A História dispõe de relatos como esses. No entanto, é preciso ter clara a ideia de que no Islã a religião é servida pela política (estou novamente fazendo uso de categorias mais atuais). No seu início, a religião cavalgava no lombo dos cavalos dos soldados. Garaudy confirma essa peculiaridade do Islã, mas reserva para depois da morte do Profeta o exacerbado interesse dos quatro califas “bem guiados”, os primeiros companheiros e sucessores de Muhammad, “Abu Bakr, Omar, Uthman e Ali, os omíadas interessaram-se muito mais pelo poder político em si mesmo do que pelo seu significado religioso; e essa separação já é ruptura com o espírito profundo do Islã” (GARAUDY, 1998, p. 45). “A escala de preferência entre os califas ortodoxos era determinada pelo número de batalhas das quais eles haviam participado” (ABU-RABI, 2011, p. 88). Era assim que o consenso na ummah era estabelecido, “e não [por] exigir qualquer recomendação ou eleição” (Ibidem)
Dos esforços travados pela herança do Profeta – praticamente todos os seus sucessores foram assassinados (DEMANT, 2004, pp. 38,39) – é marcante a história do “martírio de Hussein”, que dá origem a uma importante cerimônia do xiismo e mostra o espírito em que posteriormente seria rememorada a sua morte, na celebração da Ashura.166
Muhammad morreu sem deixar suficientemente claro como se daria a sua sucessão, o que sugere a despretensão a uma expansão do Islã para além dos territórios da Arábia. Após a morte do Profeta e por processos que envolveram conflitos, conspirações e assassinatos dos antigos homens de confiança de Muhammad, a liderança do Islã se dividiu entre sunitas e xiitas.167
166 Décimo dia do mês Muharram, a data em que os muçulmanos comemoram a criação de Adão (KAMEL, 2007, p. 104).
167 Não é prioridade neste trabalho recontar a história da sucessão do Profeta e as divisões que ainda hoje permanecem no islã. Sobre a sucessão de Muhammad e a divisão em sunitas e xiitas, ver KAMEL, 2007, p. 95ss; DEMANT, 2004, p. 37ss.
127 Os sunitas (de sunnah, tradição preservada em coleção de “ditos” atribuídos ao Profeta), admitiram os imames que foram companheiros imediatos do Profeta, tidos em alta conta na comunidade original, por suas virtudes e comportamento exemplar. Os xiitas (de xia ou shi’a, partido de Ali) reclamaram a sucessão por consanguinidade com o Profeta, naturalmente por meio de Fatima, sua filha, e de Ali seu genro (DEMANT, 2004, p. 38). Assim, a histórica divisão do Islã que seguiu a morte de Muhammad teve o seguinte perfil. De um lado a minoria xiita: Ali, Hasan, Hussein e depois Ali (filho menor de Hussein). Do outro lado a maioria sunita: Abu Bakr, Omar, Osman e Ali – o mesmo xiita.
Inicialmente os sunitas levaram a melhor, nomeando os três primeiros califas168 até que Ali, o quarto califa, teve a legitimidade de sua liderança contestada por Mu’awiyya, de origem coraixita, a tribo de origem de Muhammad (DEMANT, 2004, p. 38; KAMEL, 2007, p. 102). “Uma guerra civil se seguiu, e Ali foi assassinado em 661. Mu’awiyya fundou a primeira dinastia califal, a dos Omíadas” (DEMANT, Ibidem). A sede do seu governo foi transferida para Damasco como um importante passo da internacionalização do Islã, mas as marcas de sangue que selaram esse avanço escorreram nos olhos da minoria de integrantes da família do Profeta, que desejava ter maior, senão total, participação na sucessão à frente da comunidade.
