2. Teori og fremgangsmåte
2.6 Feminisme og historiografi - nylesning av historien
A reprovação é vivenciada de diferentes modos pelos sujeitos entrevistados. Enquanto para alguns ela parece não fazer sentido algum na formação, o que é mais evidente na fala de determinados alunos e na forma como alguns professores se referem à maneira como discentes que são reprovados lidam com a situação, fica evidente que para outros ela se mostra necessária e tem utilidade no processo de formação profissional. Alguns a vivenciam tranquilamente, outros parecem passar pela experiência considerando-a traumática e ressaltando apenas seus aspectos negativos. Baseado nisto, é possível pensar que a reprovação tem diferentes sentidos para os sujeitos que a vivenciam.
O professor Alfredo afirma que a reprovação não deveria ser importante e nem deveria existir, mas a concebe como um fato necessário à formação dos alunos. Cita a situação de um curso, a medicina, para o qual não leciona, para demonstrar a utilidade da reprovação e apresenta o exemplo sobre um aluno hipotético, conforme relato abaixo:
Você pode aprová-lo em uma disciplina que ensine, por exemplo, a fazer uma cirurgia cardíaca, se ele não aprendeu a realizá-la? Não, pois ele não aprendeu a fazer aquele procedimento e, se ele não conseguir aprender e o docente e médico empurrá-lo nesta disciplina, corre o risco de estar colocando no mercado um profissional que vai causar um estrago muito grande. Neste sentido, a reprovação é útil.
Em sua visão, nas ciências exatas a reprovação não é útil em termos de consequências trágicas como o é na medicina, pois “um aluno às vezes pode ser empurrado em uma
disciplina e acabar se recuperando em outra disciplina, ou aquele conteúdo não ser de vital importância para que ele acabe fazendo uso daquilo na sua vida profissional ou coisas do gênero”. Mas a conclusão do professor sobre o assunto é de que a reprovação de alunos deve ocorrer no sentido de não deixar aqueles que não aprenderam avançar, sendo sua preocupação
a proporção com que isto está ocorrendo, sendo algo “anormal” nos cursos de exatas. Há casos extremos de índices de reprovações que superam cinquenta por cento do número de alunos da turma, o que ele define como sendo uma “aberração”.
Uma aluna que havia sido reprovada por faltas antes mesmo do término do semestre letivo procurou a docente Vera com a proposta de fazer algum trabalho para que suas faltas fossem abonadas, revertendo a reprovação. A professora não aceitou a proposta, pois a estudante havia perdido uma parte prática considerada importante pela docente para a formação profissional, que não ser poderia recuperada por meio de qualquer trabalho entregue com a intenção de amenizar ausências durante o curso da disciplina. Com tal atitude a professora demonstra que a reprovação por faltas é importante, pois o discente ausente durante o curso perde conteúdos importantes para se graduar adequadamente e se tornar um profissional que tenha realmente estudado as matérias do curso no qual se formará.
Segundo Vera, os alunos têm a obrigação também de “cuidar da sua própria
formação” e de saber qual a quantidade máxima de faltas permitidas, a saber, 25% durante o semestre letivo, o que implica em adquirir responsabilidade e em desenvolver-se profissionalmente durante o curso. A reprovação pode colaborar para que os alunos repensem sua postura no curso de graduação, já que, de acordo com ela, “as pessoas têm que ter certo
controle sobre a própria vida”, o que implica em responsabilizar-se pelo seu processo de formação.
A educadora Gleise, ao falar sobre os alunos que reprovou no semestre anterior ao da entrevista, diz acreditar que eles não tinham condição alguma de obterem aprovação, de “passarem adiante, eram alunos que não sabiam o conteúdo ensinado”; acredita que quando o aluno não aprende o suficiente, é importante que seja reprovado. Diz não sofrer com a reprovação de alunos, embora desejasse que todos aprendessem o conteúdo e passassem em
sua matéria, o que considera o “ideal”, mas justifica que a reprovação é o melhor caminho nas situações em que o discente não consegue o aprendizado desejado, pois:
O estudante entra aqui porque ele quer seguir aquela carreira, então a única responsabilidade dele é estudar para aquela disciplina que ele está cursando, se concentrar, até porque no futuro isso só trará benefícios para ele. Então eu acho que se ele não senta a bunda (sic) na cadeira e não estuda, a consequência tem que ser
essa mesmo, eu não posso passá-lo para a frente, porque senão eu estarei passando a mão na cabeça dele e formando-o como um profissional não capacitado.
