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3 Materials and methods

5.2 Fertiliser application

Em suma, a linguagem é, ela mesma, um órgão.

Jacques Lacan

Em uma situação grupal, um dos participantes não cessa de falar. Com intuito de justificar a sua incontinência verbal, diz a todos, em um tom professoral: “Veja bem, são seis os órgãos dos sentidos: a visão que nos permite o acesso às imagens... a audição que faz com que ouvimos a voz das pessoas e todos os outros sons... com o olfato, podemos sentir os aromas de comidas, cheiros de perfumes, odores ruins também..., com o tato, percebemos a pele, tateamos os contornos das coisas, se são pontudas, arredondadas, macias...; já o paladar é o órgão responsável pelo gosto, os sabores amargo e doce e, finalmente, aquele que nos permite emitir sons e palavras: o órgão da fala...”

Roland Barthes (2010) escreve nas últimas linhas de seu livro O prazer do texto, que se fosse possível imaginar uma estética do prazer textual, fatalmente incluir-se-ia nela a escritura em voz alta. Nessa articulação entre corpo e língua sucede a exteriorização corporal do discurso; o grão da voz, como ele pronuncia, marcado pela repetição, este misto erótico de timbre e linguagem, cujo objetivo não seria, por assim dizer, a clareza da mensagem, mas, sobretudo, a arte de conduzir o próprio corpo. Esta escritura vocal, que não se trata absolutamente da fala, não é mais tão praticada já que a melodia está morta, como ele próprio enfatiza e, talvez, hoje seja possível encontrá-la no cinema mais facilmente:

Basta com efeito que o cinema tome de muito perto o som da fala (é em suma a definição generalizada do “grão” da escritura) e faça ouvir na sua materialidade, na sua sensualidade, a respiração, o embrechamento, a polpa dos lábios, toda a presença do focinho humano (que a voz, que a escritura sejam frescas, flexíveis, lubrificadas, finamente granulosas e vibrantes como o focinho do animal), para que consiga deportar o significado para muito longe e jogar, por assim dizer, o corpo anônimo do ator em minha orelha: isso granula, isso acaricia, isso raspa, isso corta: isso frui (2010, p. 78).

Grosso modo, a psicanálise é uma experiência de fala e não de escrita; como costuma-se dizer, a sua proposição se funda numa regra fundamental: falar supostamente livre23. Ora, este jargão “fale tudo o que vier a sua cabeça” daria para ser substituído por

23 Marco Antônio Coutinho Jorge comenta que, ao tomar a tese freudiana do determinismo psíquico, segundo a qual todos os atos, vontades, ditos, etc. dos sujeitos são determinados de modo universal -, Lacan pondera que, a rigor, a chamada regra de associação livre esteia-se precisamente no fato de que a associação produzida pelo sujeito em análise não é nada livre, mas ao contrário, demasiadamente determinada, (por

um outro: “fale tudo o que se passa pelo seu corpo”. Fale do desejo, do possível, da loucura, da morte, da infância, da velhice, da violência, do amor... Apesar de não ser a situação analítica o assunto tratado por Barthes, parece que a sua proposição pode ser vislumbrada nesta situação onde deve perseverar a suspensão dos significados para advir o sujeito, propósito da escuta se se deseja fazer que prevaleça em sua particularidade; nas suas palavras, “o prazer do texto é isso: o valor passado ao grau suntuoso do significante” (BARTHES, 2010, p. 77). É possível que aí esteja localizada uma ética do analista que se funda quando o seu inconsciente não abafa nem neutraliza o singular, não silencia o sujeito, mas o faça falar. Neste aspecto diz-se que a interpretação do analista para Lacan é uma pontuação do discurso do analisando e não um acréscimo de sentido (JORGE, 2007). Ora, dá para dizer que o texto de Barthes alude ao campo da linguagem, precisamente, quando o seu autor declara “eu me interesso pela linguagem porque ela me fere ou me seduz” (2010, p.47). Ao falar da linguagem fora da pele, ele aponta para a articulação do corpo e da língua e não do sentido e da linguagem, quer dizer, a sua frase não é, necessariamente, uma figura de linguagem; é também o que como ocorre em algumas condições onde a extravagância dos significantes encontra a sua máxima, como veremos, na psicose.

