4. SOCIAL RELATIONS OF POVERTY
4.3 Family and Household Dynamics
Foi Jung quem criou o termo complexo, introduzindo pela primeira vez a noção de “complexo de acento emocional” para tratar dos fenômenos que ele chamou de “agrupamentos de idéias de acento emocional inconsciente”, posteriormente denominado apenas complexo. (Jacobi, 1957). Essa descoberta se deve ao experimento de associação de palavras desenvolvido por Jung , quando iniciava sua carreira como psiquiatra. Sua observação dizia respeito à existência de núcleos associativos de conteúdos, com alta carga emocional, que quando acionados produziam uma perturbação na consciência. Assim, as perturbações eram os indicativos da existência do complexo.
Segundo Silveira (1981) podemos definir complexos como sendo:
agrupamentos de conteúdos psíquicos carregados de afetividade. [...] São compostos por um núcleo possuidor de intensa carga afetiva e também pelas associações com outros elementos cuja coesão é mantida pelo afeto comum de seus elementos. Formam-se assim verdadeiras unidades vivas, capazes de existência autônoma. (SILVEIRA, 1981, p.35).
Quando atualizados, isto é, quando entram em ação na psique do indivíduo, os complexos tornam-se capazes de fazer até oposição ao ego consciente, comportando-se como um estranho.
Segundo Whitmont (1994), Jung via dois aspectos relacionados ao complexo. O primeiro deles é conhecido como a “casca” do complexo; e o segundo é o núcleo dele. Na casca estão as associações geradas, em parte, pelas disposições da pessoa e, em parte, pelas vivências ambientais. Ao núcleo estão relacionados os conteúdos mais primitivos, os arquétipos. Este núcleo é o possuidor do significado, e como todo conteúdo arquetípico, é inconsciente.
Para Jung (1988b, § 179, p.75), “o complexo é que nos tem”. Esta sua conhecida frase refere-se à autonomia que os complexos possuem em nossa psique. Sendo assim, a compreensão puramente racional do complexo é ineficaz, porque não promoverá a transformação psíquica.
Existem várias maneiras de o indivíduo reagir diante de um complexo. Jacobi (1957) destaca quatro possibilidades de comportamento que se pode ter diante do complexo: a total inconsciência, a identificação, a projeção ou a confrontação, sendo que esta é a única que pode levar à dissolução do complexo. Então, quando localizamos um complexo, na verdade, estamos localizando a existência de um conflito não assimilado pela consciência.
Ter complexo [...] quer dizer apenas que existe algo incompatível, não assimilado, conflitante ou talvez algum impedimento, mas também um estímulo para esforços maiores e, dessa forma, talvez até uma nova oportunidade para o sucesso. (JACOBI, 1957, p.29)
Consideramos que a assimilação do complexo não ocorre de forma simples, pois a conscientização não é total, uma vez que , quando um complexo se torna consciente, o que temos, na verdade, é uma parte dele que estava constelada. Assim sendo haverá partes inconscientes no processo de assimilação do complexo.
Uma das maneiras que temos para nos relacionarmos com o complexo é por meio da projeção. A projeção, na visão de Jung, não é apenas vista como um
mecanismo de defesa, mas o caminho pelo qual o comple xo pode chegar à consciência.
Whitmont (1994, p.54), acrescenta que a maneira como Jung faz uso do termo não é vista como uma manobra deliberadamente defensiva, mas como um estado original que permite que um complexo inconsciente possa chegar à consciência. Para que a projeção aconteça, ela precisa de um “gancho” onde se “pendurar”. Isto quer dizer que os conteúdos projetados são “colocados” no outro, mas este também tem que ter algo que permita que esta projeção ocorra. “O portador da projeção e o conteúdo projetado devem, é evidente, ter uma correspondência intrínseca.” (Whitmont, 1994, p.57).