Lúcia fala em sua entrevista que é “contra a filosofia de não reprovar alunos”. A educadora cita que existem, atualmente, “teorias sobre a não reprovação”, que dizem que “a
reprovação pode ser prejudicial e ruim para a auto-estima do estudante”, mas não concorda, pois acredita que “é caso a caso”, que existem casos em que a reprovação pode ser “prejudicial” e outros nos quais pode ser “positiva”. Afirma que alguns alunos ficam “arrogantes”, achando-se “ótimos em tudo” e acreditando que já “detêm todo o
conhecimento” necessário (ou que vão um dia saber tudo); Lúcia afirma achar importante quando o discente que pensa assim é reprovado, sendo “produtivo” para o seu próprio crescimento.
Na concepção da qualidade total na educação, segundo Bueno (2003), há a imposição do máximo de aprovação de estudantes, desconsiderando-se, muitas vezes, a própria aprendizagem como requisito para isto. O autor acredita que o processo capitalista fixa, de forma errônea, a busca por resultados satisfatórios, aniquilando/minimizando a importância dos processos, o que inverte a ordem do que realmente se faz necessário nos processos educacionais. O caminho, para o ensino, que vai ao encontro das concepções da professora Lúcia, não seria o da aprovação sem que houvesse aprendizagem, mas o da reprovação quando esta se fizesse necessária. Luckesi (2004; 2005; 2010) também concebe que os
processos de aprendizagem devam ser valorizados, considerando as dificuldades dos alunos, mas propondo como alternativas novas formas de avaliação.
Quando uma disciplina contém conteúdos importantes que servem de base a outra a ser cursada posteriormente, e o aluno é nela reprovado, a professora observa que este enfrenta dificuldades na matéria seguinte, sendo, em geral, novamente reprovado. Lúcia afirmou:
O aluno reprovava comigo e ele reprovava na seguinte, era fatal; e eu ficava sabendo por que quem ministrava a outra disciplina era a professora que divide sala comigo e quando trocamos nossas lamentações a respeito das reprovações, percebemos que todo mundo tinha sido reprovado na outra. Acredito que o aluno fazer de novo a disciplina e reforçar esse conteúdo facilita a vida dele dali para frente e esse aluno deixa de atrapalhar a turma seguinte.
Sobre um aluno atrapalhar o outro ou a turma, Lúcia diz que sente “dó” quando pega uma “turma heterogênea”, na qual há aluno “muito bom” e aluno “muito ruim”, pois aquele quer avançar no conteúdo e este não permite que o professor o faça, atrapalhando-o. No processo de reprovação, esses alunos são desvinculados, pois os que ela considera ruins são reprovados e o professor da disciplina seguinte consegue “ir mais além, puxar aqueles alunos
que têm necessidade de ir para frente”. A educadora afirma que “aluno muito bom, quando
não recebe o que está querendo, é desestimulado, fica cansado de assistir aula, considerando tudo a mesma coisa”. O discente bom, segundo ela, “quer mais”, e o professor não tem condições de dar, muitas vezes, devido ao estudante considerado por ela “ruim”.
Lúcia cita o exemplo de um aluno que “desestruturava a turma inteira”. Ao ser reprovado, ele cursou a disciplina novamente, porém em uma sala cuja “dinâmica era
diferente da sua”, na qual ele “não exercia a liderança” que, segundo a educadora, ele tinha na turma anterior; por ter ficado “deslocado” e não conhecer ninguém, não conseguiu “desestruturar essa segunda turma”. Então, relata a educadora que, “por falta de opção”, o
aluno decidiu estudar. De acordo com ela, isto nem sempre acontece, mas neste caso foi assim, o que para ela é um efeito positivo da reprovação, tanto para o discente quando para a turma na qual ele estava antes inserido.
A educadora Lúcia considera, portanto, que a reprovação pode ser muito “produtiva
para o aluno”, sendo “normal” para ela a vivência de reprovar estudantes, embora não goste quando muitos alunos são reprovados, ou seja, quando mais de 40% da turma não obtêm a aprovação em uma disciplina na qual leciona. No período em que ela ministra aulas, os alunos “entram na faculdade com conceito de libertação, querendo só festa e mais festa; aí, na hora
que são reprovados percebem que não é só festa e começam a dosar quando podem ir e quando não podem ir”.
A docente Carmen diz que julga “justa a reprovação” e justifica que, no caso de seus alunos reprovados no semestre anterior ao da entrevista, foram discentes que “realmente não
fizeram nada”, dizendo também:
Eu tive vinte por cento de reprovação e todos os alunos que foram reprovados não questionaram a reprovação, pois o foram porque não cumpriram o que foi planejado durante o semestre ou então não fizeram o trabalho adequadamente, ou então porque copiaram o trabalho e não tiveram o menor cuidado em fazer isso.
