Foi com bastante trabalho que nós conseguimos esse reconhecimento, nós trabalhamos bastante, mas eu acho que valeu a pena! Acho que nós dedicamos a vida por um bom tempo aqui Maria Luísa Guillaumon Emmel (2016) (ANEXO XII).
Em 6 de abril de 1977, o Curso de Terapia Ocupacional da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) teve sua autorização de funcionamento concedida pelo Conselho de Curadores daquela Universidade (UFSCar, 2007). O curso comporia o Departamento de Ciências da Saúde (DCS), com os cursos de Enfermagem e Fisioterapia – este último também estava em processo de criação.
Para estruturação da graduação, o reitor da Universidade convidou José Rodrigues Louzã, médico ginecologista, assistente administrativo do IR do HC-USP desde 1954 e professor do curso de Terapia Ocupacional desse Instituto. Louzã havia realizado um curso sobre reabilitação em 1960 na cidade do México, a convite da OMS, e tinha certo conhecimento na área (LOUZÃ, 2015).
Após o aceite do convite, Louzã iniciou a organização do curso e a construção da grade curricular, cuja elaboração tomou como base o currículo do Curso de Terapia Ocupacional da USP e o currículo mínimo de 1963. Com a grade curricular estruturada, ocorreu o primeiro vestibular, ofertando 30 vagas para o curso. Em agosto de 1978, os candidatos aprovados no vestibular iniciaram as aulas, que ocorriam em tempo integral (EMMEL, 2016). Assim, iniciou- se a graduação de Terapia Ocupacional da UFSCar, quarto curso da área no Estado de São Paulo e primeiro localizado em uma instituição federal em São Paulo.
Como no quadro de professores do curso ainda não existia nenhum terapeuta ocupacional, Louzã iniciou uma busca por profissionais da área na região, encontrando Maria Luísa Guillaumon Emmel, sua ex-aluna do Curso de Terapia Ocupacional da USP que residia na cidade de São Carlos, e a convidou para proferir uma aula aos novos alunos em meados de setembro/outubro de 1978. Em março de 1979, Louzã contratou-a para ocupar o cargo de primeira terapeuta ocupacional docente daquela instituição (EMMEL, 2016).
Quando Maria Luísa Guillaumon Emmel chegou à instituição, ao analisar a grade curricular da graduação, percebeu que nela faltavam conteúdos importantes para formação dos alunos, inclusive algumas disciplinas específicas para formação do terapeuta ocupacional e outras voltadas às humanidades. No intuito de melhorar aquele currículo para proporcionar uma formação mais qualificada ainda para os alunos da primeira turma, também pensando no curso de Fisioterapia que estava igualmente iniciando, convidou sua colega fisioterapeuta da
APAE121, Ester Silva, que também estava iniciando o trabalho na UFSCar, para juntas modificarem os currículos.
Nós começamos a mexer no currículo, pois este precisava avançar, a gente precisava avançar nisso, precisava ter disciplinas específicas, precisava crescer na fundamentação da terapia ocupacional. Comecei imediatamente a reestruturação do currículo propondo um curso de 4 anos, porque eu queria que essa primeira turma já fizesse o curso dentro do novo perfil (EMMEL, 2016).
Naquele momento, com a difícil tarefa de melhorar as condições das formações existentes, as novas docentes iniciaram um trabalho em conjunto modificando toda a estrutura interna dos cursos. Segundo Emmel (2016), o objetivo da reorganização era estruturar o currículo com uma base mais forte de terapia ocupacional, incluindo um pouco mais de disciplinas relacionadas à área de humanas, devido à importante conexão com a terapia ocupacional. Em suas palavras: “Nós tínhamos que marcar esse curso com a terapia ocupacional e não com a medicina, a ideia foi essa!”.
Era preciso realizar primeiro o trabalho interno para, em seguida, acionar os órgãos superiores da Universidade que autorizariam a montagem da estrutura física necessária para continuação dos cursos, uma vez que, até aquele momento, eles funcionavam no mesmo prédio da reitoria em conjunto com a enfermagem. Existia apenas uma pequena sala compartilhada entre as coordenadoras de terapia ocupacional e fisioterapia, com uma escrivaninha para cada (EMMEL, 2016).
