Espósito (2007) propõe outra leitura para o conceito de comum, contrariando todos os pensamentos e conhecimentos sobre comunidade que nos acompanham até hoje. Sustenta que a comunidade se organiza como comunidade pelo ‘nada da coisa em comum’ e a associa ao niilismo em um livro com esse exato título: Comunidade e Niilismo (2007).
O único modo para dar conta da questão sem renunciar a nenhum dos seus termos passa pela necessidade de amarrar em uma única reflexão comunidade e niilismo. E, assim, ver na completude do niilismo, não um obstáculo insuperável, mas a ocasião para um novo pensamento da comunidade. O que não quer dizer, obviamente, que comunidade e niilismo resultem identificados ou até mesmo simétricos. Nem mesmo que estejam situados no mesmo plano ou ao longo da mesma trajetória. Mas, sobretudo, que se encontrem em um ponto do qual nenhum dos dois possa prescindir, porque resulta constitutivo de um e outro, a títulos diversos. Este ponto – inadvertido removido ou anulado pelas atuais filosofias comunitárias, porém mais em geral pela tradição político-filosófica – pode ser indicado como o ‘nada’. É isto o que a comunidade e o niilismo têm em comum, numa forma que permaneceu até agora como uma questão não investigada. (ESPOSITO, 2007, p.17)
O autor parte do princípio de que a nossa noção de pertencimento é exatamente o niilismo que nos constitui como sociedade. Podemos encontrar exemplos disso no hábito de nos isentarmos das responsabilidades dizendo que a vida é assim mesmo, que é o sistema que nos impede, ou seja, a culpa é sempre do outro. Para Espósito, vivemos na antítese da coesão e sem o sentimento de pertencimento por algo em comum porque o que nos une é o vazio que nos acompanha, as incertezas e a busca deste preenchimento.
Neste viés, a comunidade é vista como um niilismo e o que soma e agrega na comunidade é o nada, o vazio das forças, o vazio da negação, o descrédito, o desânimo com relação ao modo da sociedade funcionar. Na premissa da comunidade, o niilismo era visto como um dado finito, ou seja, era um impedimento de pertencimento, uma vez que se entendia que era o comum a todos que permitia a relação com o outro. Daí a surpresa de encontrar o argumento de Espósito de que é o nada que permite a alteridade da relação, “o nada não é a condição ou o êxito da comunidade – o pressuposto que a libera para a sua ‘verdadeira’ possibilidade – e sim o seu único modo de ser” (2007, p.19).
Comunidade. Habitualmente, se liga ao conceito de compartilhamento e de união, explicitados no uso do ‘com’ (no sentido de agrupar ou partilhar), mas Esposito pega o ato de compartilhar ao avesso: “no conceito de ‘compartilhamento’, o ‘com’ é associado à divisão” (ESPOSITO, 2007, p.19), significando separação, no sentido de partilha. Seria como priorizar que o que nos une, na verdade, é a situação de sermos separados. Sermos separados uns dos outros é o nosso comum. Uma vez que cada sujeito é único e o comum é aquilo que pode ser compartilhado, o que aí cabe é o próprio nada.
A existência da comunidade não pode se apoiar na concordância porque cada indivíduo é uma singularidade, o que inviabiliza uma coesão, questão indispensável para a existência da comunidade. Na modernidade do consumo, a pessoa se tornou uma propriedade, que se distingue das outras pessoas-propriedade pelas suas particularidades. Assim, o que
todos têm em comum é possuir as suas particularidades. O comum é ser uma pessoa-propriedade. Cada qual com a sua propriedade de ser pessoa, cada um sendo pessoa na sua propriedade. A existência da comunidade, portanto, não se dá pela concordância e isto inviabiliza a coesão. Nessa perspectiva, o niilismo se inscreve na comunidade. A presença do sujeito não está no sim (comum), mas no não (diferente), que representa a negação.
