Conforme anunciamos anteriormente, o corpus da presente pesquisa abrange pronunciamentos de Luís Inácio Lula da Silva, quando presidente (2003-2010), dirigido a trabalhadores brasileiros, em eventos de Primeiro de Maio. Escolhemos tal objeto devido à
Coletamos pronunciamentos do presidente Lula no site da Presidência da República em um link destinado a “discursos” de ex-presidentes. Anexamos a esta dissertação os textos de que retiramos os excertos para nossa análise. Para acesso, ver: <http://www.biblioteca.presidencia.gov.br/ex-presidentes/luiz-inacio-lula-da- silva/discursos>.
intensa e frequente circulação de discursos sobre a ascendência de Lula da “classe trabalhadora”: seja para refutação, seja para adesão, retoma-se e/ou reformula-se o enunciado Lula,o primeiro operário a chegar à presidência da República. De que modo emerge um enunciado como esse? Em que medida Lula, enquanto presidente, está autorizado a falar para trabalhadores em eventos de Primeiro de Maio?
Pressupomos que se construiu uma identidade de metalúrgico, operário, trabalhador, sindicalista, para Luís Inácio Lula da Silva, de modo que, ainda que de formas antagônicas, divergentes e algumas vezes compatíveis entre si, tal construção relaciona-se a uma suposta identificação do povo brasileiro com sua imagem. Sendo assim, não consideramos que a identidade de trabalhador fora “criada” pelo sujeito enunciador que levamos em consideração para a pesquisa, mas entendemos que se processa uma co- construção de identidade (COULOMB-GULLY, 2011), que se funda em várias instâncias (CHARAUDEAU, 2008). Quem são os atores políticos participantes deste processo de co- construção? Se nos limitarmos ao Brasil, aos agentes brasileiros que produzem esses dizeres que constroem essa identidade, temos o Partido dos Trabalhadores e seus partidários, partidos de oposição ao governo petista, distintos setores da mídia, diversos segmentos da sociedade brasileira e o próprio Lula.
Poderíamos associar partidários e opositores do PT à instância política, já que eles travam lutas políticas entre si pelos cargos de governo; a sociedade brasileira, à instância cidadã, que elege e julga seus representantes, mas não participa do governo; e, tevê, jornais, revistas, sites jornalísticos, dentre outros meios de comunicação, à instância midiática, cujo papel seria mediar as relações entre instância política e instância cidadã. É preciso compreender também que a distinção não corresponde a fronteiras absolutamente rígidas e à completa independência de uma instância em relação às outras.
Especialmente quando pensamos na propaganda política do presidente operário: tal presidente, construído à imagem e semelhança de um povo, seria considerado tão distante da maioria de seus representados quanto seus antecessores? Ou gozaria de alguma legitimidade em função de sua imagem? E em que se sustenta tal legitimação? Apresentamos em nossas análises os processos discursivos nos quais se inscreve o sujeito enunciador Lula e por meio dos quais busca produzir efeitos de legitimação de seu dizer político, valendo-se de certos procedimentos para tanto.
Além de Charaudeau (2008), Osakabe ([1979]1999), Fiorin (1988), Indursky (1997), Cazarin (2005), Courtine (2006, 2008a, 2008b, [1981]2009) e Piovezani (2009), autores cujas obras abordamos no capítulo precedente, perpassam nossas análises na medida
em que incorporamos em alguma proporção as lições dadas por cada um acerca da investigação sobre o discurso político. Deste modo, trabalhamos com a noção de porta-voz, formações discursivas, condições de produção, dentre outras formulações fundamentais para nosso trabalho. A noção de legitimidade (CHARAUDEAU, 2008) é associada aos demais conceitos peucheutianos pela sua importância e pertinência no que diz respeito ao trabalho sobre o discurso político.
Partimos da hipótese de que as sequências discursivas de referência (SDR) coletadas dos pronunciamentos do presidente Lula são dominadas pela FD capitalista, ainda que o enunciador construa para si (junto a outros co-construtores, conforme expusemos anteriormente) uma forte imagem de trabalhador, operário, sindicalista. Nosso corpus não reúne SDR da conjuntura que antecede o período da presidência, entretanto entendemos que o processo de identificação de Lula ao papel social de presidente é construído antes de sua chegada ao posto presidencial. Sendo assim, nos pronunciamentos, temos pelo menos duas identidades em disputa, que concorrem por um espaço nos processos discursivos conforme a conjuntura histórica. Quanto de presidente há no trabalhador e quanto de trabalhador há no presidente? Certamente não podemos responder a esta questão, mas tentamos traçar um percurso por meio do qual se pode chegar a uma reflexão sobre as transformações por que passaram os discursos políticos para que obtivessem adesão frente à perda de credibilidade cada vez maior que vêm sofrendo.