Como se sabe, a teoria psicanalítica não cessa a sua análise sobre este tema, contudo este não é um empreendimento restrito a este campo, uma vez que tem se elaborado em muitos outros, como é o caso da filosofia, da educação, da literatura e das artes. Nesse sentido, constata-se que a linguagem é, para muitos, um interesse comum: o analista, o educador, o filósofo, o escritor, o artista (ou crítico de arte) ocupam-se dela, cada qual em seu contexto, em seus ambientes e com suas aparelhagens conceituais.

Contudo, com as contribuições da psicanálise, passou-se a entender a linguagem como produção; não só consciência, mas, sobretudo, inconsciente, e isto produz um salto acompanhado de uma série de desdobramentos. O descentramento do sujeito, constructo da psicanálise freudiana e lacaniana, abriu um terreno fecundo, um caminho a perseguir, mas, com a cautela de não operar um discurso totalizador (ademais, sabemos com o

isso, aqui, nesta dissertação, empregou-se o termo ‘supostamente’). Com base nestas constatações, a categoria freudiana da sobreterminação inconsciente põe em evidência a primazia do simbólico na constituição do sujeito, daí Lacan sustentar que, para Freud, “o sintoma é estruturado como uma linguagem” (JORGE, 2011).

próprio Freud que o inconsciente é uma hipótese de trabalho). Vale a pena, então, insistir no uso do artigo indefinido “um”, pois como mostra Fink (1998), ao falar do discurso lacaniano, a psicanálise não é de forma alguma um discurso essencial, sendo apenas um discurso entre outros.

Todavia, se é a linguagem que concede um corpo ao sujeito para a psicanálise, a linguagem na psicose torna-se um mote, por vezes, uma vertente de pesquisa, dada as características próprias deste fenômeno, não por mero acaso, frequentemente, o termo clínica da psicose é utilizado para se fazer uma marca distintiva. Sobre isto, é assim que escreve a psicanalista Colette Soler, ao se referir ao texto lacaniano “De uma questão preliminar a todo tratamento possível das psicoses”:

[...] Lacan inclui a psicose no que chamou de função da fala e da linguagem. Afirmou que a relação com o significante, obra da linguagem, é o que constitui a unidade da neurose e da psicose. O que constitui sua unidade e também sua diferença. Observo, de passagem, que essa inclusão da psicose no campo dos fatos da linguagem é situada por ele como parte do “aspecto do fenômeno”, daquilo que aparece, portanto, ao passo que na neurose, ao contrário, a estrutura linguageira do sintoma só aparece por meio da decifração (1955- 56/2007, p.11).

Com efeito, no campo das estruturas clínicas, a linguagem está para todos, mesmo que ela opere de modos distintos. Clinicamente, esta questão é um ponto de partida que inaugura um posicionamento crucial com relação ao discurso médico, pois “a clínica psicanalítica não é uma clínica descritiva nem fenomenológica, mas é uma clínica estrutural, na medida em que o diagnóstico se estabelece na transferência” (CALLIGARIS, 1989, p. 9).

Com a descoberta do inconsciente por Freud e, posteriormente, com as contribuições de Lacan que forja a acepção, “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”, constata-se que o psicótico lida com a linguagem de forma bastante particular e peculiar. Em seu seminário que trata das psicoses, Lacan diz:

É clássico dizer que, na psicose, o inconsciente está à superfície, é consciente. Por isso mesmo não parece que isso tenha grande efeito em ser articulado. Nessa perspectiva, bastante intrusiva em si mesma, podemos observar de saída que não é pura e simplesmente, como Freud sempre sublinhou, desse traço negativo de ser um Unbewusst, um não consciente, que o inconsciente guarda a sua eficácia. Traduzindo Freud, dizemos – o inconsciente é uma linguagem. Que ela seja articulada nem por isso implica dizer que ela seja reconhecida. A prova é que tudo se passa como se Freud traduzisse uma língua estrangeira, e mesmo a reconstituísse recortando-a. O sujeito está simplesmente, no que diz respeito à sua linguagem, na mesma relação que Freud. A se supor que alguém possa falar

numa língua que lhe seja totalmente ignorada, diremos que o sujeito psicótico ignora a língua que fala (1955-1956/ 2008, p.21).

