• No results found

DEL III ANALYSE AV LYSANLEGG

6. Fem utvalgte lysanlegg

O diálogo entre a ciência e a sociedade é uma importante fonte para se colocar novas questões em pauta. Por isso mesmo, deve ser um imperativo quando a investigação tem efeitos sociais, econômicos ou éticos, o que indiscutivelmente corresponde à grande maioria da tecnociência contemporânea. Para os próprios cientistas, o que pode parecer uma coação em curto prazo se manifestaria como uma base sólida para um “contrato social da ciência”, melhor do que a antiga visão idealizada da ciência como uma entidade apartada dos dilemas morais seja por ser supostamente voltada para o bem da humanidade, seja por ambicionar não ter nada a ver com julgamentos de valor moral.117

Este debate é fundamental para integrar as expectativas de todos os atores envolvidos nessa questão, levando em conta o maior número de opções viáveis. A difícil coordenação das políticas nacionais em face de um desafio global obriga a pensar a responsabilidade de reduzir ao máximo os impactos negativos advindos que o uso inadequado da tecnociência têm sobre o ambiente e o homem, já que esta redução passa, em grande parte, pela importância em reaprender os limites e a recriar uma união com o ambiente próximo, seja com a adequação das técnicas de construção às condições locais, o modo como estão se formando as cidades, o consumo de qualquer tipo de produto e alimentos produzidos ou cultivados sem agressão a natureza, e do emprego das formas endógenas de energia e dos recursos renováveis disponíveis.118

Se aceitarmos que a eficiência da tecnociência é a sua única força motriz, e que outros objetivos podem ser desconsiderados, estaremos deixando nosso destino nas mãos de quem só tem interesse na ampliação do seu capital. Para tanto, não importa se alguns homens estão sendo considerados como meios para os capitalistas inescrupulosos usarem a seu bem prazer, forças que o homem ordinário não é capaz de mensurar e muito menos percebê-las como risco à sua dignidade, enquanto seres humanos. Daí porque uma vez que o processo torna-se mais avançado, as escolhas feitas anteriormente tornam-se, consequentemente, mais rígidas. Assim, alterar ou direcionar a tecnociência é sempre cada vez mais difícil, pois a incorporação ao social tem como resultado, muitas vezes, mudanças de hábitos ou ações a fim de assegurar

117 Cf. GOUDIE, 2005. 118

que as funções desse conhecimento sejam postas em uso, sem que as pessoas percebem como estão sendo apenas objetos de manipulação apenas.119

Para elucidar situações de mudança radicais diante da disponibilidade do uso de uma tecnologia, basta lembrar, por exemplo, o que implica um exame de ultrassom durante um pré-natal, se o resultado apontar uma anomalia no feto. Este fato pode levar os pais a uma decisão moral. Ao optar em fazer o pré-natal, tais questões como o aborto e qualidade de vida são levados em consideração pela mediação que a tecnologia oferece. A mera disponibilidade do teste muda o rumo de uma gravidez. Para Latour, as tecnologias não acabam com a liberdade de decisão das pessoas em casos como este, mas podem "determinar, ser o pano de fundo, autorizar, permitir, encorajar, influenciar, tornar possível, uma determinada ação humana”.120

Em relação às tecnologias de criação ou utilização de células para pesquisa, destituindo-as de seu caráter de ser ou não parte de um ser vivo, esbarra-se sempre na determinação do que significa ser um ser vivo ou até em que medida pode-se manipular algo sem invadir a esfera de uma vida humana. Assim, “a biotecnologia nos oferece a possibilidade de modificar o que consideramos as bases intangíveis da nossa natureza [...]. O abalo atual atinge, assim, por contragolpe os conceitos e práticas do direito e da moral unidos a ela”.121 Não há resposta

possível se não se levar em conta a necessidade de uma normatividade que estabeleça esses limites, mas mesmo o estabelecimento de limites torna-se problemático, pois não há como averiguar, a priori, a validade desses limites.

