4 INSTITUSJONELLE VIRKEMIDLER I KAMPEN OM RÅSTOFF
4.1 Fangstrettigheter og leveringsbetingelser
A cosmologia herdada até a entrada da Modernidade era a da autoridade tradicional45, na qual os astros eram dominados por forças superiores. As mudanças de concepções trouxeram um esvaziamento da influência da sacralidade, ou seja, os bens simbólicos tradicionais são revistos e reelaborados com um novo estilo de vida. Essa alteração foi fruto do desenvolvimento da humanidade, que rompeu com o passado e desempenhou um envolvimento maior com a Modernidade, isto é, no processo moderno a
44 Cf. Idem.
Projeto de ética mundial: uma moral ecumênica em vista da sobrevivência humana.
São Paulo, Paulinas, 1993. p. 165-166.
45 Jung Mo Sung faz uma análise no processo de mudança da sociedade tradicional para a sociedade moderna, na qual mostra que nas sociedades tradicionais, a religião detinha o poder de fornecer à maioria da humanidade uma visão e explicação do universo, sendo sua estrutura social baseada no modelo hierarquicamente divino, ou seja, o céu confere a Terra seu modelo e autoridade, sendo essa hierarquia aplicada integralmente na Terra pela Igreja. Por ser um modelo divino, não podia ser questionado, devendo apenas ser aceito e obedecido. O clero, aliado às monarquias vigentes, legitimava sua autoridade através de uma leitura da ordem e subordinação dos poderes celestes. Olhavam para os céus e para as escrituras sagradas, observavam como funcionava a relação de poderes divinos e angelicais e traduziam para os habitantes da Terra o modelo a ser reproduzido. A graduação de autoridade: Deus e o Filho- anjos-homens o modelo escolhido por Deus para governo humano. Rei-clero e nobres-plebe. Assim, essa imagem central do mundo legitimava com eficácia o poder estabelecido. Portanto, perplexos e angustiados pelas indagações que faziam à vida, os homens voltavam-se para a religião buscando respostas. Cf.; SUNG, Jung Mo. Teologia e economia. p. 151-211.
progressiva autonomia constituiu o núcleo mais determinante nos distintos estratos ou âmbitos da realidade. A revolução tecnológica, a industrialização e a urbanização mudaram radicalmente a organização do pensamento humano. Segundo Alain Touraine, a Modernidade proporcionou a derrubada das convenções, dos costumes e das crenças, a saída dos particularismos e a entrada no universalismo, ou ainda a saída do estado natural e a entrada na idade da razão46. Concretizou-se o aumento de racionalidade no plano da
produção econômica, cultural e de lazer. A tecnologia aplicada ao trabalho reduziu o impacto da experiência religiosa a partir dos elementos essenciais de procura de religião: a contingência do homem, sua impotência, privações e frustrações.
Mas é impossível atribuir à razão significado único no decorrer da Modernidade. Ela está presente em todos os períodos e em diversas experiências históricas como força motriz das mudanças. Um dos traços marcantes, presente nas propostas iniciais do período moderno, é o rompimento com o passado e o mundo simbólico da tradição. A razão produz compromisso com o futuro. A constituição do significado da razão inclui o processo de secularização que traz consigo a possibilidade de absolutização e que se refere à característica instrumental.
Do ponto de vista teórico, o conhecimento da natureza própria da razão e sua multiplicação em diferentes formas de racionalidade é uma questão que se situa no âmbito da filosofia. Implica o aparecimento da razão filosófica como paradigma das diversas formas de vida moderna e deflagradora da história. A
46 Cf. TOURAINE, Alain.
característica que lhe confere feição e dinamismo original é natureza de seu sujeito e de seu método cartesiano-galileano que, segundo Lima Vaz,
estabelece regras que permitam construção do modelo matemático mais adequado para a explicação dos fenômenos da natureza pela descoberta das leis de seu funcionamento. A razão moderna define-se, desde o início, como um conhecimento que procede por hipóteses e deduções e por verificação experimental.47
Surge, a partir daí, a ciência empírica que opera o conhecimento de modo metódico na construção de seu próprio objeto e estabelece a correspondência entre sujeito e os objetos. Nesta correspondência reside o espaço próprio do exercício da racionalidade. A natureza passa a ser a matéria do conhecimento e da ação humana. Elaborado em uma perspectiva cosmocêntrica na qual o ser humano é parte do todo, o saber racional moderno destaca a consciência, da totalidade; surge a separação entre sujeito e o objeto. No espaço entre ambos é que se desenvolve a nova forma de saber racional, estabelecido na subjetividade como lugar determinante do sentido da totalidade. Deste modo, o saber racional será o ato através do qual a subjetividade se impõe sobre o mundo dos objetos, buscando a possibilidade de domínio sobre eles.
