3 Materials and Methods
3.7 Feature selection
Se, sob as condições da existência, a revelação genuína do mistério perde o seu caráter revelador quando os elementos estruturais da razão estão separados, no instante em que esses elementos são reunidos a revelação do mistério passa a ganhar sentido, a revelação torna-se revelação final. A revelação final do mistério é a resposta à pergunta implícita nos conflitos existenciais da razão. Para Tillich a única forma de ela superar os conflitos da razão na existência é mediante o re-estabelecimento de sua unidade essencial.107
A revelação final do mistério revela a completa transparência do fundamento do ser naquele que é o portador da revelação final e o completo auto-sacrifício do meio ao conteúdo da revelação. Além de ela oferecer a base para uma nova teonomia, a revelação final do mistério supera o conflito entre absolutismo e relativismo por meio de um absoluto concreto que unifica esses elementos. De modo semelhante, o conflito entre o formalismo e emocionalismo é vencido pela revelação final do mistério por meio da unificação de seus elementos, pois na revelação final a vida pessoal do ser humano participa em sua plenitude valendo-se tanto do fundamento de sua estrutura racional quanto do poder de sua participação emocional.108
A revelação final do mistério não destrói a razão, antes ela à plenifica. Ela supera a dualidade entre absolutismo e relativismo por meio do absoluto concreto. Tillich aponta esse absoluto concreto à figura do Novo Ser manifesto na vida pessoal de Jesus como o
Cristo portador daquilo que é absoluto sem condições e restrições, cuja vida pessoal foi
capaz de unir os pólos da razão existencial. Essa superação foi algo que nem o criticismo e nem o pragmatismo com suas pretensas falta de absolutismo conseguiram realizar. Pois, nenhum desses elementos enfrentou o problema de forma suficientemente radical, porque nenhum deles foi capaz de fornecer uma solução. A solução só pode vir da profundidade da razão109, não de sua estrutura; ou seja, só pode vir da revelação final do mistério.110
A revelação final do mistério não fornece ao ser humano uma ética absoluta, doutrinas absolutas ou um ideal absoluto de vida pessoal e comunitária. Ela dá ao ser humano 107 Cf. TILLICH, 2005, p. 157. 108 Cf. TILLICH, 2005, p. 157 a 163. 109
É a expressão de algo que não é a razão, mas que a precede e se manifesta por meio dela. Cf. TILLICH, 2005, p 92.
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exemplos que apontam para aquilo que é absoluto, entretanto esses exemplos não são absolutos em si mesmo. Pertence ao caráter trágico que toda vida que continuamente tenda a distorcer seu sentido paradoxal e a transformar o paradoxo em absolutismo de caráter cognitivo e moral.
O aspecto absoluto da revelação final do mistério, aquilo que nele é incondicional e imutável, envolve a transparência total e o auto-sacrifício completo do meio no qual ele surge. Nele tanto as situações quanto os atos são transparentes e, em sim mesmo, não implicam obrigação alguma. Apesar de serem potencialmente absolutos, eles são sacrificados no momento em que ocorrem. O aspecto absoluto é regido pelo amor. O amor é absoluto porque barca todo o concreto, ele é o paradoxo da revelação final do mistério que supera o conflito entre absolutismo e relativismo. A sua relação com aquilo que é amado o torna incapaz de impor, em nome de um pretenso absoluto, elementos finitos a uma existência finita. O caráter absoluto do amor é a sua capacidade de penetrar na situação concreta e, de descobrir o que é exigido por ela.111
Quando ocorre a revelação final do mistério o conflito entre o formalismo e emocionalismo é superado. Na revelação a totalidade da vida humana participa do mistério, desta forma a razão se faz presente na revelação do mistério tanto estrutural quanto emocionalmente sem haver conflitos entre esses dois elementos. O mistério do ser é constituído, concomitantemente, pelo fundamento de sua estrutura racional e pela participação emocional nele. O problema da razão cognitiva está no conflito entre o elemento de união e o de distanciamento em todo ato cognitivo. Deu-se maior ênfase ao elemento de distanciamento. Assim, aquilo que não se pode apreender com o raciocínio analítico é relegado à emoção. Todos os problemas relevantes da existência são excluídos do domínio do conhecimento e lançados ao domino reduzido da emoção. Deste modo, afirmações sobre o sentido da vida e a profundidade da razão são despojadas de qualquer valor de verdade. Não apenas o mito e o culto, mas também intuições estéticas e relações comunitárias são excluídas da razão e do conhecimento. São consideradas expressões emocionais sem validez e critérios.
