Como representantes legítimas, ainda que não únicas, do pioneirismo da psicanálise aplicada à criança, Anna Freud (1895-1982) e Melanie Klein (1882-1960) ilustram, na polarização e na divergência de suas posições, a heterogeneidade conceptual acerca do psiquismo infantil, do estatuto dos primeiros objetos, da atribuição de sentido aos primeiros vínculos e, finalmente, da incidência da abordagem clínica no atendimento de crianças. Suas ideias conquistaram seguidores e influenciaram as gerações seguintes de psicanalistas interessados na investigação do psiquismo infantil e na prática terapêutica com crianças.
De acordo com o percurso proposto para este capítulo, apresento uma breve descrição de alguns aspectos centrais que caracterizam o pensamento das duas autoras. O meu objetivo
51 FREUD, S. Novas conferências introdutórias sobre psicanálise (1933 [1932]). In: Edição Standard
Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Trad. J. Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1980, v. 22.; FREUD, S. Esboço de psicanálise (1940 [1938]). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Trad. Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1980, v. 23.
52 As adesões e as dissidências que marcaram o início da história da psicanálise são exploradas em livros
biográficos sobre a vida e a obra de Freud (como exemplo: JONES, Ernest. A vida e a obra de Sigmund Freud, vol. 2, Rio de Janeiro: Imago, 1989.; GAY, Peter. Freud: uma vida para o nosso tempo. Trad. Denise Bottman. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.) em trabalhos interpretativos como de Renato Mezan (Freud, pensador da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1985.) e em Dicionários como o de Elizabeth Roudinesco e Michel Poln (Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.).
aqui é apenas o de marcar, a partir de perspectivas opostas, os primeiros desdobramentos teóricos sobre as peculiaridades da vida psíquica da criança, ensejados a partir do esquema conceitual construído por Freud53.
Anna Freud, seguidora fiel das ideias do pai fundador, encontra na versão clássica do ego e de seus mecanismos defensivos a base principal de sua abordagem. Centrada no interesse pelas questões da infância e situada em uma perspectiva evolutiva, seus estudos preconizam a viabilidade de um desenvolvimento gradual e sucessivo, tanto da libido quanto do ego. Para a autora, em condições de normalidade, essa evolução tende a culminar com a conquista da genitalidade e, paralelamente, com a constituição de um ego amadurecido e fortalecido pela atuação de seus mecanismos de defesa. E, nesse caso, os conflitos, inerentes e específicos a cada fase evolutiva, são compensados pela ação compatível e mediadora do ego.
Entretanto, pela imaturidade de um ego ainda em formação, a criança está permanentemente sujeita a perturbações que podem colocar em risco todo o seu processo de desenvolvimento e predispô-la à deflagração de um quadro psicopatológico. Os fatores desencadeantes de problemas psíquicos na infância originam-se de acordo com essa concepção, no meio externo, e estão predominantemente associados com atitudes inadequadas de pais e de educadores que não conseguem oferecer às crianças um ambiente psicológico favorável às necessidades e às peculiaridades, inclusive pulsionais, de um ego em processo de constituição. Essas inadequações – decorrentes da neurose de adultos, especialmente dos pais – revelam-se tanto no excesso de contenção aos impulsos infantis, quanto, inversamente, na indulgência exacerbada às condutas impulsivas da criança. Em ambos os casos, o amadurecimento do ego e o fortalecimento de seus mecanismos de defesa podem ser prejudicados.
Anna Freud não recomenda a aplicação direta do tratamento psicanalítico à criança. Considera essa extensão inapropriada em função da imaturidade e da fragilidade do superego infantil. Defende, quando necessário, o atendimento da criança sob a intermediação da família e preconiza uma abordagem – profilática e terapêutica – que associa os preceitos
53 Como, nesse trabalho, recorro às ideias de ambas as autoras apenas para marcar suas polarizações a respeito da
interioridade e da exterioridade dos objetos, essa síntese baseia-se em um conhecimento já bastante disseminado em trabalhos como o Freud e seus discípulos. (ROAZEN, Paul. São Paulo: Cultriz, 1974.) e o Dicionário de psicanálise. (ROUDINESCO, Elizabeth; POLN, Michel. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.).
psicanalíticos com uma ação educativa. Pela valorização prevalente dos objetos externos e pela concepção do caráter adaptativo do ego, as propostas de Anna Freud repercutiram mais incisivamente junto aos partidários da Psicologia do Ego e inspiraram a implementação de técnicas de aconselhamento aos pais e de práticas institucionais voltadas à instrumentalização teórica, terapêutica e educativa dos agentes profissionais dedicados à criança e às disfunções de seu desenvolvimento psíquico.
Em direção contrária àquela seguida por Anna Freud, Melanie Klein aborda a vida mental infantil, a partir de uma perspectiva predominantemente intrapsíquica. O conflito pulsional de vida e de morte, que é disparado desde o nascimento com as primeiras experiências geradoras de gratificação e de frustração, assume, na perspectiva de Klein, as marcas da voracidade do desejo e da ferocidade ameaçadora e avassaladora da vertente mortífera das pulsões. A construção de defesas internas, diante das angústias mobilizadas por toda essa intensidade pulsional, é definida de acordo com a natureza, com o poder e com os perigos atribuídos, pelo psiquismo infantil, aos objetos. E a relação com esses objetos – inicialmente indiferenciados do ego e clivados em aspectos bons e maus – é determinada a partir das posições psíquicas dominantes no curso do processo evolutivo.
Ao preconizar a existência apriorística do inconsciente e teorizar a constituição precoce das instâncias psíquicas, Klein enfatiza a determinação pulsional dos processos mentais e, portanto, das representações do ego e dos objetos. Com base nisso e por acreditar na pertinência do tratamento psicanalítico desde a infância, a autora postula a adaptação do método clínico à criança mediante a utilização de recursos compatíveis com a capacidade de simbolização em cada momento da constituição de seu psiquismo. A intervenção desenvolvida e defendida por Klein prevê, de forma pioneira, o uso terapêutico de técnicas lúdicas (o jogo e o brinquedo) como método favorecedor à expressão da angústia e à elaboração das perdas infantis, e supõe um modelo de atendimento que, voltado prioritariamente à criança e às suas fantasias, não inclui a participação efetiva dos pais.
Entretanto, apesar de sua teorização ser predominantemente voltada à dimensão interna dos vínculos precoces, Klein não deixa de conferir importância à capacidade materna de suportar e de tolerar os movimentos excessivos de ódio do bebê e, ainda, de responder a esses “ataques” com amor; condições que favorecem toda a possibilidade ulterior de
simbolização e de novas criações psíquicas. A esse respeito, Cintra e Figueiredo54 observam que, apesar da nítida prevalência atribuída às produções do mundo intrapsíquico, o amadurecimento do pensamento kleiniano aponta para um sucessivo reconhecimento do mundo externo e do ambiente, que passam a ser concebidos, também, como fontes possíveis (e necessárias) de amor e de prazer à criança. E esse provimento do meio advém, primordialmente, das instâncias parentais, sendo a mãe, na acepção de Klein, a matriz de toda a vivência afetiva futura e o pai, o representante de um poder moderador à hegemonia materna.