O traço fundamental do pensamento moderno é o do sujeito que, amparado nos paradigmas cognoscitivos de Descartes – eu cogitante – e posteriormente, de Kant – eu transcendental – produz, elabora a subjetividade
47 VAZ, Henrique C. Lima.
Ética e razão moderna. Ver. Síntese N. Fase BH, 1995, vol.22 n° 68,
e a ela circunscreve toda a realidade. A razão tem por objetivo oferecer informações que possibilitem ao homem instrumentalizar-se para ampliar seu domínio e controle da natureza, sociedade e história. O conhecimento encontra-se marcado pelo interesse técnico da manipulação e que foi experimentada, em primeira instância, no âmbito das ciências da natureza. A transformação que a Modernidade realiza no horizonte do pensamento tem, em grande parte, seu fundamento na definição da perspectiva antropocêntrica. Este fato determina que o centro de significação de toda realidade não se situa em algo exterior à consciência, na qual a cultura moderna tem no sujeito sua substância primeira:
A Modernidade triunfa com a ciência, mas também desde que as condutas humanas são reguladas pela consciência, seja esta ou não chamada de alma, e não mais pela busca da conformidade à ordem do mundo. [...] O mundo moderno é, cada vez mais ocupado pela referência a um Sujeito que está libertado, isto é, que coloca como princípio do bem o controle que o indivíduo exerce sobre suas ações e sua situação que lhe permite conceber e sentir seus comportamentos como componentes da sua história pessoal de vida, conceber a si mesmo como autor. O Sujeito é a vontade de um indivíduo de agir e de ser reconhecido como ator48.
O homem manifesta-se como sujeito de seu conhecimento e ação, estabelecendo limites e significações e mantendo a garantia de unidade do universo simbólico. A subjetividade é a fonte de sentido para tudo. O racionalismo estabelece novos preceitos de valores universais para a
48 TOURAINE. Alain.
humanidade. O mundo moderno substituiu a noção de Deus como sujeito da história pela noção de ser humano como sujeito da história. A Modernidade usurpa de Deus a imagem do sujeito e a transfere ao ser humano. Neste sentido, Alain Touraine diz que,
ao entrar na Modernidade, a religião explode, mas seus componentes não desaparecem. O Sujeito, cessando de ser divino ou de ser definido como a Razão, torna-se humano, pessoal, torna-se uma certa relação do indivíduo ou do grupo a eles mesmos [...] o sujeito da Modernidade outro não é que o descendente secularizado do sujeito da religião49.
Com esta profunda transformação, uma autêntica revolução antropológica, a história passa a ser vista como um objeto na relação com o ser humano. Na construção do conceito de sujeito da história ocorre, ao mesmo tempo, a construção do conceito de história como objeto a ser construído pelo sujeito-humano. Antes da Modernidade, na configuração do cristianismo pré- moderno predominava a noção do destino determinado por Deus. Com a Modernidade nasce um mundo novo, e não só do ponto de vista religioso, mas também a novidade: a percepção da história como sendo construída por sujeitos humanos.
Na construção da história pelo sujeito humano moderno, a razão tem um papel central. O indivíduo se torna sujeito na medida em que cria um mundo regido por leis racionais e inteligíveis para o pensamento humano. E esta criação de um mundo racional vista como realizações conduzem o homem a um novo mundo. Estes avanços se tornaram uma ameaça para as estruturas
49 Ibid. p. 324 e 225.
da Igreja. Provocando uma reação dos contra-modernos diante da subjetividade do homem e das liberdades individuais, colocando na autoridade divina a segurança de sua fé.
A instituição eclesiástica entra em crise e as relações religiosas tornam- se crescentemente privadas e segmentadas devido ao pluralismo, ao relativismo das idéias e das concepções funcionais. O quadro de referência religioso perde a sua influência social global e a Igreja funciona através da segmentação da própria instituição. Além disso, a ciência estabelece horizontes críticos e relativiza os valores a partir de uma filosofia básica da vida. A ciência que tem por função deslegitimar toda forma de obscurantismo e superstições exige da religião que organize um novo sistema de legitimação.
O surgir da Modernidade, mostrou à Igreja que seu maior inimigo não estava nas armas da força. Desse tipo de adversário a Igreja tinha longa experiência e soubera sempre sair ainda mais végeta e nova. Mas apareceu- lhe como maior ameaça a sua integridade, a sua existência, um inimigo maior. Vestira-se de princípios, de valores, de cosmovisões que lhe questionavam em profundidade seu modo de crer, pensar, agir, organizar-se. E essa novidade exercia força de atração e sedução nos seus próprios crentes, pois a filosofia moderna deixava de lado as preocupações com o problema fundamental de Deus e centrava-se no sujeito humano. Na realidade, a crise mais grave da história do cristianismo e da Igreja Católica, foi à descoberta de que o sujeito entra sempre e necessariamente na constituição de todo objeto, foi o deslocamento da questão da existência de Deus para as verdades indemonstráveis. O conteúdo da fé cristã se tornava cada vez mais implausível.
Os princípios da Modernidade avançavam céleres através da gigantesca Revolução Francesa que deixou uma Igreja poderosa alijada do poder e também da elaboração teórica dos ideólogos e filósofos que configuravam o pensamento do Ocidente, possibilitando um mundo completamente secularizado.