Ao expor esta metáfora, Lacan não a reconhece como satisfatória, pois, para ele, a questão não é por que o inconsciente permanece não assumido no sujeito, mas porque ele aparece no real. A exemplo disso, as alucinações – mas não somente elas - são entendidas, do ponto de vista da psicanálise, como aquilo que é rejeitado pelo sujeito e por isso apresenta-se para ele como algo que lhe é exterior.

Ainda neste seminário dedicado às psicoses, ocorrido entre 1955 e 1956, a hipótese lacaniana é que previamente a qualquer articulação simbólica, haveria uma etapa em que uma parte da simbolização não efetivaria na psicose; o que não foi simbolizado vai se manifestar no real, que, por sua vez, trata-se do registro do irrepresentável:

Não é inútil lembrar-lhes a esse respeito minha comparação do ano passado entre certos fenômenos da ordem simbólica e o que se passa nas máquinas, no sentido moderno do termo, essas máquinas que não falam ainda completamente, mas que vão falar de um minuto para o outro. Elas são alimentadas com pequenas cifras e espera-se que nos dêem o que teríamos talvez posto cem mil anos para calcular. Mas não podemos introduzir coisas no circuito a não ser respeitando o ritmo próprio da máquina – senão isso fica abaixo do limiar, isso não pode entrar nela. Pode-se retomar a imagem. Sucede, entretanto, além disso, que tudo o que é recusado na ordem simbólica, no sentido da Verwerfung, reaparece no real (LACAN, 1955-1956/ 2008, p.22).

Esse processo de não reconhecimento do que fala pelo sujeito que fala é farto de repercussões. Na loucura, os conteúdos inconscientes encontram-se mais manifestos, daí a expressão lacaniana que o inconsciente encontra-se “a céu aberto na psicose”. É bastante comum escutar na clínica com psicóticos expressões do tipo: “falam em mim, usam a minha boca para dizer tal coisa, fui impelido a pronunciar tais palavras ou conduzindo a dizer outras, mesmo não concordando, etc.”.

Com base na teoria dos discursos de Lacan, costumou-se recorrer à expressão “fora-do-discurso”, atribuição dada aos psicóticos para tentar elucidar o modo como circulam pelos laços sociais. Ademais, também é fato que são os mestres da linguagem como afirma Lacan, o que pode ser traduzido, de forma sumária, como aqueles que estão “de fora”, e não fora da linguagem; o psicótico está, portanto, fora dos discursos e é mestre deles, justamente porque é o seu avesso, pois a sua interferência se dá desarranjando os costumes e desacomodando os hábitos da ordem social (QUINET, 2006). Cabe acrescentar que, quando Lacan atribui ao louco como o avesso dos discursos,

é por acreditar que ele nos interroga sobre a forma como nos relacionamos com os outros. Sobre isso, escreve Quinet:

Como se manifesta no psicótico o discurso pulverulento? Fragmentando a linguagem, despedaçando seu corpo (que, no caso do esquizofrênico, não é tomado em nenhum discurso), desobedecendo a partilha dos sexos (tendência ao transexualismo – travessia dos sexos -, ou empuxo-à-mulher) por estar para além da norma fálica, presentificando a morte como recusa do laço. Ele também ataca o laço social não só não entrando nele mas criticando-o, apontando suas impossibilidades e denunciando o semblante social. Ele aponta igualmente a inconsistência do Outro: o Outro como garantia da lei e do amor. Outras armas que ele utiliza para rasgar os semblantes e acabar com o Outro no social são a ironia, o cinismo e a descrença (2006, p. 53).

