Declara Charaudeau (2015, p. 51) que a comunicação humana pode ser vista como um teatro, com extensa cena na qual os sujeitos representam, por meio de seus atos de linguagem, inúmeros espetáculos, nos quais alguns papéis são esperados e outros são improvisados. Todavia, num teatro há inúmeras peças, cada qual relacionada a uma encenação específica, dentre elas, encontra-se a cena política, na qual são representadas relações de poder conforme posições, papéis e textos concebidos por essa dramaturgia, e, também, pelas possibilidades de execução de que dispõem os atores.
Com essa elucidação, percebe-se que a representação é uma ação inerente ao ser humano, ou seja, os sujeitos investem-se de papéis sociais e, assim, portam- se como atores nas diversas situações promovidas pelas práticas. Jodelet (1984
apud JOVCHELOVITCH, 2013, p. 64) expõe que a representação é ação que
transpõe limites internos e externos, construções mentais em constante desenvolvimento, norteadora de alguém para alguma coisa, criativa e com natureza social. Devido a isso, as representações são constituídas por elementos provenientes de uma cultura comum, ou seja, elementos originados da linguagem.
Segundo Minayo (2013, p. 92), a compreensão das representações realiza-se por meio da linguagem. As palavras são constituídas a partir de rede de fios ideológicos. Elas são espaços nos quais são confrontados diferentes interesses e, ao mesmo tempo, medeiam e recebem os efeitos das lutas. Dessa forma, há relação dialética com a realidade, todavia “[...] não são a realidade, mas uma fresta iluminada: representam!”.
De acordo com essas noções, percebo ponto de convergência entre ADC e Teoria das Representações Sociais, pelo fato de ambas considerarem a linguagem (discurso) como elemento formador das representações sociais. Silva (2009, p. 100) ratifica, também, esse entendimento ao expressar, com base no pressuposto de Jovchelovitch (2013):
[...] ao mesmo tempo em que estamos atravessados pela violência concreta de relações sociais desiguais, também estamos atravessados “pela força impressionante da “Palavra”, que, simbolicamente, auxilia a construção de
máscaras para estruturas sociais desiguais. Nesse ponto, percebo clara intersecção entre os postulados da TRS e da ADC, posto que a desigualdade é um elemento comum às duas áreas de conhecimento. Nesse sentido, acredito que a linguagem é, para a Teoria das Representações Sociais, um conceito que se relaciona com conceito de discurso para a ADC.
Apoiando-se nessa compreensão, Jovchelovitch (2013, p. 66-77) compreende a representação como fenômeno psicossocial, como construções específicas da realidade social. É por meio das atividades e relações com os outros que se dá o nascimento das representações, o que proporciona tanto mediação entre sujeitos e mundo, quanto ressignificação do mundo por tais sujeitos.
Junto a isso, representações propiciam a ocorrência de símbolos, os quais consistem de fragmentos da realidade social instrumentalizados pelos sujeitos com finalidade de atribuir sentido e forma às circunstâncias nas quais eles estão inseridos. Assim, sujeitos sociais não estão alheios à conjuntura social, nem subjugados a reproduzi-la. Ao contrário disso, eles têm, como trabalho, desenvolver a constante tensão entre um mundo já formado e suas lutas para serem sujeitos (ibidem).
Bourdieu e Bakhtin (apud MINAYO, 2013, p. 85) expressam noção de representação social por meio da valorização da fala como modo de demonstração das condições da existência. Para Bourdieu, devido à palavra constituir-se como símbolo da comunicação, ela representa o pensamento. Assim, a fala tem capacidade de revelar condições estruturais, sistemas de valores, símbolos e normas; e de esboçar representações de grupos em condições históricas, socioeconômicas e culturais particulares. Bourdieu concorda com Bakhtin e compreende a palavra como fenômeno ideológico nato. Desse modo, cada época e cada grupo social constroem seu próprio repertório de formas discursivas na comunicação, a qual é totalmente instituída pelas relações de produção e pela estrutura sociopolítica.
Consoante Bourdieu (apud MINAYO, 2013, p. 86), ainda que cada agente não saiba ou não queira perceber, ele porta-se como produtor e reprodutor do sentido objetivo, ou seja, de uma reprodução social, devido as suas ações serem o produto de uma forma de atuar do qual ele não é o produtor direto e, também, nem possui o domínio total.
Schutz (apud MINAYO, 2013, p. 78-79) utiliza o termo “senso comum” para designar as representações sociais do dia a dia. Este autor considera que o senso comum implica um conjunto de abstrações, formalizações e generalizações, sendo que tais conjuntos são gerados e interpretados com base no mundo cotidiano. Assim, segundo o autor, a configuração cotidiana é permeada de significados e dotada de estruturas importantes para grupos sociais que vivem, pensam e trabalham no contexto social. Esses significados são escolhidos por meio de construções mentais, na forma de representações do “senso comum”.
Esse mesmo autor elucida, ainda, que a história de vida do ator social molda suas experiências. Com isso, cada ator, com base no conhecimento de sua experiência, expressará temas, aspectos ou contextos conforme os ache relevantes. Isso evidencia o porquê Schultz focaliza as representações no senso comum, pois é por meio dele que o ator social realiza definições, atribui significados importantes à sua ação, baseado na sua história de vida e nos conhecimentos adquiridos na interação com outros. Desse modo, Schultz contribui para o entendimento do conceito de ator social (MINAYO, 2013).
Tomo posse desse entendimento e esclareço que adoto o termo “atriz social”, em vez de “ator social” ou “atora social” para fazer referência à atuação social do sujeito feminino que, no caso deste estudo, é a presidenta da República Dilma Rousseff. Realizo esse esclarecimento porque na bibliografia aqui utilizada não há registro do uso desse termo para o sujeito feminino. No entanto, como esta pesquisa possui abordagem discursiva crítica, compreendo que devo referir à atuação social do indivíduo em análise por meio de um substantivo que esteja ligado à sua classificação de gênero, ou seja, “atriz social”.
Na visão de Minayo (2013), representações sociais realizam-se nas palavras, nos sentimentos e nos comportamentos e se institucionalizam. Com isso, podem e necessitam ser examinadas com base na compreensão e na atuação social. A mediação das representações é feita pela linguagem, que é aferida como modo de conhecimento e interação social, e, ainda, possui níveis diferenciados de percepção e nitidez em relação à realidade.
As representações sociais têm núcleos positivos de mudança e de resistência na forma de compreender a realidade. Por isso, devem ser analisadas criticamente, pois elas expressam situações reais da vida. “Na verdade, a realidade vivida é também representada e através dela os atores sociais se movem, constroem sua vida e explicam-na mediante seu estoque de conhecimentos.” (ibidem, p. 90).
Desse modo, Minayo (2013, p. 91) pontua que representações sociais não são absolutamente construtos conscientes, elas são elaboradas com base nas formações e nas categorias de pensamento do coletivo ou dos grupos. Assim, fazem-se presentes nas representações formas de dominação e de resistência, de contestação e de aceitação. Mesmo que possuam natureza ilusória, duvidosa e „verdadeira‟, as representações podem ser tomadas como matéria-prima para a investigação social e, também, para realizar ação „pedagógico-política de transformação‟, porque se portam tanto como espelho de específico segmento da sociedade como modificador de sua realidade.