• No results found

En fare for at barna krympes

In document Kapittel 6: Manualene (sider 55-60)

Quando eu cheguei à Pedra pela primeira vez para coletar dados que serviriam para subsidiar o projeto de pesquisa, no ano de 2011, eu não conhecia ninguém que atuava ali, não entendia muito bem as minúcias de como aquele burburinho funcionava, só era possível entender que o balanceiro vendia peixe por atacado; mas aos poucos fui saindo de um estado de ânsia e me acalmando, fui lembrando da minha infância e de minhas idas com alunos de “ecologia urbana” para observar a comercialização do pescado, ainda de madrugada, na década de 1990. Eu fiquei um bom tempo sem ter acesso direto aos atores sociais do lugar, percebi a dificuldade que enfrentaria para penetrar no meu objeto de pesquisa, que é a circulação do pescado, pois ninguém permitia aproximação ou perguntas, chegando ao ponto

35 IBM SPSS Statistics (Statistical Package for the Social Sciences) é um programa computacional específico

para o tratamento de dados estatísticos e organização de bancos de dados, com aplicação direcionada para pesquisas das ciências sociais, pois permite gerar análises de correlação de variáveis com maior sistematicidade e amplitude em relação aos softwares com ambiente de planilhas de uso mais geral.

de eu ser hostilizado e até humilhado por parte de um balanceiro, num momento em que tentei aproximação através de uma conversa informal.

Eu era olhado pelos balanceiros e demais personagens sociais locais, de soslaio, com desconfiança. “Sentia-me fora de seu foco visual, era percebido num relance e certamente classificado como de fora daquele pedaço [...]” (MAGNANI, 2012, p. 206), afinal eu não era comprador e muito menos um trabalhador como eles, que sondam as pessoas que estão por perto, isso me incomodava bastante e parafraseando Malinowski (1984, p. 19), quando no início de sua pesquisa de campo nas ilhas Trobriand, “uma ideia geral e breve das atribulações de um etnógrafo, tal como eu vivi, pode lançar mais luz sobre esta questão do que qualquer longa discussão em abstrato”. Penso, assim, que essa fase inicial de rejeição e timidez é uma constante na vida de quem se arvora a fazer etnografia, mas é importante a persistência para buscar resultados, afinal num sentido amplo a etnografia “engloba as estratégias de contatos e de inserção, condições tanto para a prática como para a experiência [...]” (MAGNANI, 2012, p. 270).

Mas eu não podia perder tempo e fui procurando caminhos para adentrar no campo, primeiramente na SECON, coletei dados com um servidor de nome Luiz Carlos36, que me apresentou o Sílvio Márcio, funcionário do Departamento de Portos e Feiras da SECON, com ele coletei dados suficientes para organizar os primeiros escritos sobre o pescado. Depois, no início do ano de 2012, ainda no âmbito da SECON, fui apresentado ao Lázaro Augusto (fiscal da SECON), o qual foi de suma importância, pois ele me apresentou ao Daniel, que é o líder dos balanceiros, que por sua vez me apresentou alguns balanceiros e prometeu ajuda. Mas o Daniel, nessa época, estava muito ocupado com o movimento conflituoso em relação à possibilidade da construção de um terminal pesqueiro público37 que retiraria os trabalhadores da Pedra e não me deu mais atenção. E nem os balanceiros que ele apresentou quiseram colaborar comigo.

Após algum tempo, em junho de 2012, o Daniel me convidou para uma reunião38, iniciou assim, uma relativa abertura necessária à pesquisa, pois me apresentou outros líderes locais e reapresentou alguns balanceiros, entre os quais o Tetéo – apelido fictício - que primeiramente não me deu atenção, por meses, mas permitiu que eu acompanhasse suas

36Luiz Carlos é mais conhecido como “Lula”, que na época (2012) era diretor geral, logo em seguida foi

Secretário de Economia e era meu conhecido de outra época, quando fui diretor de um órgão da Prefeitura e ele já era da SECON.

37 Terminais Pesqueiros Públicos segundo o Art. 3o do Decreto 5.231/2004, são parte fundamental da

infraestrutura aquícola e pesqueira do País e funcionarão como entrepostos de pesca nas áreas litorâneas ou ribeirinhas, de acordo com a necessidade e o interesse público.

38 Reunião para tratar dos encaminhamentos da Audiência Pública realizada em 7de maio de 2012, sobre o

atividades como observador, pois ele “não podia parar de trabalhar para me atender”, fui paciente e insistente o bastante, até que um dia finalmente ele me ofereceu um cafezinho e aceitou conversar comigo sobre sua atividade e de seus companheiros de trabalho, na Pedra. O que demonstra a importância da comensalidade para a aceitação por atores sociais de um contexto cultural de alteridade.

Ficou claro na reunião, que tive com o Daniel e os líderes dos balanceiros, peixeiros, barqueiros e dos vendedores de peixe salgado, que eles tinham interesse que eu pudesse, como “arquiteto e professor da FAU/UFPA”, elaborar um projeto que contemplasse uma reforma da área da Pedra, adequando-a aos ditames de um terminal pesqueiro sem ferir aos parâmetros do IPHAN, quanto ao Ver-o-Peso (Patrimônio Cultural), dentro do que prevê o Decreto Federal sobre Entrepostos Pesqueiros e com o apoio da UFPA. Isso era uma demanda imediata a qual esses líderes deveriam apresentar ao Ministério Público Estadual, naquela conjuntura.

