O Modelo Conexionista, por sua vez, deriva do conexionismo, ramo das ciências cognitivas que procura explicar o funcionamento cognitivo humano, a partir de modelos de redes neurais. Segundo Câmara (2009, grifos nossos), ao discorrer sobre a abordagem conexionista,
Redes neurais são processadores que simulam neurônios, interligadas por conexões que modulam o sinal transmitido na rede. As conexões emulam as sinapses e suas forças. Tais redes têm a capacidade de aprender a reconhecer padrões tais como faces, textos, objetos e estrutura de dados, portanto, não funcionam por programação, mas
40 de forma distribuída nas sinapses da rede, formando um padrão, e a ativação desta por inputs completos ou parciais faz emergir desta distribuição a informação procurada. Sendo o fundamento do cognitivismo baseado na aprendizagem mediada por sinapses distribuídas em rede, criou-se o termo conexionismo para caracterizar este marco conceitual.
Nos estudos da linguagem, o Modelo Conexionista sugere que a estocagem de dados linguísticos tem processos probabilísticos em sua base e, por esse motivo, não necessita da aplicação de regras. Esse constructo teórico advoga também que somos capazes de processar e compreender as informações linguísticas graças às experiências que vivenciamos e não a um conjunto de regras. Nesse sentido, à medida que somos expostos a determinadas configurações linguísticas, formamos uma rede de padrões que nos ajudam a compreender e formar novas sentenças.
Duque (2012, extraído da Internet, grifos do autor), ao tratar do conexionismo, faz uma analogia com as redes neurais humanas e afirma que nesse enquadre
[...] uma rede de conexões seria constituída basicamente por unidades interligadas entre si por meio de conexões (como no caso das sinapses neuronais). O conexionismo, portanto, baseia-se na simulação da neurofisiologia humana por meio de programas de computador. O funcionamento do modelo leva à regulação das unidades que compõem a rede através do ajuste dos pesos da conexão. Na rede, o‘conhecimento’ reside justamente na ativação ou inibição dos pesos definidos localmente. Dessa forma, o desempenho da rede é baseado nos padrões, que estabelecem configurações específicas para cada ativação.
Ainda de acordo com o autor, apesar de ter se mostrado eficiente, o Modelo Conexionista não conseguiu resolver alguns problemas identificados no Modelo Baseado em Regras, como, por exemplo, “dar conta de verbos irregulares com regularidades internas, como ring – rang e wring – wrung ou break – broke e brake – braked.”
Além disso, Duque afirma que outra importante limitação dessa abordagem está no fato de que
[...] o conexionismo não parece abandonar a ideia de derivação, uma vez que admite a existência de “formas básicas” e “formas derivadas”. Sem contar que a dimensão pragmática continuou a ser desconsiderada. Sendo assim, parece correto afirmar que ambas as
41 teorias (Modelo Baseado em Regras e Modelo conexionista) explicam apenas parte do fenômeno, mas não resolvem todos os problemas.
1.5.3 Modelo de Redes
Por fim, tratamos do modelo adotado nesta pesquisa, o Modelo de Redes. Essa perspectiva se baseia no trabalho desenvolvido por Bybee (2001), que emprega duas terminologias específicas para denotar a maneira como a frequência pode ser aplicada à arquitetura de uma gramática natural: frequência de token (token frequency) e frequência de type (type frequency).
A frequência de token considera a ocorrência dos mesmos itens lexicais em um determinado corpus. A palavra Riobaldo, por exemplo, ocorre 153 vezes em Rosa (2001), enquanto o neologismo nonada ocorre apenas 06 vezes na mesma obra. Nesse sentido, a frequência de token de Riobaldo é bem mais elevada que a de nonada.
A frequência de type, por seu turno, considera a ocorrência de um determinado padrão específico. Ilustraremos esse conceito recorrendo à estrutura construcional subjacente Quem X, Y compartilhada pelos provérbios abaixo:
(a) Quem corre, cansa; (b) Quem cala, consente;
(c) Quem desdenha, quer comprar;
(d) Quem semeia vento, colhe tempestade.
Os provérbios mostrados acima, apesar de distintos entre si, compartilham o mesmo tipo de estrutura construcional e, portanto, apresentam uma frequência de type elevada. Recorremos às ilustrações abaixo para esclarecermos melhor o que dissemos.