O que caracteriza a presença de um conteúdo projetado é a carga emocional que se apresenta em uma determinada situação. “A experiência mostra que o portador da projeção não é um objeto qualquer, mas sempre se ajusta à natureza do conteúdo a ser projetado, isto é, oferece “gancho” adequado à coisa a ser pendurada.” (Jung ,1988b,§ 499, p.276).
Existe uma dinâmica psíquica que descreve o que acontece quando um complexo é ativado. Nas palavras de Stein, a seguir:
Na regressão, por outro lado, o fluxo de energia reingressa no sistema psíquico e fica inacessível para a adaptação. Quando as polaridades se fragmentam, desenvolve-se uma espécie severa de ambivalência que paralisa a vida. [...] Quando a energia não é consumida num processo de adaptação ao mundo nem está se movimentando de forma progressiva, ela ativa os complexos e eleva o potencial energético destes no mesmo grau em que o ego perde energia ao seu dispor. [...] A energia não desaparece do sistema; antes, ela desaparece da consciência. E isso resulta, tipicamente, em estados de depressão, conflito interior, ambivalência incapacitadora, incerteza, dúvida, questionamento e perda de motivação. (STEIN, 2001, p.76/77)
O complexo, ao ser ativado, e a energia fluindo para o inconsciente carregam energeticamente ainda mais o complexo. Para se tornarem menos autônomos, os complexos precisam se tornar conscientes, permitindo assim que ocorra uma redistribuição de energia psíquica.
Kast (1997) apresenta uma compreensão peculiar sobre os complexos. Considera que estes podem ser positivos ou negativos para uma pessoa, dependendo da maneira como ela se relaciona com eles. Para Kast (1997), é importante ocorrer uma diferenciação dos complexos materno e paterno na juventude, para que a pessoa possa se relacionar com as tarefas de cada etapa do
desenvolvimento psíquico, perceber as exigências da vida e saber lidar com as dificuldades de cada uma.
Essa autora faz uma diferenciação na forma de manifestação do complexo na vida do indivíduo.
Quando falo de complexos originalmente positivos, quero dizer que esses complexos tiveram originalmente uma influência positiva sobre o sentimento de vida e, assim, sobre o desenvolvimento da identidade da pessoa em questão e continuariam a tê-lo se ocorresse um desligamento adequado à idade. (KAST, 1997, p.13)
Conforme esta concepção, podemos encontrar o complexo materno originalmente positivo na mulher e originalmente positivo no homem, o complexo materno originalmente negativo na mulher e originalmente negativo no homem. Também temos, assim, o complexo paterno originalmente positivo na mulher e no homem, e o inverso, o complexo paterno originalmente negativo na mulher e no homem. Aqui daremos ênfase apenas ao complexo paterno relacionado à filha, em seus aspectos mais marcantes.
O complexo paterno, segundo Kast (1997), manifesta-se na relação com homens e com tudo aquilo que é considerado masculino em uma determinada cultura. Faria complementa (2003):
[...] o complexo paterno se estrutura na relação com o pai pessoal ou substituto entremeada de elementos da fantasia provenientes do arquétipo paterno. Assim, se esta relação com o pai pessoal for próxima e calorosa, na maioria das vezes constelará a figura do Pai Bom; caso contrário, se essa relação for povoada pela ausência do pai ou por seu caráter autoritário, a figura do Pai Terrível poderá ser constelada.(FARIA, 2003, p. 102)
O complexo paterno originalmente positivo nas mulheres apresenta um pai idealizado e uma relação com a mãe em segundo plano. Assim, uma das características da filha é procurar satisfazer convenções e papéis convencionais, agindo da forma padronizada. A mulher passa a adaptar-se ao mundo, atuando cooperativamente, sempre que estiver diante de figuras masculinas ou de valores masculinos.