Esse fato evidenciou o quanto o observador é observado pelos nativos, mesmo quando esses aparentam ignorá-lo, de modo semelhante ao que relata Geertz, em seu texto sobre a briga de galos balinesa, o qual só percebeu que era observado pelo nativos, depois do fato de ter corrido, fugindo da polícia, juntamente com os nativos que estavam na rinha a assistir briga de galos e foi ajudado por um deles, que, em sua defesa e de sua esposa, fez a um policial, como descreveu Geertz, uma “descrição tão apaixonada de quem e do que éramos, com tanto detalhes e tão correta [...]” (GEERTZ, 2011, p. 187), o autor complementa: “[...] deixáramos de ser invisíveis” [...]. Essa condição simétrica entre pesquisador e pesquisado exige um repensar da própria prática de pesquisa, pois é necessário considerar que os nativos produzem uma interpretação própria de nosso trabalho e se relacionam conosco a partir dessa compreensão (CLIFFORD, 1998).

Tem que haver algo no pesquisador que seja do interesse do nativo, isso é uma premissa narrada por todos os grandes autores que se deve tomar como referência em etnografia. Por exemplo, no clássico trabalho de campo de Malinowski: “Os Argonautas do Pacífico Ocidental” (1984), podemos observar inúmeras situações que revelam a intensa e cotidiana “negociação” entre pesquisador e pesquisado para que a etnografia possa fluir. Neste sentido, gostaria de citar uma dessas situações descritas por esse autor, quando ele nos conta que tinha tabaco na sua mala para dispor aos seus pesquisados (MALINOWSKI, 1984, p. 19).

Os líderes das quatro principais categorias ligadas ao pescado da Pedra39, vislumbraram em mim a possibilidade de elaboração de um projeto de arquitetura que fosse adequado às suas necessidades locais e desse modo, poder cumprir ao que foi estabelecido, como encaminhamento, na audiência pública realizada na Assembleia Legislativa do Estado – ALEPA, em maio de 2012, sobre o assunto. Foi quando eu fui aceito em definitivo no campo, eu percebi naquele momento que tinha o tabaco na minha bagagem para dispor aos nativos da Pedra.

A partir de então, todos – na Pedra – sabem que eu sou professor da Universidade e que eu estou pesquisando para escrever um livro sobre a Pedra do Peixe (esse é um entendimento geral pelos que menos me conhecem). O Daniel e os meus interlocutores mais próximos se encarregaram de me apresentar aos demais atores sociais da Pedra, que me aceitaram. mas continuam, até o final dessa pesquisa, se referindo a mim como “o professor que vai escrever um livro sobre a Pedra”.

Desse modo, com mais liberdade para circular, observar diretamente as minúcias, o dia–a–dia na Pedra, comecei a entender o fato de que cada personagem tem seu papel fundamental para o funcionamento da Pedra. Observei que esses sujeitos se relacionam em grupos previamente estabelecidos, formando pequenas redes que se inter-relacionam e são interdependentes, lembrando o que Barnes (2010) denomina de redes sociais parciais.

Um barqueiro só desembarca seu pescado capturado muito distante se ele tiver um balanceiro para fazer circular o produto e esse balanceiro por sua vez tem um grupo de pessoas que trabalham com ele, na sua rede parcial. Barnes, seus seguidores e opositores, na teoria das redes sociais, têm em comum a certeza de que o modelo de uma rede social é essencial para sua análise.

Os trabalhadores da Pedra do Ver-o-Peso cumprem suas atividades regulares dentro de suas especificidades, havendo uma “divisão social do trabalho” (MARX, 2008) e desse modo surgem as categorias dos geleiros ou barqueiros, dos encarregados, dos tripulantes, dentro da qual estão as especialidades dos maquinistas, dos pescadores, do cozinheiro e do gelador, esse último – como já foi referenciado – trabalha no porão da embarcação, acondicionando o pescado no gelo e nas urnas , que são os compartimentos ou divisórias apropriados para transportar o pescado capturado, com todo o cuidado para sua conservação, todos esses sujeitos trabalham embarcados para trazerem o pescado a ser comercializado na Pedra do Peixe.

39 Balanceiros, Barqueiros, Vendedores de peixe in natura e vendedores de peixe salgado. Categorias de

Em terra estão as categorias dos balanceiros, que trabalham (cada um) com um virador; as categorias dos carregadores, dos compradores, que podem ser peixeiros do mercado de ferro, de outros mercados e feiras da cidade, dos compradores de grandes supermercados, compradores avulsos, donos de restaurantes formais e informais dentre outros. Além dessas categorias estão os vendedores avulsos de produtos diversificados como miudezas em geral, sacolas, caixas de papelão, cafezinho, mingau, prestadores de serviços como manicure, de apostas de jogo do bicho e de loteria. Estão também, na Pedra, os agentes do poder público como fiscais, os policiais, dentre outros.

São sujeitos que de algum modo estão em posições estratégicas dentro das categorias diversas para fazer circular o pescado em Belém do Pará e outras localidades a partir da Pedra do Peixe, a qual faz parte do Complexo do Ver-o-Peso e marca a cidade como um grande centro de entreposto pesqueiro no âmbito do Estado e do País.

Essa tese demonstra que mesmo sem se darem conta do alcance do seu papel na circulação do pescado em Belém, esses atores sociais fazem parte de grupos, os quais se encaixam nas características que autores – abordados adiante – apresentam como redes sociais e que esse modo de operar tais atividades, fazendo com que a cadeia do pescado se reproduza ao longo do tempo, envolve gerações que sucederam outras gerações dentro dos mesmos moldes iniciados em algum tempo próximo da gênese da cidade de Belém e tendo como centro de recepção e de distribuição esse mesmo local onde hoje está fixa a Pedra do Peixe com esse mesmo uso.

In document Kapittel 6: Manualene (sider 55-60)