Figura 9 – Frequência type Figura 10 – Frequência token
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Em linhas gerais, se encontramos muitas ocorrências de um mesmo item lexical, dizemos que houve um alto índice de frequência de token e se encontramos muitas ocorrências de itens lexicais distintos que compartilham as mesmas estruturas construcionais subjacentes ou um mesmo padrão da língua (o plural em ‘s’, por exemplo), dizemos que houve um alto índice de freqüência de type.
Quadro 1 – Construção gramatical e frequência
Frequência de type Frequência de token
Construções instanciadas muitas vezes por muitos itens lexicais
diferentes
ALTA BAIXA
Construções instanciadas muitas vezes pelos mesmos itens lexicais
ALTA ALTA
Fonte: Duque e Costa (2012a, p. 143).
Dessa forma, o Modelo de Redes considera a frequência das construções gramaticais na dinamicidade do seu uso. De modo que as frequências de type14 (instanciadas pela recorrência de itens lexicais diversos, mas que seguem um mesmo padrão) e de token (instanciadas pela recorrência dos mesmos itens lexicais) passam a ter um papel fundamental no processo de significação e armazenamento mental do conhecimento linguístico.
Por considerar a frequência e seus efeitos no uso da linguagem, o Modelo de Redes parece se adaptar perfeitamente a abordagem baseada no uso, proposta nesta pesquisa. Nesse sentido, para Duque e Costa (2012a, p. 142), um Modelo Baseado-em- uso
[...] leva em consideração os efeitos da frequência na linguagem, tendo em vista que os esquemas genéricos são adquiridos, moldados e permanentemente influenciados pelo uso. Desse modo, acreditamos que a frequência (maior ou menor) de determinados padrões de uso não pode ser indiferente ao conhecimento linguístico do falante.
43
No tocante à importância dos fenômenos estatísticos para os processos de aprendizagem e compreensão da linguagem, Santos (2011, p. 3), ao versar sobre como os bebês apre(e)ndem a linguagem, afirma que
Gopnik fala sobre um teste de estatística elaborado por Saifran, Aslin e Newport, em 1996. Eles acompanharam bebês com faixa etária de 08 meses, ou seja, dentro da faixa etária que identifica balbucio reduplicado e o começo de formação da palavra. Os pesquisadores constataram que os bebês captam padrões sonoros através de estatísticas. Eles começaram a tocar sequências silábicas com maior e menor recorrência. Existia uma constante recorrência da sílaba “da” na sequência de “bi” e outras menos recorrentes. Os pesquisadores constataram que os bebês faziam mais esforço para reconhecer as sílabas de menor recorrência, observando a reação deles. Isso reafirma a hipótese de que os bebês começam a criar padrões desde muito novinhos.
No caso específico do corpus analisado nesta dissertação, diagnosticamos construções proverbiais instanciadas por muitos itens lexicais diferentes, porém com o mesmo padrão construcional subjacente, o que caracteriza uma alta frequência de type. Esclarecemos, no entanto, que o que evidencia a frequência de type não é o fato de as construções serem instanciadas por muitos itens lexicais diferentes, pois nesse caso o type estaria na superfície e não no uso, mas o fato de as construções compartilharem as mesmas características.
Assim, no caso desta pesquisa, parece que o type surge a partir da repetição de determinados provérbios que, apesar de distintos, possuem a mesma estrutura subjacente. A frequência de type se daria, portanto, pela recorrência de determinadas estruturas subjacentes acessadas cognitivamente e não pela recorrência das estruturas linguísticas superficiais. Vejamos abaixo alguns provérbios, elencados de Rosa (2001), que evidenciam a relevância da frequência de type para a análise do corpus:
(a) Quem muito se evita, se convive; (b) Quem mói no asp’ro, não fantasêia; (c) Quem desconfia, fica sábio;
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Acreditamos ser evidente a importância dos processos estatísticos para a compreensão dos eventos cotidianos e para a lida com a linguagem, pois instanciam a maneira como categorizamos as coisas. Nesse sentido, ao se tornarem frequentes, as construções evidenciam o processo de “rotinização” (entrinchement, de LANGACKER, 1987) de certos padrões construcionais. E uma vez rotinizada, a construção torna-se mais enraizada em nossa mente e mais facilmente categorizada em nossas interações.
45 2 O PARADIGMA CONSTRUCIONAL
As construções regulares e fortemente produtivas da língua, às vezes fornecem o esqueleto sintático para construções especiais que incorporam traços semânticos e pragmáticos específicos, às vezes, definidos muito estritamente. (FILLMORE; KAY, 1995, p. 50).
