutuante e são aquecidas por radiação da tela ativa.

Para uma maior eficiência do processo ASPN, a distância das amostras para a superfície lateral da tela deve ser no mínimo 28 mm (LI e BELL, 2003).

Capítulo 5

Conclusões

5 - CONCLUSÕES

A nitretação a plasma em tela ativa (ASPN) produz as mesmas propriedades em relação a nitretação a plasma convencional (DCPN). No entanto, a técnica ASPN elimina os problemas comuns associados com o processo DCPN, como por exemplo, o efeito de bordas.

Como no processo ASPN não ocorre sputtering ativo superficial das amostras,

favorece uma maior formação do nitreto ε-Fe2-3N em relação ao nitreto γ’- Fe4N, ao contrário

do que ocorre no processo DCPN.

No processo ASPN o teor superficial de nitrogênio é maior do que no processo DCPN,

porque o percentual, em peso, de nitrogênio do nitreto é superior ao do nitreto γ’- Fe4N.

Os difratogramas de raios-X revelam uma variação nas intensidades relativas dos picos dos nitretos ε, γ’, ε+ γ’ das amostras com diferentes alturas nitretadas pelo processo DCPN. Esta variação de intensidade dos picos se deve a uma variação de temperatura entre a base e o topo das amostras. Como há uma uniformidade de temperatura no processo ASPN, não ocorre variação, com a altura das amostras, das intensidades relativas dos picos dos nitretos acima citados. A temperatura é uniforme porque as amostras estão em um potencial flutuante e são aquecidas por radiação da tela ativa.

Além disso, este processo permite o controle, variando-se a composição gasosa, das espessuras relativas das camadas de compostos na camada nitretada.

Finalmente, fenômenos indesejados, tais como abertura de arco e efeito cátodo oco, em amostras com furos e arestas, ocorrerão na tela catódica ao invés da superfície das amostras.

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