Acreditamos que, para que o sujeito enunciador chegasse a ser presidente, fez-se necessário que se projetasse em tal posição, nas circunstâncias de sua candidatura ao cargo. Por esta razão, consideramos que, sendo presidente, identifica-se ideologicamente à FD correspondente ao lugar social ocupado, FD capitalista. Seguindo Courtine (2009), consideramos tal FD como heterogênea, constituída por contradições, atravessada pelo interdiscurso de FDs antagônicas, de modo que não pretendemos caracterizá-la como um bloco homogêneo em oposição à FD dos trabalhadores, pelo contrário: tratamos de evidenciar como o discurso transverso dos trabalhadores é materializado no interior da FD capitalista como forma de conferir coerência a ela. Diferentemente do que ocorre com o corpus discursivo analisado por Cazarin (2005), recortado de condições de produção distintas,
“A sdr será relacionada a um sujeito de enunciação como a uma situação de enunciação determináveis em relação a certo número de coordenadas espaço-temporais e mais geralmente circunstanciais (tempo da enunciação, lugar da enunciação, circunstâncias da enunciação, que incluem a presença de alocutários determinados...)” (COURTINE, 2009, p.108).
quando Lula inscrevia-se na FD dos trabalhadores, nosso corpus remete a um sujeito que ocupa o lugar de presidente.
Qual a relação entre este lugar ocupado empiricamente e uma certa posição sujeito ideologicamente inscrita na FD capitalista? Entendemos que, para que o sujeito assuma esse lugar, deve se filiar a essa posição; no mínimo, ocorre uma identificação ideológica com o papel institucional assumido. A razão pela qual concebemos esta questão desta forma concerne ao fato de que o regime de governo da democracia representativa está intrinsecamente relacionado ao modo de produção capitalista. O fato de um trabalhador ter chegado ao poder não significa que exista um governo dos ou para trabalhadores, já que, nesta modalidade de regime, governa-se para todos, e o próprio slogan23 do governo Lula, “Um país de todos”, reafirma esta posição. Por “todos” podemos entender “trabalhadores”, mas também “empresários”, por exemplo.
Compreendemos as relações entre trabalhadores e empresários como antagônicas, por esta razão, entendemos que estamos diante de um presidente conciliador, que apazigua possíveis conflitos sociais entre esses segmentos, por meio desta relação de identificação que estabelece discursivamente com os trabalhadores. Demonstraremos estas proposições na materialidade linguística do discurso nos pronunciamentos de Primeiro de Maio de Lula do presidente Lula a trabalhadores. Trata-se um presidente “trabalhador” falando a trabalhadores no Primeiro de Maio, sim. Estas são especificamente as condições de produção. Contudo, não concebemos que simplesmente por estas razões não haja filiação à FD capitalista, embora percebamos o quanto o presidente Lula sabe mostrar, sabe parecer enquanto sujeito político. Courtine retoma Machiavel para demonstrar como os governantes sempre estiveram preocupados com o mostrar, com o aparentar:
A arte de governar sempre soube tirar partido da aparência, reconheceu essa necessidade na origem da reflexão moderna sobre política: “Não é necessário, portanto, a um Príncipe, ter todas as qualidades acima nomeadas, mas apenas que ele pareça tê-las... como parecer ser compassivo, fiel, humano, íntegro, religioso; e de fato o ser, detendo porém o teu espírito àquilo que porventura não seja preciso sê-lo, tu possas e saibas usar do contrário” (MACHIAVEL, 1962, p.125) (COURTINE, 2003, p. 132) A relação entre aparentar e ser é extremamente complexa e escapa dos nossos objetivos de pesquisa, porém não deixa de estar correlacionada com a questão que
Orlandi (2012, p.123-124) explora a cadeia de sentidos em que se inscreve o slogan do Governo Lula, em seu artigo Propaganda Política e Língua de Estado: Brasil, um país de todos. Segundo a autora, a cadeia de enunciados desse governo constrói um discurso “edificante” articulado ao mito persistente da cidadania, por meio dele se nega o pré-construído de que o Brasil não é um país de todos, apagando-se diferenças e conflitos sociais.
apresentamos acima: o fato de que se tenha o presidente “trabalhador” não significa que haja um governo dos/para os trabalhadores. Não pretendemos adentrar em uma investigação psicológica sobre quem é o “verdadeiro” Lula, mas evidenciar que o mesmo discurso que o afirma como aquele que faz um governo para os trabalhadores, silencia saberes sobre transformações sociais que efetivamente estão relacionadas com os interesses de seus representados.
Para a seleção do corpus, trabalhamos sob a perspectiva de Courtine, quando se dedicou a analisar o discurso comunista do Partido Comunista Francês dirigido aos cristãos, no período de 1936 a 1976. Em seu trabalho, o autor indica um possível percurso para a constituição do corpus de pesquisa, segundo a seguinte orientação:
Tratar-se-á de determinar as condições de produção, assim como as condições de formação de tais discursos; de formular hipóteses específicas relativas ao corpus; e, depois, de descrevê-lo, apresentá-lo e organizá-lo (COURTINE, 2009, p.123).
Nesta seção, juntamente com a justificativa para a constituição do corpus, evidenciamos as hipóteses desta pesquisa. Partimos então para a descrição das condições de produção, que nos provê de subsídios para a descrição, a apresentação e a organização do material a ser analisado, considerando também transformações por que passou o discurso de Lula de 2003 a 2010.