2.1 PADRÕES GRAMATICAIS
Os processos de construção de sentido permeiam as relações entre linguagem, cognição e cultura e, portanto, são fundamentais para o desenvolvimento desta pesquisa. E o modelo de Gramática que defendemos neste trabalho – Gramática de Construções Corporificada (Embodied Construction Grammar, de BERGEN; CHANG, 2005), doravante GCC – é imprescindível para o alcance de nosso objetivo, no sentido de dar conta das questões que nos propomos a investigar. Antes, porém, de abordarmos a GCC propriamente dita, faremos uma breve exposição sobre a perspectiva das Gramáticas de Construção pioneiras, doravante GC.
Essa perspectiva postula que a unidade básica da análise linguística é a construção, definida como um pareamento de forma/significado em que alguns aspectos do significado e/ou forma não são predicáveis das suas partes componentes (GOLDBERG, 1995, p. 4). Nesse sentido, essa noção de construção fornece ferramentas de atribuição de significado sobre o mundo, pautadas em redes de construções linguísticas.
A definição de construção adotada por esta abordagem equivale à definição de “item lexical” em outras teorias sintáticas, mas, ao contrário dessas teorias, a GC faz uma pequena distinção entre o que é lexical e o que é gramatical. Em vez de opor a estrutura gramatical ao item lexical, ela defende uma gradação – com muitas estruturas gramaticais abstratas em uma extremidade do continuum e morfemas simples na outra extremidade. No meio, estão unidades gramaticais que são especificadas por graus variáveis de conteúdo lexical.
Nesse sentido, as estruturas gramaticais, da mesma forma que os itens lexicais, também são consideradas pareamentos de forma/significado. Daí surge a possibilidade
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de as estruturas gramaticais serem polissêmicas, como os itens lexicais o são (GOLDBERG, 1995, p. 31-39). Em síntese, a proposta de Goldberg é a de que a construção deve ser entendida como o pareamento forma (fonemas, símbolos gráficos e gestos) e sentido (conceitos ou esquemas conceptuais que são evocados pela forma).
Salomão (2002, p. 69) assume uma postura similar ao sugerir que a perspectiva construcional de gramática tem em seu escopo dois pressupostos básicos, quais sejam:
(a) A indistinção entre léxico e gramática: a linguagem é concebida como uma grande rede construcional.
(b) A concepção do signo linguístico como vetor bipolar indissociável: pareando forma e condições da construção do sentido que são indissoluvelmente semântico-pragmáticas.
Ainda no que concerne à noção de construção como sendo um par de ‘forma/sentido’, em Miranda e Salomão (2009) é feito um detalhamento que vale a pena ser mencionado nesta seção. Para melhor visualização e compreensão, organizamos os conceitos apresentados em Miranda e Salomão (2009) na forma de um quadro expositivo15. Quadro 2 – Construções Co ns truçã o Sentido 1. Dimensão Conceptual a) Esquemas imagéticos;
b) Esquemas sensório-motores e proprioceptivos; c) Frames;
d) Metáforas e metonímias convencionalizadas; e) Mesclagens.
2. Dimensão Discursiva
a) Ativação de espaços mentais; b) Molduras comunicativas pertinentes; c) O status informacional;
d) O registro linguístico da Construção;
F
orma
1. Dimensão “Física” do Significante
a) Expressão fônica (a sequência de segmentos fônicos organizados silabicamente, a distribuição da tonicidade nessa sequência e os padrões prosódico e rítmico associados convencionalmente à construção).
b) Expressão gestual
15 Tendo em vista a abordagem sintetizada que fizemos dos estudos de Margarida Salomão, aconselhamos
aqueles que quiserem obter mais informações sobre os dizeres desta pesquisadora a respeito de construções a consultarem o livro Construções do Português do Brasil - da gramática ao discurso.
47 c) Expressão escrita (regulada pelas convenções ortográficas).
2. Dimensão Morfossintática
a) Classe sintática dos Constituintes (substantivo, verbo, adjetivo...); b) Relações estruturais entre os Constituintes;
c) Função gramatical dos Constituintes; d) O ordenamento linear dos Constituintes;
e) A especificação lexical ou morfológica dos Constituintes obrigatoriamente instanciados na Construção.
Fonte: Miranda e Salomão (2009).
A GCC mantém o pressuposto de que o conhecimento linguístico em todos os níveis (morfemas, lexemas, idiomatismos, etc.) pode ser caracterizado como construções – pares de forma e significado. No entanto, amplia essa noção e passa a adotar um formalismo para a análise linguística, concebido especificamente para integrar um modelo de simulação baseado em compreensão de linguagem que considere aspectos pragmáticos também. Para melhor compreensão dessa perspectiva, recorremos à figura 11, adaptada de Chang (2009) por Duque (no prelo), em que é exibido o modelo de arquitetura da GCC.