Kast (1997) destaca que essas mulheres, quando “distanciadas” da atuação do complexo paterno, conseguem ser independentes e inovadoras. Mas, quando não o fazem, o sentimento de auto-estima fica associado diretamente à admiração dos homens. Como conseqüência, começam a apresentar medo diante da vida e diante da tomada de decisões, fato decorrente de terem sido poupadas de
assumir responsabilidades sobre si mesmas e de arcar com as conseqüências das atitudes tomadas. Como os homens ficam idealizados, as mulheres movidas por um complexo paterno originalmente positivo tornam-se mais dependentes do que realmente necessitam ser, quando diante de figuras masculinas. Kast (1997) acrescenta que essas mulheres se portam como “filhas atenciosas”, quando diante de homens.
Para Kast, é possível ocorrer um desligamento do complexo, que é o que considera ser o passo referente à diferenciação do ego em relação ao complexo. Quando a mulher não consegue se desligar de seu complexo paterno originalmente positivo, sua identidade fica dependente da visão que os homens têm sobre ela mesma.
Acreditamos, para a compreensão deste estudo, que é possível acontecer uma diferenciação do complexo para ocorrer o desenvolvimento psíquico. Apesar de a compreensão de Kast ficar próxima desta que estamos aqui apresentando, consideramos o uso do termo diferenciação mais apropriado para descrever a relação entre ego e complexo.
No complexo paterno originalmente negativo, as mulheres buscam mostrar-se à altura das exigências paternas, mas apresentam uma crítica muito acentuada perante todas as atitudes que tomam diante da vida. “Ela tenta desesperadamente se mostrar à altura dessas exigências, com a profunda convicção de que nunca conseguirá isso e com a desatinada esperança de talvez conseguir.” (Kast,1997, p.196).
As mulheres tomadas por este complexo vivem a experiência de terem sido violentadas no desenvolvimento do feminino. As leis do pai têm grande valor e as leis vitais da filha ficam em segundo plano. Assim, o sentimento fortemente reconhecido é o da sua desvalorização como mulher e pessoa, de descrença em si mesma.
Kast (1997) destaca que sua maneira de apresentar as características dos complexos são marcadas pela unilateralidade. A autora procura salientar que tais aspectos dificilmente são encontrados de forma pura nas mulheres, mas que, em certos momentos na vida, os complexos podem ser constelados de maneira mais acentuada.
Assim, a saída para se resolver esta relação com os complexos, segundo Kast (1997), está na percepção de si mesmo e na percepção das
polaridades do complexo. A partir desta conscientização, a busca pelo próprio caminho se faz pelo constante questionamento das atitudes habituais, que são comuns na manifestação de nossos complexos. Assim,
[...] toda marca de complexo traz no bojo seus problemas e suas possibilidades de vida e que o complexo do eu deve estar sempre se libertando de toda marca do complexo, o que sempre corresponde a passos de novas separações e novos vínculos que devem ser assumidos. (KAST, 1997, p.207)
Consideramos que os complexos são agrupamentos de idéias, com alta carga emocional, que estão presentes na psique de todos os indivíduos. Eles podem entrar em ação na psique sem a intenção do ego, reforçando autonomia sobre o indivíduo. Compartilhamos em parte com a idéia de Kast. Acreditamos que o complexo possa ter aspectos positivos ou negativos, já que tem em seu núcleo um arquétipo e este possui tais polaridades. Não adotaremos aqui, para fins de análise nesta pesquisa, o ponto de vista da autora sobre o desligamento dos complexos. Acreditamos que seja possível uma diferenciação do ego em relação ao complexo, como já afirmamos. Essa diferenciação irá permitir que a mulher, foco deste estudo, consiga se relacionar com aspectos referentes à normatização, à uniformização, à organização e à discriminação, pertencentes ao arquétipo do Pai, de maneira amadurecida e diferenciada. Ou seja, é possível buscar o próprio caminho, desvinculando-o da imagem e das atitudes do pai.
O animus, que será posteriormente discutido, também se encontra vinculado inicialmente ao complexo paterno.
A relação entre complexo paterno, animus e a mulher será discutida posteriormente.