Numa primeira elaboração, Lacan supõe que, em virtude da falha na função do pai, enquanto função simbólica, o psicótico sofre as consequências de ter suas palavras aprisionadas à sua pura literalidade, onde a relação do sujeito com o significante ocorre em seu caráter puro, quer dizer, o significante não circula na cadeia. O caráter de literalidade da palavra pode ser verificado a partir de exemplos advindos da clínica com psicóticos como veremos adiante. Mas, já deparamos com esse fenômeno em uma das cenas desenvolvidas para situar a primeira ambientação desta dissertação, a qual traz o impasse da moça que se recusa a entrar no supermercado Pão de açúcar pelo fato de lá “ser um lugar de gente feliz”, como prega o seu slogan; não se considera feliz, portanto, não entra. Além desta situação, temos uma outra: trata-se de uma jovem que leva para o atendimento as suas dificuldades, enfrentadas cotidianamente, com a lição de casa de um curso de capacitação para o trabalho, destinado a egressos do ensino médio e que ainda não se inseriram no mercado. Uma dessas dificuldades fora apresentada através de um enunciado do exercício de língua portuguesa, o qual pedia para que completasse as frases de vários ditos populares, todos bastante conhecidos. Ao observar o exemplo que ilustrava como a tarefa deveria ser feita, ela considera tudo aquilo incoerente, ameaçando deixar o exercício em branco, mesmo com condições (cognitivas, intelectuais) para resolvê-lo. Então, decide fazê-lo a sua maneira, correndo o risco de não acertá-lo; nesse sentido, na frase que deveria ser assim completada: “Em terra de cego, quem tem um olho é rei”; ela insiste em continuá-la de outro modo: “Em terra de cego, quem tem um olho, enxerga”. Altera o ditado popular, aclamando os seus princípios com a declaração: “Não gosto dessas mentiras!”.

Pois bem, este capítulo, no conjunto dessa dissertação, pretende ser o último ambiente, um ambiente marcado por um procedimento mais usual, em geral, atribuído

como a clínica no seu sentido stritu sensu, cujo enquadre é o atendimento individual em que a escuta é o procedimento do trabalho que, vale dizer, desde a invenção freudiana, não caduca.

A construção, pela via da escrita, deste ambiente, foi tomando a forma de apresentação de caso clínico, necessidade tão frequente dos processos de tratamento, embora esta não tenha sido exatamente a tarefa essencial deste texto. Em outras palavras, não foi o intuito esmiuçar a apresentação do paciente e sua problemática, a prática clínica de quem escuta, a saber, os impasses e os manejos da transferência nem tampouco o rumo do tratamento e seus resultados. Cumpre repetir que não foi priorizado este aspecto, o que não quer dizer que tenha sido menosprezado; dá para dizer que está tudo isso aí, mas o acento está em outro lugar, ou seja, este último ambiente, decerto, poderia ser desenvolvido sob diversos recortes, contudo, priorizou-se o enfoque na questão da linguagem na psicose, por isso, o subtítulo: o ateliê de palavras.

Também capítulos e ambientes precedentes a este, a escrita da experiência na clínica ocupou uma função primordial por se tratar de uma tarefa indispensável à confecção da dissertação. Porém, os exemplos e as situações não foram tomados como ilustração - pelo menos esse não foi o objetivo. Mas, diferente disto, as formulações foram decorrentes da construção deste material, de forma que este foi norteando a pesquisa e determinando o curso da dissertação. Com relação à construção do caso, não é apenas nessa ambientação aqui nomeada “A situação clínica”, mas, há outros em outros, como é possível observar.

Como ocorreu em todo o percurso da confecção das narrativas presentes nesta dissertação, foi feita uma aliança entre a clínica e as artes, incluindo aí, a literatura. Essa foi uma posição mencionada desde a introdução, a qual redundou em uma forma de escrita que traz em seu bojo a dimensão ética. É assim que formula Nasio (2001) quando admite que o caso é uma ficção, pois ainda que, para a prática psicanalítica, tenha as suas funções – didática, metafórica e heurística24 - trata-se, pois, de um relato de um encontro clínico que, diga-se de passagem, nunca é o reflexo fiel de um fato concreto, mas sua

24 De acordo com a tese de Nasio, o caso clínico pode ter “uma função didática, como exemplo que corrobora uma tese, uma função metafórica, como metáfora de um conceito, ou uma função heurística, como uma centelha que está na origem de um novo saber [...]” (2001, p. 17).

reconstituição fictícia; deste ponto de vista, o exemplo nunca é um acontecimento puro, mas sempre uma história reformulada e, por que não dizer, fabulada. Diante deste crivo, torna-se redundante dizer que a psicanálise concebe o caso diferentemente da medicina, pois o seu esforço consiste em subverter a acepção do caso clínico como representante de uma doença, assim, o discurso psicanalítico assume um sentido radicalmente distinto do discurso médico, pois, o caso, para o primeiro, “exprime a própria singularidade do ser que sofre e da fala que ele nos dirige” (NASIO, 2001, p. 11).