Embora optassem por aceitar pacificamente o califado de Mu’awiyya em Damasco, parece ser este um ponto-chave na História das interpretações das tradições e textos do Corão, quando teve início uma tradição de releitura das origens do Islã, com uma lente ideológica, fazendo como que uma significativa inversão: exalta o aspecto religioso mais que o político para legitimar este. É o que deixa entrever Demant quando diz que “iniciou-se então uma nova leitura
da época do Profeta e de seus sucessores imediatos, idealizada como era de
religiosidade, proximidade a Deus e, portanto, de sucessos tanto espirituais quanto mundanos” (DEMANT, 2004, pp. 38,40, ênfase acrescentada). Uma vez que o poder político havia escapado ao controle da minoria, foi preciso reler a jovem tradição a partir de nova abordagem que apelasse a uma suposta legitimidade pela maioria: a religião. Finda a primeira fase, a inclinação por vir
168 Califa: um tenente, representante legal sunita da ummah (comunidade) religiosa e política após a morte do Profeta. O califa sunita corresponde ao imam xiita.
128 era a concentração dos dois poderes, político e espiritual, em um único agente: o líder, o califa sunita ou o imam xiita (HOURANI, 1994, p. 79).
Quando Mu’awiyya morreu, Hussein, filho de Ali (assassinado em 669) reivindicou a liderança para si, uma vez que havia aguardado pacificamente o fim da liderança de Mu’awiyya, conforme a tendência da maioria sunita. Era de esperar que a transição fosse natural, visto que Hussein era neto do Profeta. Mas Mu’awiyya inovou, nomeando seu sucessor o filho Yazid, “consagrando assim um novo princípio de hereditariedade e uma nova dinastia” (DEMANT, 2004, p. 40; KAMEL, 2007, p. 102, CARRANCA, 2010, p. 53).
Hussein levantou-se com seus partidários, pois estes clamaram que fossem a Damasco, depor Yazid e restituir o califado às mãos da família do Profeta (KAMEL, 2007, p. 10; DEMANT, Ibidem). O grupo composto por 72 soldados esperava contar com o apoio da população de Kufa (atual Karbala, Iraque), que, por uma manobra de Yazid, não se confirmou. Cercado, Hussein e seus homens se depararam com um exército formado por cerca de mil homens liderados pelo califa. Hussein ouviu a voz de comando para que ele e seus homens fossem atacados, e propôs enfrentá-los sozinhos, poupando a vida do seu grupo, mas não houve desertores (KAMEL, 2007, p. 103). Seu pequeno grupo foi esmagado e todos foram decapitados, “numa área onde depois surgiria a cidade de Karbala” (DEMANT, 2004, p. 40; KAMEL, Ibidem). “Esse episódio marcou a divisão definitiva entre sunitas e xiitas e é lembrado com rituais de lamentação e mortificação” (PEREIRA, 2012, p. 344). “A cabeça de Hussein foi levada ao governador de Kufa numa bandeja” (KAMEL, 2007, p. 103), mimese da prática já conhecida pela apresentação da cabeça de João Batista a Herodias,169 igualmente servida numa bandeja seis séculos antes.
A origem dos modernos martírios dos jihadistas não pode ser traçada “exclusivamente” pelo massacre em Karbala, até porque tais práticas não são exclusivas do xiismo. No entanto, não resta dúvida de que este evento e tudo o que nele está envolto acrescenta elementos à construção de um ideário de luta com martírio. Estou tratando, em termos mais amplos, a construção de um modelo e não o caso específico da Palestina. É tentativa de compreender um
169 “Instigada por sua mãe, ela disse: Dá-me aqui numa bandeja a cabeça de João Batista” (Mateus 14.8).
129 antecedente na religião o qual proporcione cenário para o martírio na resistência.
A teologia muçulmana, como todas as outras teologias, forjou determinada maneira de ler e reler a vida e obra de seus heróis e inspirar as novas gerações com os mesmos sentimentos. Foi assim que Ali Shari’ati, o teólogo muçulmano, considerado “um dos inspiradores da resistência à opressão no Irã, escreveu em 1972 que o martírio não é uma dimensão do Islã, mas sua própria essência” (GARAUDY, 1998, p. 44). Com isso, ele fundiu os dois aspectos que tenho procurado destacar aqui: o rosto exterior, expresso na política de resistência e a face interior, manifesta na religiosidade pujante, fervorosa. Garaudy afirma que assim Shari’ati conseguiu unir “de maneira indivisível a resistência ao inimigo exterior da fé e a luta interior contra as vibrações mais animais, em nós, do egoísmo e do medo” (GARAUDY, 1998, p. 44, ênfase no original).