No âmbito do indivíduo eugenicamente criado, uma das reflexões de Habermas é suficiente para demonstrar o problema:

a expectativa de muitos pesquisadores de genes de em breve poder controlar a evolução abalam a distinção categorial entre o subjetivo e o objetivo, entre o que cresce naturalmente e o que é fabricado em esferas que até o momento não estiveram à nossa disposição. Trata-se da neutralização biotécnica de distinções categoriais profundamente enraizadas, que até hoje, em nossas autodescrições, supúnhamos invariantes. Isso poderia alterar nossa autocompreensão ética da espécie de tal forma que também a consciência moral seria afetada – a saber, as condições naturais de crescimento, mediante as quais podemos nos compreender como únicos autores de nossas próprias vidas e como membros da comunidade

119 Cf. LATOUR, 2005. 120 Idem, 2005a, p. 72. 121 Cf. LECOURT, 2005, p.16.

moral com direitos iguais. Suponho que saber que o próprio genoma foi programado possa perturbar a autoevidência em virtude da qual existimos enquanto corpo vivo ou, de certa forma, que nos faz ‘ser’ nosso corpo, o que daria origem a um novo tipo de relação particularmente assimétrica entre as pessoas.122

Cabe ressaltar também que, para Habermas, reduzir a vida humana à condição de objeto manipulável distorce a própria noção de subjetividade. A partir do momento em que o indivíduo não tem mais direito de poder ser ele mesmo antes de sequer ser pensado como ser vivo, ele deixa de compartilhar, com os demais membros da espécie, em todos os tempos passados e presentes, a categoria da qual deveria participar.123

Com todos esses problemas a serem pensados, parece óbvio que as questões concernentes à tecnociência devem fazer parte do campo de alcance da ética. Isso se deve ao fato de que os interesses do desenvolvimento tecnológico muitas vezes estão em oposição aos da sociedade e do meio ambiente. Em outros casos não se tem como prever os danos que essa técnica moderna pode causar ao homem e ao planeta.

No tocante aos recursos biológicos e genéticos, o que se evidencia à primeira vista é que inovações tecnológicas trazem novas formas de eugenias, embutidas no uso de técnicas avançadas. A medicina científica de alta complexidade tecnológica é “eugênica” a partir da negação do seu acesso às populações mais pobres. Desse modo, a exclusão crescerá a largos passos pelo fato de que estaríamos diferenciando os homens por critérios fisiológicos ou corporais.124

Na medicina científica o aconselhamento genético constitui uma porta aberta ao uso da genética em um horizonte interdisciplinar, especializado em reduzir a incidência de anomalias genéticas. No entanto, sabemos que o cientificismo de mercado nos faz suspeitar fortemente do uso ético do aconselhamento genético. Trata-se de um espaço recheado de riscos, não só do ponto de vista biológico, mas, e sobretudo, dos valores sociais e éticos.

A questão fundamental é, então, a de quem tem o direito de decidir se finalmente se leva ou não a cabo uma determinada possibilidade de modificação genética de uma espécie, particularmente a espécie humana. Não há dúvida de que no mundo atual existe um enorme perigo de que essas decisões fiquem nas mãos das grandes empresas transnacionais, ou então dos governos dos países mais ricos, e com isso se

122 Cf. HABERMAS, 2004, p. 60. 123 Idem, 2004. 124 Idem.

poderia estar excluindo a maior parte da população do planeta da possibilidade de intervir no diálogo e na correspondente tomada de decisões. Por esse caminho, corre-se um grave risco de que aumente ainda mais a dominação de todo tipo por parte dos países e empresas que já têm hegemonia no mundo, o que em nenhum caso pode ser apresentado como uma conquista da ética, e sim como oposto disso.125

No momento em que se coloca em questão os fundamentos éticos e morais da possibilidade de o homem criar-se a si mesmo, no sentido de poder decidir sobre qual deve ser o genótipo e o fenótipo do próximo, o desdobramento desse processo gera a indissolúvel dúvida sobre o futuro da espécie humana. Uma vez que, “se há algo que caracterize de forma incisiva o mundo atual é, sem dúvida, a desproporção entre a velocidade absurda do progresso científico-tecnológico e o vácuo ético que se formou a partir da negação dos sistemas tradicionais de valores.”126 Toda esta situação deixa à mostra uma séria crise moral.

Desviando-se dos parâmetros morais, o homem cai automaticamente no vazio ético caracterizado pela desorientação, perda de sentido e, consequentemente, ausência de referenciais básicos.

Em meio a isso, somos induzidos a nos questionar pelo sentido da ciência para a humanidade hoje, enquanto conhecimento que deveria ser benefício para o homem. Oliveira assevera que a sociedade, por meio do acelerado processo de modernização, modificou-se rapidamente em uma sociedade “cientificizada”, porque a ciência ocupou um lugar fundamental na construção da realidade social. Assim, a ciência está diretamente ligada ao “destino” da vida humana, bem como o próprio ser do homem que, em suas possibilidades, começa cada vez mais a ser assinalado pela ciência e dela depender.127

1.5 SEGURANÇA E RISCO FRENTE ÀS POSSIBILIDADES OFERECIDAS PELA