Para o psicanalista Christian Dunker, a escrita da clínica em psicanálise não opera traçando uma linha divisória entre literatura e ciência, mas ao contrário disso, estas duas formas de discursos se fundem em prol da construção do caso:

Dessa maneira as habilidades literárias da exposição seriam combinadas com as formas diagnósticas ou conceituais da ciência. A hermenêutica compreensiva se enlaçaria com a explicação causal, o poema se acasalaria com o matema (2011, p. 566).

O conjunto da obra freudiana é a maior ilustração de que literatura e ciência não andaram separadas, prova disso é que, sendo o estatuto científico da psicanálise a grande causa defendida a duras penas pelo seu inventor, não houve por ele nem recusa nem abandono da literatura ao longo desse seu empreendimento, é este o depoimento de Freud: “eu mesmo me surpreendo ao constatar que minhas observações dos pacientes podem ser lidas como romances [...]” (apud NASIO, 2001, p.11).

Paulo César de Souza, ao referir-se ao estilo de Freud, constata que a sua produção era diversa da maioria dos cientistas de seu tempo: “sua qualidade de mestre da prosa alemã já fora reconhecida por vários de seus contemporâneos25” (2010, p.23). E não poderia ser diferente, já que “conhecendo intimamente a obra de Goethe – o autor que mais citava, juntamente com Shakespeare -, sabia como era impróprio distinguir o sábio do poeta, o cientista do escritor” (SOUZA, 2010, p. 24).

Apresentar como o caso foi construído e exposto nesta dissertação foi um posicionamento que se julgou necessário, em um trabalho que insiste em operar na

25 Assim, Paulo César de Souza, no livro cujo intuito foi preparar terreno para uma nova tradução das obras de Freud em português, que tem sido realizada diretamente do alemão, escreve: “Em 1930 sucederam dois fatos decisivos para a reputação literária de Freud: ele recebeu o prêmio Goethe da cidade de Frankfurt e foi objeto de estudo de um renomado crítico suíço, Walter Muschg, num ensaio intitulado, de maneira simples e pertinente, “Freud como escritor”” (2010, p.23).

interface, contudo, esta concepção não é nenhuma novidade já que esse aspecto da escrita da clínica tem sido bastante explorado por vários pesquisadores. Ademais, a própria ideia freudiana de que os poetas e escritores antecedem o trabalho dos psicanalistas é comentada por muitos autores (DE CERTEAU, 2011; DUNKER, 2011; SOUZA, 2010).

Assim, a construção de um caso clínico, como afirma Dunker, deve ser para além de um relatório que explicite um conjunto de procedimentos relacionados ao tratamento, como acontece com muita frequência nos registros de prontuários, em geral, bastante protocolares. Ademais, na situação clínica, o que temos são histórias repletas de lacunas, mal-entendidos, rupturas, equívocos, etc., o que, porventura, leva à suposição que toda história dos sujeitos é marcada por estes hiatos; a quem escuta, deve-se estar advertido com relação a isso. O que interessa destacar, mesmo correndo o risco de tornar-se repetitivo como um estribilho, é que, na construção do caso clínico, é cabível a invenção de quem o escreve, aliás, tal aspecto é quase uma condição, o que permite considerar a escrita do caso clínico como um gênero literário. A partir desse ponto de vista, é deveras necessário distinguir o paciente do caso, como aponta Dunker, que, ao fazer a analogia ao romance policial – pois, o que se encontra, à primeira vista, é a impossibilidade do leitor construir uma história linear e completa neste tipo de literatura -, escreve:

A rigor, um paciente em análise, um psicanalisante, não tem nada a ver com um caso clínico. Ele se torna um caso clínico quando é escrito, e como tal desaparecido, rasurado por esta operação. Em acordo com a ideia de queda presente na etimologia da palavra caso (Fall) talvez a escrita clínica seja uma forma de nos separarmos da experiência acontecida