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A identificação de alguns fragmentos e vasilhas cerâmicas expostas no MUHPAN, localizado em Corumbá/MS, com a Tradição Serra da Bodoquena, foi criticada por Eremites de Oliveira (2009, p. 106), o qual, associando os materiais em questão à Tradição Chaquenha, considerou o enunciado da outra como “cunhado de última hora e que revela desconhecimento da literatura arqueológica”. Assim como em Eremites de Oliveira e Viana (1999-2000), Eremites de Oliveira (2009, p. 105-107, 112) associou o sítio MS-CP-25, pesquisado no âmbito do Projeto Corumbá, e o sítio

Cayman I, localizado em Porto Murtinho/MS, na margem esquerda do rio Paraguai, cuja cerâmica caracteriza-se pela preponderância de impressões de corda, à Tradição Chaquenha. Ponderando que o vasilhame da dita Tradição “lembra a cerâmica... Kadiwéu... que descendem dos antigos Guaikuru, termo... empregado... a vários povos indígenas linguisticamente aparentados”, o autor acrescenta, à caracterização da cerâmica do MS-CP-25 proporcionada por Schmitz et al. (1998), a presença de pinturas vermelhas e pretas, de “incisões em perspectiva geométrica” e “antiplástico também constituído por cacos moídos” (Ibid., p. 105-112 passim). Porém, ao contrário daqueles, Eremites de Oliveira (op. cit., p. 106) considera que a Tradição Chaquenha “parece estar associada... a povos agricultores que se estabeleceram nas terras baixas e... altas do Pantanal... quiçá a partir do segundo milênio da Era Cristã”. Assim, dado que a vasilha exibida como exemplo da Tradição Serra da Bodoquena por Martins e Kashimoto (2012) apresenta elementos decorativos e morfológicos análogos à cerâmica atribuída à Fase Jacadigo por Schmitz et al. (1998), que os fragmentos e vasilhas expostos no MUPHAN exibem elementos similares aos da Fase Jacadigo e do MS-CP-25, e que Eremites de Oliveira (2009) discorda da utilização da Tradição Serra da Bodoquena em relação às vasilhas que ele considera da Tradição Chaquenha, é provável que tanto o defensor desta quanto os proponentes da outra tenham considerado mais as semelhanças do que as diferenças entre os elementos análogos aos da Fase Jacadigo e aos do MS-CP- 25 contidos nas cerâmicas expostas no MUHPAN, compreendendo-os como pertencentes ao mesmo conjunto, porém cada qual ao seu modo.

Desafortunadamente, não tenho como discutir os significados da Tradição Serra da Bodoquena, pois, conforme explicado acima, não há nenhuma sistematização da mesma além das informações já citadas. Aliás, a ausência de uma definição credita a crítica em relação ao caráter precipitado e descontextualizado da Tradição Serra da Bodoquena. Porém, se a proposição desta é arbitrária, o emprego da Tradição Chaquenha por Eremites de Oliveira (2004, p. 45, 2009, p. 112) também é um tanto quanto ambíguo. Como pontuado acima, Eremites de Oliveira e Viana (1999-2000, p. 180) associaram a Tradição Chaquenha à cerâmica encontrada no sítio MS-CP-25, e consideraram a cerâmica dos sítios MS-CP-26 e MS-CP-47, inseridos por Schmitz et al. (1998) na Fase Jacadigo, tecnologicamente semelhante às da tradição Chaquenha e às da Tradição Pantanal, tanto que, paradoxalmente, não descartaram a possibilidade dos sítios MS-CP-25, MS-CP-26 e MS-CP-47 serem filiados à última. Em “Arqueologia das sociedades indígenas no Pantanal”, Eremites de Oliveira (2004, p. 45-48 passim)

considera a Tradição Pantanal como uma “macrotecnologia ceramista”, “muito mais que uma tradição tecnológica... uma macrotradição... um conjunto de vários estilos... correspondentes a diferentes etnicidades... difíceis de identificar em termos etnográficos e históricos... em uma grande zona geográfica platina”, sendo que em países como

“Argentina, Bolívia e Paraguai... tem recebido outras denominações, tais como: tradição Chaquenha (Willey 1971), estilo Guaná-Mbayá (Susnik, 1972, 1975, 1978, 1984), complexo cultural Alto- paraguaiense (Gomes-Perasso 1978) e cultura São Francisco ou tradição Ribeirinha-Paranaense (Amílcar Rodríguez 1992; Calandra et al 2000)”.

Já em Eremites de Oliveira (2009, p. 106), conforme apontado acima, a Tradição Chaquenha é relacionada novamente de um modo mais exclusivo aos sítios MS-CP-25 e Cayman I, bem como ao estilo da cerâmica Kadiwéu e ao vasilhame estudado por “Susnik (1959) e Gomez Perasso (1978)” no Paraguai, “porém pouco divulgados dentro e fora daquele país”, sendo, portanto, percebida como diferente da Tradição Pantanal. As ponderações em relação aos sítios MS-CP-26 e MS-CP-47 são praticamente as mesmas contidas em Eremites de Oliveira e Viana (1999-2000), porém Eremites de Oliveira (2009, p. 112) se mostra mais convencido de que o “caso” destes sítios e do MS-CP-25 “sugere a existência de... assentamentos distintos dos grupos portadores da

Tradição Pantanal, e uma sociodiversidade no Pantanal”.

Frente a tantas denominações distintas, o próprio Eremites de Oliveira (2004, p. 45) aponta a necessidade de “padronizar a nomenclatura dessa tradição tecnológica”. Com efeito, a apropriação monolítica dos rótulos afixados nos registros arqueológicos no Pantanal leva à reprodução das anfibologias interpretativas subjacentes às classificações. Na busca por referências sobre os contextos arqueológicos comparáveis ao detectado em Lalima, encontrei uma na qual o autor (LIMA, 2011, p. 42-44), preocupado em considerar suas pesquisas arqueológicas no alto curso do rio Guaporé, no oeste do Mato Grosso, em um âmbito mais amplo, elaborou duas tabelas com o objetivo de resumir “os principais aspectos das afiliações cronológico-culturais e seus vestígios de cultura material para o ambiente do Pantanal”. Nestas, as proposições classificatórias de Schmitz et al. (1998), inclusive no que se refere às Fases cerâmicas e pré-cerâmicas, são reproduzidas acriticamente, porém sem mencionar o conjunto do

sítio MS-CP-25. Todavia, um pouco mais adiante, no último parágrafo do item “A Bacia Platina e o Pantanal”, citando Eremites de Oliveira (2009, p. 105-106), Lima (2011, p. 47) considera a Tradição Chaquenha como “outra tradição ceramista... também conhecida como Tradição Serra da Bodoquena”.

Meio que como no sentido da chamada de Eremites de Oliveira (2004, p 45), penso que os arqueólogos não devem conceber culturas arqueológicas arbitrariamente, com o “afã de imortalizarem seus nomes na história da arqueologia, batizando com este ou aquele nome determinadas tecnologias indígenas pretéritas”. Antes, porém, é necessário avaliar se as proposições lançadas adrede podem ser consideradas de fato como uma “macrotradição”, pois, se assim não o for, é melhor que as mesmas sejam mantidas ou então, ai de mim, que outras sejam propostas, seja por meio de reformulações, urgidas pelo acúmulo de dados e pelos ajustes teórico-metodológicos, ou devido ao achado de registros ainda desconhecidos – uma possibilidade sempre eminente em se tratando da arqueologia no Chaco e em outras regiões das terras baixas sul-americanas (Mapa 1).

Mapa 1: Principais tradições arqueológicas ceramistas mencionadas.