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Fattigdom i Stor-Osloregionen eksklusive studenter og formuende studenter og formuende

Em sua intensa convivência com Becker, nos anos em que trabalharam juntos em Syracuse, Ronald Leifer pôde observar de perto essa característica marcante do antropólogo. Becker era um intelectual resiliente e bastante persistente que não se deixava podar ou limitar em sua busca pelo conhecimento, mesmo que isso lhe custasse a perda de posições seguras na academia ou dos meios para o seu sustento financeiro. Acreditava que essa era a vocação de sua vida – ou o seu chamado, como costumava dizer – e, por isso, referia a si mesmo como um “homem do conhecimento”.81 Era tão ávido nessa busca, e tão “impaciente para obter ideias-chave, através das quais pudesse compreender não somente as almas infelizes que se tornavam pacientes psiquiátricos, mas também a sua própria”82, que pedia, a todos aqueles a quem respeitava intelectualmente, uma lista dos livros que mais haviam influenciado seus pensamentos. Ao se deparar com um autor desconhecido, ou de quem ainda não havia lido nenhuma obra, Becker corria para a biblioteca e retirava todos os livros desse autor que conseguisse encontrar. Em seguida, isolava-se em seu escritório e dava início a uma “maratona de leitura e anotações, que não terminava até que tivesse digerido as ideias do autor recém-descoberto”.83

Enquanto se encontrava sob a orientação de Haring, Becker especializou-se no estudo da dinâmica psicológica humana, no desenvolvimento comportamental e em seus efeitos recíprocos na evolução social e cultural. Graças à variedade de seus interesses, ele acabou não se tornando um especialista, mas um generalista; não ter se “atolado em nenhuma disciplina

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Douglas Haring foi professor adjunto de antropologia geral e psicológica no Departamento de Psiquiatria de Syracuse, e ensinava a disciplina, tanto para estudantes quanto para residentes em psiquiatria, na época em que conheceu Becker.

80

LIECHTY, Daniel. Transference & Transcendence, p. 4.

81

LEIFER, Ronald. The Legacy of Ernest Becker, 1997.

82

Ibid., 1997.

83

específica”, como ele mesmo dizia, havia sido uma questão de sorte.84 Por isso, acreditava

que esse momento específicico de sua vida havia sido responsável, de certa forma, pelo desenvolvimento de uma de suas características mais marcantes: a interdisciplinaridade.85

Ao começar a trabalhar com o zen-budismo japonês, Becker teve de deixar para trás o tratamento histórico do Zen para desenvolver um tratamento psicológico, a fim de escrever o tipo de tese que desejava. Logo, começou a ler muito sobre psicanálise, algo que o “levou para além das fronteiras da antropologia”86, deixando-o fascinado, mas também muito

insatisfeito com as teorias psicanalíticas. Sua tese de doutorado acabou traçando paralelos e distinções entre a relação estudante-mestre das práticas e treinamento zen, a Reforma de Pensamento Chinesa87 e a psicoterapia ocidental, examinando os mecanismos de

transferência88 que podiam ser observados na dinâmica do Zen.89 Completou seu trabalho e

recebeu o título de Ph.D. em 1960, dedicando a versão publicada de sua dissertação – Zen: A

Rational Critique (1961) – ao orientador Haring, cujo estilo de ensino e influência intelectual

Becker valorizava muito.90

Com o avanço de seus estudos e a ampliação de seu horizonte de compreensão, Becker ficou muito entusiasmado com as possibilidades que enxergava em seu trabalho. Em uma entrada de seu diário, de abril de 1964, chegou a escrever: “a importância histórica e pragmática de meu trabalho é tão grande que me puxaria para as nuvens, se seu curso não fosse tão lento. [...] e o homem não foi feito para ter a cabeça nas nuvens”.91 Embora essa afirmação pareça presunçosa, a princípio, Becker expressava um entusiasmo genuíno por suas descobertas e ideias, conforme recorda Leifer, e não só desejava como acreditava sinceramente que poderia contribuir, com seu esforço, para decifrar os enigmas da natureza e da conduta humana.92

84

KEEN, Sam e LIECHTY, Daniel (editor). Conversation with Ernest Becker, p. 8.

85

Ibid., p. 8.

86

Ibid., p. 8.

87 Para mais informações sobre esse assunto, VER: [1] LIFTON, Robert J. Thought Reform and The Psychology of Totalism: A Study of Brainwashing in China. University of North Carolina Press, 1989; [2] LIFTON, Robert

J. “Thought Reform of Chinese Intellectuals: A Psychiatric Evaluation”. The Journal of Asian Studies, Vol. 16, n. 1, 1956, pp. 75-88. Publicado por: Association for Asian Studies. Disponível online em:

<http://www.jstor.org/stable/2941547>.

88

O conceito psicanalítico de transferência, como entendido e desenvolvido por Becker, será apresentado no Capítulo II desta dissertação.

89

LIECHTY, Daniel. The Ernest Becker Reader, p. 13.