O co-pertencimento, que é a matriz da comunidade, está centrado na impossibilidade desse comum. Se cada um é próprio, então não é comum; desta forma, não dá para compartilhar o sujeito, e então, o que vai para a comunidade? O sujeito é próprio e é indivisível (não compartilha). É único e não é comum. Nesta concepção se constrói a base do relacionamento. Como ressalva, elencamos:
(...) propriedade coletivamente possuída por um conjunto de indivíduos – ou mesmo de seu pertencimento a uma identidade comum. Aquilo que, segundo o valor do conceito, os membros da
communitas compartilham – exatamente o complexo, mas forte,
significado de munus – é, sobretudo, uma expropriação da própria substância, que não se limita ao seu ter, porém que abrange e corrói o seu próprio ‘ser sujeitos’. Aqui, o discurso assume uma dobra que o desloca do terreno mais tradicional da antropologia, ou da filosofia política, para aquele, mais radical, da ontologia: que a comunidade esteja vinculada não a um mais e sim a um menos de subjetividade, quer dizer que os seus membros não são mais idênticos a si mesmos, porém constitutivamente expostos a uma tendência que os leva a forçar os próprios limites individuais para encararem o seu ‘fora’. Deste ponto de vista – que rompe toda a continuidade entre o ‘comum’ e o ‘próprio’, legando-lhe o impróprio – retorna ao primeiro a figura do outro. Se o sujeito da comunidade não é mais o ‘mesmo’, será necessariamente um ‘outro’. Não um outro sujeito, mas uma cadeia de alterações que não se fixa nunca em uma nova identidade. (ESPOSITO, 2007, p.18)
Se não somos comuns, o que podemos tangenciar é, no máximo, a semelhança e a familiaridade. Assim, desenvolvemos afinidade com o que está próximo como, por exemplo, o emprego, a família, a igreja, o clube, mas cada sensação de bem ou mal estar nestes ambientes é de ordem própria. Nós somos seres separados e, por isto, estamos juntos. Para
existir a troca com o outro (que é pautada na existência do vazio), a diferença é indispensável. Ficamos unidos no vazio e é exatamente isto que dá amplitude aos nossos relacionamentos. Explicando: um relacionamento saudável é aquele que continua existindo no vazio (na diferença), ou seja, com o que você ainda não sabe/com quem ainda guarda diferença, com o que/com quem você não domina. Só é possível existir relacionamento quando se tem algo para conhecer e reconhecer. Por isso, o vazio nunca é preenchido.
As pessoas não têm coisas em comum, cada um tem as suas particularidades (sujeito como uma propriedade). O ato de dividir se dá pelo comum e, no caso, o que nos coloca em comum é a partilha do vazio, no sentido de dividir a diferença e não a solidariedade, o medo ou o sofrimento. A habilidade real de se relacionar em comunidade está, então, na arte de agrupar o vazio, e é isto que nos mobiliza para a possibilidade de termos ideias diferentes. Este é o principio maior da comunidade: o conhecimento será cada vez mais vigoroso e útil com a troca das diferenças do que as pessoas falam. Quanto mais coisas próprias se têm, mais possível o viver em comunidade.
A comunidade não compartilha coincidências, não se produz por uma relação de igualdade ou nivelamento, e sim pelo agrupamento das diferenças em uma mesma integração: “comunidade é uma ausência de subjetividade, de identidade, de propriedade” (ESPOSITO, 2007, p.18).
Vamos situar a comunidade empresarial nesta moldura. Apesar de um discurso que considera a diversidade, a humanização e a criatividade, ele, de fato, preza ser concebido em torno da identidade. A organização empresarial se organiza em torno do ‘em comum’, já que este é o principio da comunidade moderna (tudo que é inteiro e coeso de si mesmo), sendo inversa ao tipo de comunidade definida por Espósito. A organização proclama o seu sucesso pela união de todos em nome da sua missão, visão e valores compartilhados. E a pergunta que cabe é: será que os seus funcionários estão, de fato, compartilhando em um universo comunitário? Em nome deste todo coeso, a organização empresarial
universaliza o todo em nome do uso em comum, ou melhor, da coisa em comum: a produtividade. Mas produtividade em prol de todos ou da empresa?
A diferenciação dos públicos entre internos e externos, a partir de sua própria designação, produz controvérsia e conflito (ANDRADE, 1993)
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e, apesar da controvérsia propor um desconforto que nos leva ao debate, a tendência é tentar preencher a busca do vazio neutralizando as controvérsias em nome do bem comum e, sendo assim, caracterizamos e anulamos qualquer diferença. A consequência deste ato é a padronização dos públicos, formalizados em clientes, funcionários, comunidade, acionistas, governo, fornecedores e imprensa entre outros.
Desta forma, pode-se compreender que não temos comunidade empresarial, uma vez que há perda da subjetividade, de identidade e de propriedade.