3 Forskningsprosessen - ”The long and winding road
3.2 Feltarbeidet
De acordo com a paleogeografia do Lochkoviano proposta por Torsvik & Cocks (2011), a Bacia do Rio do Peixe estava localizada na área central do Gonduana ocidental, em latitude um pouco acima dos 60°, pois segundo os autores, o Polo Sul estava situado ao sul do Rio Grande do Sul (Figura 6.1).
Devido ao efeito estufa dominante durante o Eodevoniano (Scotese et al. 1999), o clima provavelmente era temperado e não havia formação de geleiras sobre a Província da Borborema.
O início do Devoniano corresponde a um estágio de nível eustático baixo (Scotese et al. 1999, Johnson et al. 1985, Ogg et al. 2008), porém no norte da África há registro de uma transgressão iniciada durante o Lochkoviano tardio e que prosseguiu até o Emsiano (Torsvik & Cocks 2011).
Johnson et al.(1985) assinalam alguns eventos anóxicos associados a subidas eustáticas do nível do mar, durante o Devoniano. Os primeiros registros estão na base do Lochkoviano (evento Klonk) e na passagem do Lochkoviano para o Praguiano (Ogg et al. 2008), o qual está marcado no registro sedimentar da Bacia do Amazonas (Cunha 2000).
No início do Devoniano, o oceano Rheico, que separava o continente Gonduana do Larrussia, estava se fechando. Este evento culminou com a colisão total destas duas massas continentais durante o Mississipiano (Nance & Linnemann 2008).
Enquanto o oceano Rheico desaparecia, ocorria o rifteamento que originou o Oceano Paleotethis, na costa setentrional do Gonduana (Figura 6.1). Esta direção de rifteamento é aproximadamente a mesma de outras linhas de fraqueza no interior do continente Gonduana, como os lineamentos Patos e Pernambuco e da margem equatorial brasileira (Fortes, 1986, 1988), portanto a atividade tectônica simultânea das mesmas é plausível.
Figura 6.1 - Gonduana ocidental durante o Eodevoniano (Modificado de Torsvik & Cocks 2011).
Alguns autores defendem a existência de riftes precursores das sinéclises paleozóicas (Brito Neves et al. 1984), como é o caso das bacias do Amazonas (Nunn & Aires 1988), do Parnaíba, (Oliveira & Mohriak 2003, Morais Neto et al. 2013) e do Paraná (Fúlfaro et al. 1982, Chamani et al. 2011, 2012).
Estes grabens teriam sua origem ligada a reativações frágeis de estruturas brasilianas, durante o Eopaleozoico, com um episódio silurodevoniano (?), que seria responsável pela formação do Graben de Água Bonita (Aguiar et al 2011, Chamani
et al. 2011, 2012), e pela transpressão dextral que deformou sedimentos pouco
consolidados do Grupo Serra Grande, encaixados ao longo do Lineamento Sobral- Pedro II (Silva et al. 2011).
Na Bacia do Rio do Peixe, Lima Filho (1992) associou uma fase rifte pré- cretácea à reativação das zonas transcorrentes brasilianas, durante o Cambro- ordoviciano, em "uma primeira (?) tentativa de separação continental".
Estas evidências de atividade tectônica eopaleozóica ao longo do Lineamento Transbrasiliano apoiam a hipótese de reativação das zonas de cisalhamento Patos e Pernambuco, com a possibilidade de formação de grabens durante o silurodevoniano.
A inflexão para NO na ZCPa na área do Alto de Santa Helena, onde ela se funde com a ZCPt (NE), é uma estrutura favorável à formação de um graben, na hipótese de movimento transcorrente dextral E-O (Figura 6.2).
Durante o Eodevoniano, a borda oriental da Província da Borborema provavelmente tinha uma fisiografia com vales e montanhas controlados pela atividade tectônica, um cenário ainda presente atualmente nesta região, embora com menor pujança (Gurgel et al. 2013).
Figura 6.2 – Modelo esquemático da formação do graben eodevoniano a partir da reativação frágil transtracional dextral do segmento NO da Zona de Cisalhamento Patos (Modificado no arcabouço estrutural de Ponte 1992).
Estas áreas de relevo acidentado, rejuvenescido em certos locais por reativação de falhas, atuavam como áreas-fonte de sedimentos. Os vales eram áreas de transferência para os sedimentos rumo ao mar Parnaíba, porém também podiam formar lagos a depender do binômio clima-tectônica local.
A hipótese adotada no presente estudo, de que grabens foram sítios deposicionais durante o eodevoniano, é corroborada pela ocorrência de cunhas de brechas interdigitadas com depósitos de fundo de bacia, por mudanças faciológicas laterais abruptas entre poços com afastamento inferior a 5 km, pelo espessamento de conjunto de estratos (divergência de refletores na sísmica), além da geometria de falhas e da arquitetura do preenchimento sedimentar observados na sísmica 3D.
Vale ressaltar que o espessamento de camadas junto às falhas de borda e camadas conglomeráticas interdigitadas com fácies do depocentro da bacia, são feições apontadas como características de bacias tipo rifte (Jardim de Sá et al. 2007b).
Em momentos de elevações eustáticas e clima mais úmido, esses vales e lagos (grabens) poderiam ter sido inundados pelo mar Parnaíba, cuja incursão sobre estas áreas mais subsidentes da Província Borborema favoreceu a preservação de estratos devonianos como os da BRP.
Durante os períodos de clima úmido, esses grabens devonianos, mesmo interconectados a um corpo de água marinho, provavelmente tinham águas salobras, devido ao influxo de água doce para os mesmos, tal como ocorre atualmente no mar báltico.
Quedas eustáticas ou soerguimento local, associados aos períodos de clima mais seco, favoreceriam o isolamento destes sítios deposicionais, com a formação de lagos fechados, mais salobros e até mesmo alcalinos devido ao vulcanismo ácido contemporâneo. Ao passo que durante os períodos mais úmidos, a água destes lagos seria mais doce, com um regime de circulação aberto (com vertedouro).
Um clima mais úmido, com forte influxo sedimentar ao longo destes vales, combinado ao arrefecimento da atividade tectônica levaram ao assoreamento destes vales, representado por arenitos e conglomerados caulínicos, os quais fecham o ciclo sedimentar devoniano preservado na área do Alto de Santa Helena.
Em resumo, durante o Eodevoniano, é possível que as zonas de cisalhamento Patos e Pernambuco tenham sido afetadas por uma reativação frágil, a qual atuou em conjunto com eventos eustáticos e tectônicos, para acomodar parte da carga sedimentar destinada à Bacia do Parnaíba.
Esta hipótese é reforçada pela influência marinha, na associação palinológica da porção basal, e no conteúdo de palinomorfos predominatemente continental, na porção superior da sequência devoniana, em conjunto com as associações faciológicas e a arquitetura do seu arcabouço estrutural-estratigráfico delineado a partir do volume sísmico 3D.
6.2 Estratos paleozoicos na Bacia do Rio do Peixe e em seus