90

Idem, Transference & Transcendence, p. 4.

91

KRAMER, Robert. The Journals of Ernest Becker, p. 442-443.

92

O otimismo iluminista de Becker, em relação à capacidade de progresso humano, levou-o a imaginar uma “ciência do homem”93 que possibilitaria encontrar soluções para os principais impasses da humanidade. Durante algum tempo, acreditou que seria capaz de formular as bases para o desenvolvimento dessa ciência, mas essa era uma tarefa um tanto ambiciosa que ele não chegou a completar – não porque teve uma vida curta, mas por ter desistido disso devido a uma mudança de perspectiva em relação ao ser humano. Depois, com o passar dos anos, as agruras existenciais e as condições do mundo foram sobrecarregando Becker. Ao aprofundar gradativamente seus estudos, foi deixando de acreditar que tal ciência era possível, e acabou adquirindo uma visão mais triste do mundo e do homem, além de uma atitude mais humilde em relação ao seu próprio trabalho. Na última entrada da versão publicada de seu diário94, encontramos seu desabafo:

Estive pensando se, para mim, a coisa certa a fazer não seria mergulhar no fluxo da vida como todos os outros, e esquecer meu papel especial, minha posição, meu chamado e, quiçá, minha missão. Apenas viver, uma vez que não posso realmente controlar nada, e tenho de morrer não realizado e sem nenhum conhecimento do sucesso, assim como qualquer outro. [...] Então, eu digo “ao inferno com isso”, pego uma identidade qualquer, como uma pessoa qualquer, e a coisa fica mais fácil para mim.95

93

Esse termo, frequentemente usado por Becker, aparece tanto de forma genérica, englobando as disciplinas das chamadas ciências sociais – tais como antropologia, psicologia e sociologia –, quanto com um sentido especial de uma única disciplina que encorporaria uma visão humanista e baseada nas ideias “fundadoras” do Iluminismo (Cf. MARTIN, Stephen. Decomposing Modernity, Notes, pp. 41-42). Quando o termo se referir ao segundo sentido, aparecerá sempre entre aspas, como é o caso aqui.

94

Becker explica, no próprio diário, as razões para deixar registradas suas impressões pessoais: “[…] Outra razão, mais egoísta, para que me dirija a um diário é que o mundo continua me barrando, e sou forçado a me dobrar sobre mim mesmo para me sustentar: simplesmente não consigo encontrar amigos, etc, em Roma, apesar das minhas tentativas de aproximação – nem mesmo nos coquetéis (festas) que tanto amo. Assim, após um lapso de muitos anos, eu volto ao diário novamente. Meu primeiros diários eram um tatear de uma mente sensível e imatura - inédita e inexperiente, até mesmo sem leitura. Nos anos intermediários, não mantive nenhum diário, simplesmente porque todos os meus melhores pensamentos foram direcionados para meus escritos profissionais. Agora que esses escritos estão, em grande parte, finalizados, no que diz respeito ao corpo conceitual principal, posso voltar a registrar algumas impressões qualitativas, desligadas, aleatórias, mas ainda de interesse humano e até mesmo profissional.” (Cf. KRAMER, Robert. The Journals of Ernest Becker, p. 433-434, entrada: 22 abril 1964).

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Essa é a interpretação de Becker para um de seus sonhos (era hábito seu registrar os sonhos nos diários, a contar pela quantidade de descrições desse tipo disponíveis), no qual se encontrava em um navio e corria ao redor do convés junto com toda a tripulação e passageiros. Para ele, era interessante que, apesar da louca correria, o navio seguia seu curso de forma constante e uniforme. Subitamente, todos devem ir para uma espécie de vestiário cheio de armários com trancas, a fim de se trocarem para nadar, mas antes tinham de pegar um casaco. Havia uma enorme variedade à disposição numa antesala do vestiário, e Becker avistou um casaco muito bonito e bem costurado, feito de couro. Tentou alcançá-lo, mas acabou por bloquear a multidão que vinha em sua direção, criando uma certa confusão e prejudicando a própria ida ao vestiário. Ao perceber a confusão que causava, por querer agarrar um casaco específico, diz a si mesmo “que se dane” e agarra o primeiro que se encontrava ao seu alcance. Só depois disso, consegue mover-se facilmente em direção ao vestiário (Cf. KRAMER, Robert. The Journals of Ernest Becker, p. 472, entrada: 07 jan 1969).

Com todas as dificuldades profissionais que Becker enfrentou durante a vida, a importância que dava a si mesmo e ao seu trabalho sofreu sérios golpes. Ele deixa de considerar que ocuparia qualquer posição especial como teórico das ciências humanas e assume que deveria renunciar à expectativa de um papel importante no mundo. Ao desistir da busca pela “identidade diferenciada”, pensava ele, sua trajetória se tornaria mais fácil, menos cheia de dificuldades e empecilhos.96 Mas não foi esse o caso, infelizmente, como será visto

mais adiante.