À medida que Maria Luísa Guillaumon Emmel se inteirava no trabalho acadêmico, Louzã, então professor e coordenador do curso, porém com residência fixa na capital São Paulo, reduzia a frequência de viagens a São Carlos. Nesse contexto, em 1979, Maria Luísa assumiu a coordenação do curso e, consequentemente, com ela veio toda a responsabilidade de “montar a estrutura de laboratórios, contratação de docentes e a construção da primeira grade de estágios dos alunos. Além, é claro, de preparar aulas e ministrar várias disciplinas”. Ainda, nesse mesmo ano, ela entrou no Programa de Mestrado em Educação Especial122 (EMMEL, 2016).
Também em 1979, precisamente no dia 9 de novembro, o currículo reformulado pelas duas professoras foi aprovado pelo Conselho de Ensino e Pesquisa da UFSCar. A graduação passou de três para quatro anos letivos, com 3.660 horas e 244 créditos. Com essa mudança, o escopo do curso foi ampliado para além do enfoque clínico biológico, englobando também os aspectos psicológico e social dos indivíduos. Contudo, o enfoque na área biológica, enfatizando
121 Ambas trabalhavam na APAE de São Carlos.
as patologias, doenças e deficiências, foi mantido, porém organizado de forma a priorizar os conhecimentos acerca do funcionamento do organismo sadio e, posteriormente, seus estados patológicos. Ainda, os Estágios de Observação passaram a ser realizados no terceiro ano letivo (UFSCar, 2007).
As matérias da graduação foram distribuídas em três ciclos, sendo o primeiro Ciclo Básico, no qual se encontravam as disciplinas de Ciências Biológicas, correspondentes a 74 créditos ou 1.110 horas, contendo as seguintes disciplinas e seus respectivos créditos: Citologia, Histologia e Embriologia (4 créditos), Parasitologia (4 créditos), Imunologia (4 créditos), Genética (4 créditos), Anatomia (8 créditos); Bioquímica e Biofísica (4 créditos), Microbiologia (4 créditos), Fisiologia (8 créditos), Farmacologia (4 créditos), Patologia Geral (4 créditos), Nosologia Médico-Cirúrgica I (8 créditos), Nosologia Médico-Cirúrgica II (8 créditos) e Nosologia Médico-Cirúrgica III (10 créditos) (UFSCar, 2007).
O Ciclo Pré-Profissionalizante ou de Formação Geral continha disciplinas que abordavam as técnicas, recursos em terapia ocupacional e conhecimentos relacionados às diversas práticas profissionais, inclusive aquelas direcionadas às Ciências Humanas. Esse Ciclo correspondia a 20 créditos ou 300 horas. Suas disciplinas e respectivos créditos eram: Fundamentos de Terapia Ocupacional (2 créditos), Administração Aplicada à Terapia Ocupacional (2 créditos), Prótese e Órtese Aplicada à Terapia Ocupacional (4 créditos), Ética Profissional no Exercício da Terapia Ocupacional (2 créditos), Cinesiologia Aplicada à Terapia Ocupacional (8 créditos), Terapia Ocupacional Geral (4 créditos), Desenvolvimento: Relação entre Aspectos Psicológicos e Condições de Saúde (4 créditos), Enfermagem Aplicada à Reabilitação (4 créditos), Psicologia Aplicada à Reabilitação (8 créditos), Técnicas e Recursos Terapêuticos I (8 créditos), Técnicas e Recursos Terapêuticos II (10 créditos), Sociologia da Saúde (4 créditos) e Psicologia Geral (4 créditos) (UFSCar, 2007).
Já o Ciclo Profissionalizante continha as seguintes disciplinas e seus respectivos créditos: Terapia Ocupacional Aplicada I (6 créditos), Terapia Ocupacional Aplicada II (10 créditos), Estágio de Observação em Terapia Ocupacional I (6 créditos), Estágio de Observação em Terapia Ocupacional II (10 créditos), Estágio Profissional em Terapia Ocupacional I (28 créditos), Estágio Profissional II em Terapia Ocupacional (28 créditos), Seminários I (4 créditos) e Seminários II (4 créditos) (UFSCar, 2007).