Embora Carmen considere justa a reprovação para os casos supracitados, ela ressalta que fica frustrada quando reprova alunos, pois afirma que seu objetivo não é o de reprovar ninguém, mas o de “tentar passar o conhecimento, de forma que eles o assimilem”. Cita um discente considerado por ela “muito bom”, mas que fora reprovado, e demonstra sua frustração:
É, na verdade nós tentamos, chegamos e falamos que a prova será tranquila, que basta dar uma forçadinha que ele conseguirá passar; mas aí se trata de um aluno que
faz Iniciação Científica com outro professor e, por ter outras atribuições, ele acaba deixando de lado a disciplina, para passar na disciplina da orientadora dele.
Segundo Carmen, há o perfil de aluno “bom” reprovado por estar envolvido com outras coisas e por priorizá-las e isto gera nela frustração, pois diz considerar muito ruim o aluno não aproveitar o semestre, tendo em vista sua própria vivência, de já ter passado pela experiência da reprovação em disciplinas durante a sua graduação. Há também o estudante que é reprovado porque se “atrapalhou por nervosismo” durante as avaliações que ocorrem na disciplina, o que a deixa “frustrada” e “descontente”, por se tratarem de alunos dedicados que buscam o conhecimento e a aprovação.
Mas quando o estudante não está se importando com a disciplina, a professora Carmen assume uma postura diferente quanto aos seus sentimentos em reprovar. A docente diz: “quando é o cara que não está nem aí, está vindo aqui por vir, eu sinceramente acho justo
quando ele é reprovado, acho legal e fico satisfeita, pois o estudante realmente não queria usufruir do conhecimento”.
A docente Gleise percebe diferentes resultados da reprovação em seus alunos e conclui que nem todos se beneficiam com tal experiência. Acredita que a questão é mais ampla, que existem alunos que sequer conseguem se favorecer da universidade e da formação oferecida, quanto mais da vivência da reprovação e do que ela pode acrescentar-lhes. A educadora ressalta a existência de discentes que entraram no Ensino Superior sem o objetivo de aprender e se capacitar para a vida profissional, não desejando necessariamente seguir carreira, buscando apenas um diploma. Segundo ela, tais alunos não se beneficiam com a reprovação, pois são “desinteressados”.
Segundo Gleise, “professor não tem que sofrer nenhum tipo de pressão do aluno ou
do pai do aluno ou do que for para passar a mão na cabeça do aluno”. Pensa que este seja um grande erro da universidade como um todo, pois prejudica o aluno, “bagunça” a relação
entre professor e aluno e, “no final das contas, acaba trazendo outros problemas quando o
aluno é reprovado”, como no caso de estudantes que ameaçam docentes para serem aprovados em disciplinas de graduação – situação esta já vivenciada por ela – o que demonstra a complicação em alguns tipos de relações entre professores e alunos.
Segundo Marcelo, graduando de Engenharia Civil, em seu curso a reprovação é considerada comum, não gerando rotulação por parte dos professores, não comprometendo a qualidade da relação, em geral, e nem parecendo ser fruto de relações consideradas “ruins”. O estudante demonstra não existir uma relação de causalidade no contexto de seu curso entre a relação estabelecida entre professores e alunos e as reprovações ocorridas. Araújo (2003) concluiu, em sua pesquisa sobre reprovação no curso de Engenharia Elétrica na Universidade Federal de Uberlândia que, neste caso, parece existir uma cultura de reprovação de alunos, sendo comum os estudantes serem reprovados durante o curso de engenharia. Tal afirmação dialoga com as reflexões do discente entrevistado, sendo por ele confirmadas.
Retomando a afirmação de Góes (2000, p. 119), de que “as relações sociais, que fundam os processos individuais, são caracterizadas por tensões e equilíbrios”, na análise das entrevistas percebemos a reprovação como um momento de tensão, vivenciado tanto por quem reprova como pelo reprovado. Esta intercorrência pode ser elaborada no sentido de busca de reorganização da trajetória acadêmica por parte do aluno e, por parte do professor, das possibilidades de mediação que apresenta em sua prática pedagógica. Vemos a reprovação como um momento que precisa ser considerado dialeticamente, a partir da interação entre professor e aluno e dos inúmeros aspectos nela envolvidos, abordados neste capítulo.
7. ALGUMAS QUESTÕES SOBRE A RELAÇÃO ENTRE PROFESSORES E