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Nosso Lar é o primeiro texto assinado pelo sujeito-psicografado André Luiz e o

sexto, em um universo de 412 textos/livros, afora inúmeras mensagens e cartas psicografadas pelas mãos de Chico Xavier. A partir de seu surgimento, uma seqüência de quinze textos veiculados no formato de livro, além de inúmeras mensagens, recebeu a assinatura André Luiz. Nosso Lar compõe a coleção denominada “A vida no mundo espiritual”, formada por treze textos. Três fatores regem a produção da unidade dos textos, agrupados sob esse título. Primeiro, o fato de tratarem sobre um mesmo objeto: experiências de vida além túmulo; segundo: ambas estão centradas no relato da vivência de um sujeito-Espírito, no caso, o autobiógrafo André Luiz; terceiro: as experiências de vida além-túmulo, relatadas nesses textos, tomam como espaço central a colônia Nosso Lar, sua nova morada no “além”. Esse conjunto de texto funciona como uma sequência. Juntos, eles formam o espaço autobiográfico33 do sujeito-Espírito André Luiz. Dos treze livros, Nosso

Lar é o campeão de vendas. Conforme pesquisa realizada pela Candeia Organização Espírita de Difusão e Cultura, em 1999, circula como o melhor dentre os dez livros

espíritas, publicado no século XX, no Brasil. Atualmente, está na 60ª edição com 1.690 milheiro de exemplares vendidos, em língua portuguesa. Nosso Lar se inscreve, em meio aos inúmeros textos psicográficos, como um best seler da literatura mediúnica. Figura dentre as principais obras do Espiritismo brasileiro, porque, doutrinário em suas

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Este é um termo proposto por Lejeune (1975, 1983). Trata-se de um conjunto de textos que, juntos, funcionam como o conjunto de dados biográficos de um autor.

especificidades, sedimenta e outorga os direitos da filosofia religiosa do espiritismo, pelas mensagens que divulgam a doutrina e pelos adeptos que conseguem pela fé e crença na discursividade que sustenta as verdades da doutrina.

O livro Nosso Lar faz referência à temática da experiência pós-morte. André Luiz relata sua vivência como sujeito-espírito desencarnado, na colônia Nosso Lar, espécie de cidade espiritual que dá nome ao livro e está situada, segundo ele, acima da cidade do Rio de Janeiro. Recém-chegado ao mundo espiritual, o sujeito-autobiógrafo traduz com riqueza de detalhes as suas percepções sobre a colônia. Esta funciona como uma espécie de cidade de transição, cujo objetivo principal é disponibilizar uma assistência permanente aos homens desencarnados e encarnados, entre uma e outra encarnação. Conforme explica o prefaciador de Nosso Lar (LUIZ, 2007, p. 8), sobre essa temática, outros relatos já haviam

sido realizados por outros sujeitos-Espíritos, “entretanto, de há muito desejamos trazer ao nosso círculo alguém que possa transmitir a outrem o valor da experiência própria, com todos os detalhes possíveis”. Entendemos que Nosso Lar se destaca por ser o marco de três fatos importantes, para esse campo discursivo: a emergência de mais um sujeito-autor- espiritual; o primeiro texto/livro a ser materializado no gênero autobiografia pelo Espiritismo brasileiro e, por fim, o primeiro texto/livro a ser publicado sobre a temática da experiência de vida no “plano espiritual”.

Os enunciados que constituem o texto/livro Nosso Lar estão distribuídos em cinquenta capítulos curtos, estruturados à base de diálogos, que são estabelecidos entre o sujeito-enunciador-autobiógrafo, André Luiz, e os demais sujeitos-Espíritos-enunciadores que habitam a colônia. Os diálogos se constituem em estratégia discursiva usada para fazer crer a existência de vida no plano espiritual, ou seja, a vida após a morte. À medida que a narrativa se desenrola, o coro de vozes que compõe o relato faz surgir informações, consideradas inéditas pela doutrina espírita, sobre a vivência no mundo espiritual. Aos poucos, esse movimento enunciativo vai delineando marcas de um autobiógrafo que se compromete com as crenças Espíritas. Temas como, aprendizado, trabalho e caridade formam o tripé responsável pela evolução espiritual desse sujeito. Nosso Lar traz descrições minuciosas sobre uma vida espiritual similar à vida material na Terra. Estas descrições constituem-se em jogos de verdade usados para sedimentar as verdades Espíritas sobre a existência de vida no plano Espiritual e, ao mesmo tempo, convencer os leitores da autenticidade desses princípios.

