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Em relação ao nascimento do cinema, os debates tornam-se acirrados quando se tenta estabelecer os seus precursores, ainda que, oficialmente, atribua-se a Auguste e Louis Lumière a primazia do invento. Os irmãos apresentaram a primeira projeção de seu cinematógrafo no Grand Café de Paris, localizado no Boulevard des Capucines em dezembro de 1895. Diante de uma plateia estupefata, figuras de homens se moviam, bondes eram puxados por cavalos e soldados marchavam. 264 Sabe-se que, durante muito tempo, houve disputas em torno da invenção dos aparelhos que colocaram em lados opostos os Lumière e o norte-americano Thomas Edison, que segundo especialistas, nunca projetou publicamente fotografias animadas, o que justifica a proeminência dos franceses.

Coube a Georges Méliès, diretor do teatro Robert Houdin, produzir filmes divididos em quadros com duração superior a dez minutos e para tal contava com estúdio construído nos arredores da capital francesa que combinava o tradicional palco do teatro e um laboratório fotográfico. Suas primeiras realizações limitaram-se à reconstituição de fatos da atualidade e féeries. 265 Méliès produzia o então denominado teatro encenado e uma de suas produções, A Viagem à Lua (1902), ajudou-o a vender dezenas de cópias, não só na Inglaterra, onde era exibida em music-halls, mas também para os Estados Unidos. Até 1905, a exibição dos filmes acontecia em barracas de lona em feiras sob os cuidados de seus realizadores, que exibiam sua produção de cidade em cidade. 266

Algumas firmas animaram-se frente ao crescente mercado, como foi o caso da Pathé Frères, de Charles Pathé, revendedor de fonógrafos, que construiu um estúdio de cinema e contratou Ferdinand Zecca para dirigi-lo. O negócio demonstrou ser rentável, pois as vendas das cópias pagavam as rudimentares decorações envolvidas na produção e os atores anônimos. Em 1908, a Pathé abriu sucursais e estúdios em outros países,

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ROSENFELD, Anatol. Cinema: arte e indústria. São Paulo: Perspectiva, 2002, p. 62.

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A Féerie foi um gênero teatral de sucesso na França no século XIX, inspirado em contos e compostos de criaturas sobrenaturais como as fadas. Durante a encenação se utilizavam certos artifícios para representar no palco efeitos de magia.

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passou a fabricar películas virgens e aparelhos de projeção, além de reproduzir em laboratórios próprios as cópias, tornando-se uma grande empresa. Nesse momento, a exibição dos filmes invadiu os teatros-casinos, as salas municipais e começou-se a construir edifícios específicos para a projeção. 267

Em relação aos Estados Unidos, pequenas companhias surgiram como a Fox, Carl Laemle, Warner, Zukor e Marcus Loew, ainda que contassem com poucas obras originais. Alguns cineastas ganhariam projeção internacional, caso de David Griffith, que entre 1908 e 1912, produziu em bobinas pequenas cem filmes por ano para a Biograph. Algum tempo depois, Griffith tornou-se independente e filmou O Despertar

de uma nação (1915), cujo conteúdo racista provocou conflitos em cidades norte-

americanas. Nesse contexto surgiu o cômico Charles Chaplin, logo disputado entre as companhias.

Por tudo isso, é fácil imaginar o entusiasmo que o cinema causou na capital paulistana. Segundo Rubens Machado Júnior, as primeiras projeções de cinematógrafo na cidade ocorreram em fins do século XIX, nas quais se mostravam imagens da Praça da Bastilha em Paris, cães brincando com crianças e o movimento numa estação de trens. 268 Mas antes dessas apresentações, o kinetoscópio chegou ao Brasil pelas mãos do tcheco Frederico Figner, que adquiriu seis aparelhos na exposição de Chicago, oportunidade em que também tomou conhecimento da existência do fonógrafo.

O kinetoscópio era uma caixa de 1,20 metro de altura, no interior da qual se movia uma fita semelhante às cinematográficas, movida por roldanas. Em cima havia um orifício com lente de aumento, pela qual o espectador observava a cena durante quarenta segundos, depois de haver acionado o maquinismo, graças à introdução de uma moeda. É difícil precisar como Figner conseguiu comprar o aparelho, uma vez que Thomaz Edison apenas os alugava a representantes a fim de preservar seus direitos sobre o produto. Já a primeira sessão de cinema em São Paulo parece ter ocorrido em 07 de agosto de 1895, de forma reservada, com a presença de Campos Salles e família, além

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Idem, p. 24-25; 239. Cabe destacar que inspirados pela experiência francesa, a partir de 1908 outros países europeus passaram também a produzir filmes e a utilizar atrizes célebres do teatro (Dinamarca) e fundar novos gêneros (Itália).

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MACHADO JR, Rubens. São Paulo e o seu cinema: para uma história das manifestações cinematográficas paulistanas. (1899-1954). In: PORTA, Paula (org.). História da Cidade de São Paulo: a cidade no Império 1823-1889. São Paulo: Paz e Terra, 2004.

de seus secretários, enquanto a pública, mediante pagamento dos interessados, deu-se no dia seguinte conforme se pode apurar pelos jornais. 269

As projeções pioneiras com o cinematógrafo em São Paulo foram atribuídas a Georges Renouleau, fotógrafo francês que, após incêndio no prédio em que ficava seu estúdio e domicílio, viajou para Paris e lá adquiriu um projetor e vários filmes, retornando ao Brasil na expectativa de abrir de novos horizontes com o moderno aparelho. Ao que parece, os irmãos Lumière não vendiam seus projetos, o que leva a crer que Renouleau talvez tivesse se tornado um representante deles ou estabelecido alguma espécie de sociedade, mas o fato é que as suas projeções foram noticiadas por jornais não só da capital paulista, mas também do Rio de Janeiro. 270

Os salões valiam-se das projeções como forma de atrair o público, assim como o fizeram também bares e cafés. Vale lembrar a existência de outros inventos como o “mustocope” que passou do uso individual ao coletivo, com o nome de “animatógrafo”. Tratava-se de olhar uma série de fotografias ou desenhos girando numa determinada velocidade, vistas através de uma lente de aumento. O interesse em atrair o público fez com que donos de salões, circos, clubes e café-concertos, adquirissem aparelhos. Percebeu-se que para por em funcionamento esse tipo de atração era preciso apenas duas ou três pessoas, ao passo que se necessitava de um grupo numeroso para fazer funcionar um circo ou teatro. 271 Sabe-se que só a partir de 1907, salas regulares de projeção cinematográfica foram implantadas, caso do Bijou-Palace, seguido por uma série de outras, sempre nas ruas do Triângulo. 272