Figura 11 – Modelo de arquitetura GCC
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A respeito do modelo de compreensão da linguagem aventado por Bergen e Chang (2005), Duque e Costa (2012, p. 153) afirmam que suas principais estruturas e processos demonstram que
(a) Conhecimentos linguísticos são representados por construções (mapeamentos forma-significado), que se expressam por meio de gramáticas de construções corporificadas formais;
(b) O processo de análise considera um enunciado e desenha sobre o conhecimento linguístico, conhecimento de mundo e o contexto comunicativo imediato para produzir uma especificação semântica (semantic specification ou semspec). A semspec também pode sofrer um processo de resolução para especificar melhor as referências relevantes;
(c) A semspec fornece parâmetros para uma simulação dinâmica utilizando estruturas de ações incorporadas, o sentido de enunciado consiste na simulação e as conseqüências que ele produz.
Sobre a figura 11, de acordo com Duque (no prelo), as construções são instanciadas por enunciados e se relacionam a uma especificação semântica que identifica os esquemas de significado e suas inter-relações. Objetos e eventos da especificação semântica são projetados aos contextos comunicativos correntes, produzindo uma especificação semântica resolvida. As possíveis formas de evocação de estruturas corporificadas dinâmicas nas especificações semânticas resolvidas produzem inferências apropriadas.
Nessa direção, acreditamos que a compreensão das diversas construções gramaticais presentes em nossas atividades discursivas depende de fatores cognitivos, linguísticos e culturais, de modo que as palavras não têm significado em si mesmas, mas funcionam como guias que nos direcionam a significados construídos socialmente através de nossas interações. Essa percepção é corroborada por Croft e Cruise (2004, p. 4-17), quando afirmam que
Nem as palavras nem as sentenças têm realmente significado: significados são construídos, usando as propriedades de elementos linguísticos como dicas parciais, juntamente com conhecimento não linguístico, informação disponível no contexto, conhecimentos e conjecturas que consideram o estado mental dos ouvintes, entre outros.
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O modelo de construção proposto por Duque e Costa (2012a) amplia ainda mais o conceito de construção, pois redimensiona seu foco para além das sentenças, estendendo suas ferramentas de análise a padrões mais amplos, como categorias discursivas. Nesse novo enquadre, as construções passam a ser analisadas como o resultado da integração de esquemas de forma (sequências textuais, seleção e ordenação lexical) e de significado (esquemas imagéticos) e frames discursivos (concepção social do texto, enquanto bula, notícia, conto, petição etc.), (cf.: DUQUE; COSTA, 2012a). Dessa forma, para os autores, o esquema estaria ligado à memória pessoal e o frame, à memória cultural.
É exatamente a perspectiva proposta por Duque e Costa (2012a) que escolhemos para nortear a nossa pesquisa. Temos consciência de que, ao optarmos pela GCC como suporte teórico, colocamo-nos diante de um árduo desafio. Principalmente pelo fato de ser muito difícil analisar o processamento on line das construções, sem contarmos com um aparato de técnicas e, em casos específicos, de equipamentos que permitam a observação simultânea dos processos de construção de sentido.
Sendo assim, admitimos que ainda haja muitas dificuldades em implementar pesquisas que extrapolem a análise puramente introspectiva e conjuguem também análises experimentais que minimizem as limitações da investigação e viabilizem avanços ainda mais relevantes no campo das ciências da linguagem, sobretudo no campo da Linguística Cognitiva.
2.2 PADRÕES DISCURSIVOS
Discourse patterns pertain to the holistic perception of text/discourse; they are not simply shape, but they function as frames for understanding. And if discourse patterns are directly associated with coherence in terms of understanding, discourse pattern similarity implies similarity in the manner of cognitive understanding, and similarity in how we perceive and process texts. (ÖSTMAN; FRIED, 2005, p. 134).