Inicialmente, para contemplar o conteúdo das disciplinas específicas de terapia ocupacional, Maria Luísa Guillaumon Emmel organizava suas aulas tentando adaptar seu conhecimento sobre psicologia para a terapia ocupacional, pois, naquela época, ela só tinha acesso aos livros Spackman e Mac Donald, que não contemplavam todas as dimensões da
profissão. A Universidade assinava dois jornais internacionais, o American Journal of Occupational Therapy e o British Journal of Occupational Therapy, no entanto eles chegavam à instituição com seis meses a um ano de atraso após sua publicação, “mas eu trabalhava com criança e na prática clínica era muito o que vinha da psicologia que eu tentava adaptar para TO [terapia ocupacional]” (EMMEL, 2016).
Com todo o trabalho na organização do curso, também era necessário iniciar a tentativa de trazer terapeutas ocupacionais para lecionar na graduação. Nesse sentido, em meados de 1979, a coordenadora descobriu que residia na cidade de São Carlos uma terapeuta ocupacional, Rosely Acerbi, e a convidou para trabalhar na Universidade. Essa foi a segunda professora terapeuta ocupacional da UFSCar, mas que ocupou o cargo por pouco tempo (EMMEL, 2016). No primeiro semestre de 1980, foi possível realizar novas contratações de terapeutas ocupacionais: chegaram ao curso Cristina Toyoda e Léa Beatriz Teixeira Soares. No segundo semestre do mesmo ano, foram contratados Michelle Selma Hahn, Rosângela Pugliese, Antônio Carlos Riane Costa, Maria Inês Brito Brunello, Roseli Akemi Kato, Elisa Eiko Kajihara e Dagmar Borges Pereira. Já no primeiro semestre de 1981, a graduação passou a contar com Marlene Lumi Kawahara, Lucy Tomoko Akashi, Jussara Pinto, Beatriz Ambrósio do Nascimento e Selma Lancman. Assim, foi possível formar um grupo empenhado em construir o Curso de Terapia Ocupacional da UFSCar (EMMEL, 2016; HAHN, 2016123).
Ainda nesse início, o curso contou com a colaboração de uma artista plástica contratada pela Universidade, Clemência Pecorari Pizzigatti, que ocupou o cargo de professora na graduação de Terapia Ocupacional até sua aposentadoria (HAHN, 2016). Sobre esse trabalho, Pizzigatti (2008)124 comenta: “Em São Carlos era professora de arte de terapia ocupacional. Minha cadeira era Recursos Terapêuticos. Entrei em São Carlos dando uma disciplina e deixei quatro disciplinas com as minhas assistentes. Foi um período muito rico”.
Concomitante à chegada dos professores, foram sendo estruturados os estágios. Assim, foram implantados o Setor de Terapia Ocupacional na Santa Casa de Misericórdia de São Carlos, os convênios com asilos, creches, hospitais psiquiátricos, APAE, local onde se montou um setor de atendimento para crianças, sendo transferido, posteriormente, para uma casa alugada pela Universidade no centro da cidade de São Carlos. Esses foram os locais onde as
123 Dados fornecidos por Michelle Selma Hahn em conversa ocorrida no Departamento de Terapia Ocupacional da UFSCar no dia 1º de novembro de 2016.
124 Entrevista cedida por Clemência Pecorari Pizzigatti ao Memorial Piracicabano em 2008, um ano antes de sua morte. Disponível em: <http://memorial-piracicaba.blogspot.com.br/2008/11/clemncia-pecorari-pizzigatti.html>. Acesso em: 29 nov. 2016.
primeiras turmas realizaram estágios; depois foram sendo constituídas parcerias para criação de estágios fora de São Carlos (EMMEL, 2016).