A superação da ruptura entre o formalismo e emocionalismo na revelação final do mistério é feita por meio do Logos que é, ao mesmo tempo, conhecimento na forma de
gnosis – união cognitiva, mística e sexual – e conhecimento na forma de episteme. A
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revelação final do mistério possui, sobre esse aspecto, poder terapêutico, ela cura os conflitos da razão cognitiva. A emoção dentro do domino cognitivo não deturpa uma estrutura dada, ao contrario ela lhe confere abertura para receber a manifestação do mistério.112
A revelação final do mistério inclui dois elementos decisivos para a superação da polaridade entre autonomia e heteronomia; um é a completa transparência do fundamento do ser naquele que é o portador da revelação final e outro é o completo auto-sacrifício do meio ao conteúdo da revelação. O primeiro elemento é responsável por preservar a profundidade da razão autônoma e impedir que ela se torne vazia e vulnerável a intrusões demoníacas. A presença do fundamento divino confere uma substância espiritual a todas as formas de criatividade racional, concede a dimensão de profundidade e as une sob símbolos que expressam esta profundidade em ritos e mitos.113
O outro elemento incluso pela revelação final do mistério garante a manutenção da razão autônoma impedindo que a razão heterônoma se estabeleça contra ela. Para que a razão heterônoma se efetive ela precisa reivindicar uma autoridade em nome do infinito. Tal reivindicação não é feita pela revelação final do mistério. Caso a revelação do mistério fizesse tal reivindicação tornaria – se demoníaca e deixaria de ser revelação final. Sem pretensão de heterônoma e autoritária, a revelação final do mistério liberta.114
A pergunta pela revelação do mistério é nublada pela separação entre os elementos estruturais da razão, para que a revelação do mistério seja efetiva e comunicada ao grupo imerso numa situação concreta de preocupação a existência humana deve participar plenamente da elaboração da pergunta por tal revelação. Embora prejudique a efetivação da revelação do mistério, a tensão entre os elementos estruturais da razão é importante para o conhecimento dessa revelação. Ela é responsável por garantir tanto a autoafirmação do eu
individualizado quanto à autoafirmação do eu participativo em sua relação com o mundo.
A pergunta existencial, ou seja, o próprio ser humano imerso nos conflitos de sua situação existencial, não é a fonte da resposta reveladora do mistério. O ser humano é a própria pergunta, não a resposta. É errado deduzir da resposta reveladora do mistério a pergunta implícita na existência humana. A pergunta elaborada pelo ser humano é o próprio ser humano. Ele formula esta pergunta, de maneira articulada ou não. Ele não pode deixar 112 Cf. TILLICH, 2005, p. 163. 113 Cf. TILLICH, 2005, p. 157. 114 Cf. TILLICH, 2005, p. 158.
de elaborá-la, pois seu próprio ser é a pergunta de sua existência. Ele a formula a partir da profundidade, e essa profundidade é ele mesmo.115
Agora que nós sabemos que o ser humano é a própria pergunta existencial e que os conflitos existentes na pergunta pela revelação do mistério são superados pela revelação final do mistério, nós devemos perguntar o que é a revelação final do mistério. Pois, a revelação final dá sentido aos adjetivos atribuídos ao mistério.