Para tratar da noção de Padrão Discursivo, recorremos a Östman e Fried (2005), pois, a nosso ver, a proposta apresentada por esses autores representa um importante
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avanço para os estudos situados na perspectiva construcional da linguagem. Em seus escritos, Östman e Fried (2005) propõem que o Padrão Discursivo seja a associação convencionalizada do pareamento Tipo Textual (organização das sentenças no conjunto do discurso) e Gênero discursivo (configurações contextuais com fins específicos). Essa proposta se harmoniza com os estudos desenvolvidos por Goldberg (1995) sobre construções.16 Como revelam Östman e Fried (2005, p. 132)
Discourse patterns are conventionalized associations between text type and genre. It is important to note, though, that this approach to discourse does not neglect genre and text type; rather, it incorporates both of them as form-meaning constellations. Similarly, in its concern for grammaticality at the sentence level, Construction Grammar does not neglect formand function simply because it stresses the importance of meaning and cognition in the form-meaning constellations known as constructions.
Contribuindo com o desenvolvimento dos estudos linguísticos sobre esse tema, Duque e Costa (2012a) ampliam o conceito de Padrão Discursivo ao postularem a noção de pareamento Esquema (memória pessoal) / Frame (memória cultural). Reafirmando, inclusive, que esse pareamento não pode ser reduzido a apenas um polo – como se uma das partes pudesse ser separada da outra, numa relação dicotômica –, o que se coaduna com a proposta da GCC. Segundo Duque e Costa (2012a, p. 165):
Padrões Discursivos, da mesma forma que construções gramaticais, são entidades abstratas resultantes do pareamento de formas e significados. No caso do Padrão Discursivo, o polo da forma estaria associado às relações internas, e o polo do sentido, às relações externas que um discurso exibe em relação aos contextos sociais e comunicativos.
Nesse panorama, o padrão discursivo abarca necessariamente frames e esquemas, assumindo uma dimensão discursiva compatível com a construção na dimensão da sentença. Isso implica na combinação de aspectos da forma e do significado de um determinado discurso ancorado pelo mesmo padrão. Sendo assim, podemos afirmar que provérbios, contos e piadas são exemplos de padrões discursivos
16 Para Goldberg (1995), como visto no capítulo anterior, a construção seria o pareamento forma
(fonemas, símbolos gráficos e gestos) e sentido (conceitos ou esquemas conceptuais que são evocados pela forma).
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distintos. Nesse sentido, de acordo com Duque e Costa (2012a, p. 165), “padrões discursivos não são a mesma coisa que tipos textuais e/ou gêneros discursivos, ou seja, a categorização que os padrões realizam não pode ser redutível a qualquer um dos dois polos”.
Essa proposta, não apenas abarca as noções de tipos textuais e de gêneros discursivos, mas também harmoniza conceitual e analiticamente aspectos da sentença e do discurso. Uma vez que o padrão discursivo passa a ser concebido como um importante instrumento de compreensão discursivo-textual que, inclusive, proporciona a diminuição do esforço de processamento cognitivo empreendido pelos compreendedores em suas vidas cotidianas.
2.3 PERFILAMENTO
O conceito de perfilamento é muito caro aos estudos desenvolvidos nesta dissertação e, por isso, merece uma pequena seção a fim de delimitarmos o termo. Para a efetivação dessa tarefa, recorremos a Duque (no prelo) que, ao tratar das dimensões do imaginário, afirma que a primeira dimensão observada em cada predicação linguística é a imposição de um perfil a uma base. Nesse sentido, a base de uma predicação diz respeito aos domínios (ou cada domínio em uma matriz complexa) e o perfil é entendido como uma subestrutura que a expressão designa. Em outras palavras, o perfil dependerá da base a partir da qual será focalizado. Langacker (2007) considera que o conceito de base é essencial, mas não constitui em si o valor semântico de uma predicação.
Para que esse conceito fique mais claro, utilizaremos um exemplo dado por Duque (no prelo). Vejamos:
A base (ou domínio) para a caracterização de [HIPOTENUSA], por exemplo, seria a concepção de triângulo retângulo; para a caracterização de [PONTA], a base seria a concepção de um objeto comprido; para [TIO], a base seria um conjunto de indivíduos ligados por relações de parentesco. [...] O significado de hipotenusa, ponta e tio é estabelecido pela seleção de uma subestrutura particular de uma base para as características salientes de um perfil. O valor semântico de uma expressão não reside, portanto, nem na base nem no perfil individualmente, mas no relacionamento entre os dois.
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Os exemplos demonstrados por Duque (no prelo) ilustram a relevância gramatical desse conceito, já que os sentidos particulares das expressões linguísticas parecem depender do modo como são perfiladas. Além disso, determinadas construções linguísticas sofrem restrições desenvolvidas pela recorrência de certas situações de uso. Portanto, a expressão “Vá para casa!”, por exemplo, impõe uma série de restrições ligadas a predicação relacional no interior da construção.