Como as salas de aulas da UFSCar eram comuns a todos os cursos da instituição, foi necessário criar apenas os laboratórios específicos de terapia ocupacional, no entanto eles foram sendo estruturados nos espaços deixados pelo curso de Biologia. Assim, todos os laboratórios de terapia ocupacional foram sendo espalhados nos vários prédios da Universidade:
Tivemos que construir, comprar material. Tinha que fazer lista de material, fazer licitação para comprar esse material, tudo coisa que demora, mas nós estávamos tão envolvidas com tudo, os docentes iam chegando e aquilo ia dando um ânimo para gente, querendo construir o melhor curso do Brasil, então realmente nós trabalhávamos muito e com muito prazer, é impressionante como nós trabalhamos bastante aqui! (EMMEL, 2016). Nesse período de construção do Curso de Terapia Ocupacional da UFSCar, os outros cursos abertos no Estado de São Paulo estavam se consolidando. Foi então que, com o intuito de trocar as experiências vividas no interior das instituições de ensino, ocorreu a primeira reunião de coordenadores de cursos de Terapia Ocupacional do Estado de São Paulo, em Campinas, na qual estiveram presentes as coordenadoras da USP, UNIMEP, PUC-Campinas e UFSCar, como relata Maria Luísa Guillaumon Emmel (2016):
Para mim aquilo foi o máximo, porque conversar com os outros coordenadores e ver que mesmo que nós nunca tivéssemos conversado antes uma com a outra, o que estávamos fazendo era por aquele caminho mesmo, foi muito bom, eu me senti em casa! Voltei com as forças mais renovadas ainda! Alí nós já começamos a nos articular, talvez fosse um comecinho de ENDTO125. Na
verdade, era para dividir as angústias e planejar o futuro da profissão; o que era possível ser feito (EMMEL, 2016).
Após esse encontro de coordenadoras, por volta dos anos 1979/1981, um grupo de professores do Curso de Terapia Ocupacional na UFSCar elaborou alguns documentos e foi ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) solicitar verba para pesquisa. Como resposta, o CNPq encomendou um trabalho que apresentasse a situação da terapia ocupacional no Brasil. Nesse sentido, Maria Luísa Guillaumon Emmel, Jussara Pinto, Cristina Toyoda e Léa Beatriz Teixeira Soares realizaram um estudo acerca da situação dos cursos de Terapia Ocupacional no Brasil até aquele momento e encaminharam ao CNPq. Foi mediante a realização desses estudos, da construção de relatórios sobre a situação da profissão no Brasil, que o caminho para pesquisa foi sendo aberto com esse conselho. Dessa forma, algumas pesquisas da terapia ocupacional passaram a ser financiadas (EMMEL, 2016).
Como na época a maioria dos docentes do Curso de Terapia Ocupacional da UFSCar ainda não tinha realizado mestrados e doutorados, era necessário incentivar a capacitação deles, inclusive para o trabalho com a pesquisa, ampliando o poder de barganha nos órgãos de fomento. Assim, no início dos anos de 1980, o grupo de professores decidiu priorizar a capacitação do corpo docente. Para tanto, foi instituído um sistema de rodízio em que alguns docentes saíam para realizar o mestrado, enquanto outros assumiam as obrigações didáticas e administrativas. Assim, quando o docente retornava do mestrado, o outro que tinha assumido as responsabilidades do curso realizava sua capacitação. A partir disso e com o apoio dos cursos da PUC-Campinas, USP e Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), foram sendo montados os primeiros grupos de pesquisa (EMMEL, 2016).
Em 29 de setembro de 1983, por meio da Portaria nº 400, o curso foi reconhecido pelo MEC. Em 1984, em decorrência da aprovação do currículo mínimo nacional de 1983 e da decisão da Câmara de Graduação da UFSCar, em sua 105ª reunião, realizada em 15 de dezembro de 1983, no intuito de reduzir o número de créditos dos cursos de quatro anos para 200, o currículo do curso de Terapia Ocupacional foi novamente reformulado, passando as disciplinas a serem distribuídas em quatro ciclos: Ciclo Básico das Ciências Biológicas, com 42 créditos ou 630 horas; Ciclo Básico das Ciências Humanas, com 28 créditos ou 420 horas; Ciclo Pré-Profissionalizante, com 48 créditos ou 720 horas; e Ciclo Profissionalizante, com 100 créditos ou 1.500 horas, distribuídas em dois grandes grupos de disciplinas, Terapia Ocupacional Aplicada, com 44 créditos ou 660 horas e Estágios Profissionalizantes, com 56 créditos ou 840 horas. Ainda tinham as disciplinas optativas, que correspondiam a 8 créditos ou 120 horas (UFSCar, 2007). Após essa reformulação curricular que passou a vigorar no ano de 1984, outras foram ocorrendo até chegar na estrutura curricular atual, reformulada em 2015 e implantada em 2016.