O relato recobre o momento do resgate de André Luiz pelos trabalhadores da cidade espiritual Nosso Lar, após oito anos de sua “morte”, desencarne, no dizer espírita. Segundo seus relatos, durante esse período, viveu numa região denominada de umbral: uma espécie de “zona purgatorial”. Faz, também, alusão à sua experiência de estudo e de trabalho como espírito desencarnado nessa colônia e, eventualmente, no seu lar terreno e, ainda, pequenos flashes de fatos vivenciados, anteriores ao momento do seu “resgate”. Os fatos discriminados no seu texto figuram com efeitos de verdade porque estes são relatados pelo enunciador na função sujeito de autobiógrafo: aquele que vivencia e relata suas próprias experiências. Dessa forma, o discurso do autobiografado, assume um valor de verdade que tem como objetivo assegurar as verdades da doutrina.

Os relatos das experiências que surgem por meio dos diálogos entre o autobiógrafo e os enunciadores objetivam descrever como é a organização e o funcionamento de Nosso Lar, uma cidade/colônia situada no mundo espiritual: a rotina diária, as profissões, enfim, como se dá a continuidade da vida após a “morte” nesse lugar. O que interessa para a doutrina é mostrar, dentre outros princípios, que há vida continua após a morte na mesma proporção que na terra: atividades humanas fraternas, saudáveis nas quais a caridade, o humanismo e o respeito ao outro é claro e existente e, também, sofrimentos espirituais como efeitos dos procedimentos inadequados efetuados na existência terrena. Portanto, os relatos de André Luiz no livro Nosso Lar, de conformidade com esses princípios, entram para a doutrina como verdades que sedimentam não só a existência de Espíritos que vivem em outro plano, como também a própria doutrina Espírita, colocada, pelos adeptos espíritas, com o status de sistema religioso e científico e filosófico revelado pelos espíritos.

Nosso Lar além de informar sobre as novas circunstâncias que aguardam os sujeitos

Espíritos encarnados, “os vivos”, na sua jornada além-túmulo, provoca uma exortação ao estudo e, principalmente, ao trabalho social. Informações contidas nos livros de André Luiz sobre a vida além-túmulo têm inspirado, no Brasil, a criação de grupos de estudos e de inúmeras instituições voltadas à atividade assistencial. Muitas, carregando seu nome ou os títulos de seus livros: as Casas André Luiz, o Grupo Espírita Nosso Lar, o grupo Os

Mensageiros, dentre outros. A obra de André Luiz exerce, portanto, uma grande influência

no movimento espírita.

Como conseqüência da breve observação sobre o arquivo que rege a rede discursiva no interior, da qual o enunciado Nosso Lar se inscreve, do conjunto de enunciados ao qual

se refere e dos enunciados produzidos ulteriormente, a partir de sua emergência, entendemos que os enunciados assinados pelo sujeito-psicografado o coloca na posição daqueles que, por meio da função autor, não se constituem, simplesmente, em autores de suas obras, de seus livros, mas em produtores de uma indefinida possibilidade de formação de outros discursos: um fundador de discursividades34 (FOUCAULT, 1992, p.58). Nesse caso, André Luiz, como autor de escritos que veiculam a ideologia da doutrina Espírita, pode ser considerado, dentro do campo espírita, como um fundador de discursividades por gerar novos dizeres sobre a doutrina e, ainda, por suscitar a necessidade da revisitação a seus escritos.

Nosso Lar tem sua existência marcada como instrumento de veiculação dos

princípios doutrinários Espírita. Desse modo, os registros autobiográficos do sujeito, André Luiz, nesse texto/livro funcionam como fonte de comprovação desses princípios. A função desse texto como veículo de divulgação das verdades espíritas está marcada pela voz do autobiógrafo, já nas primeiras páginas, na parte intitulada Mensagem de André Luiz. Diz ele: “Nosso esforço pobre quer traduzir apenas uma ideia dessa verdade fundamental. (...). Forneceremos, somente, algumas ligeiras notícias...” (LUIZ, 2007, p. 12) [grifos nossos]. Nosso Lar entra para a doutrina como um dizer que assume um valor de verdade por circular como parte do todo que é, para o Espiritismo, essa verdade fundamental: conjunto de verdades que trata sobre o funcionamento do Mundo Espiritual. No Espiritismo, a verdade do Espírito assume o lugar de verdade em detrimento das “coisas materiais”, ou seja, das verdades terrenas. Conforme Eliade, para o homem religioso, o mundo sagrado é “a realidade por excelência” (ELIADE, 1992, p. 16). É, portanto, a partir dos relatos da “experiência” própria, vivenciada pelo sujeito-Espírito, André Luiz, como habitante do mundo dos “mortos”, que analisaremos, a seguir, o modo como os princípios doutrinários espíritas que circulam, no texto Nosso Lar, são traçados e definidos com o objetivo de divulgar a doutrina.