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2.8. Faktor forhold og reguleringer
Antes de iniciarmos as etapas da análise propriamente dita, é imprescindível que esclareçamos o seguinte: sempre que nos referirmos à obra ou às obras de arte, estaremos fazendo referência, na verdade, ao texto da obra. Ou seja, ao conjunto de elementos plásticos, icônicos e linguísticos que, juntos, permitem realizar uma construção de sentido a partir do que visualizamos nas obras. Assim, para evitar a repetição exaustiva do termo “texto da obra”, utilizaremos apenas as palavras “obra” ou “imagem”, porque elas são o próprio texto não verbal, de acordo com o conceito de texto que adotamos nesta tese.
Ainda convém lembrar que o “nosso” texto, o conjunto das obras, é predominantemente imagético. Portanto, constituído, quase exclusivamente, de elementos não verbais. Considerando apenas o cotexto das obras, podemos afirmar que o linguístico, na maioria das vezes, restringe-se aos títulos delas. Mas, se considerarmos o conceito de texto como evento, conforme já explicitado na seção da fundamentação teórica35, veremos que, para construirmos sentidos nas leituras das obras em estudo, necessitamos de um contexto muito mais abrangente, no qual o linguístico se materializa, não só por meio dos títulos, mas também por meio das referências ao texto bíblico e, ainda, por meio de resgates da linguagem social. Ou seja, é o linguístico do texto bíblico que serve de suporte para a construção de sentido das obras. Em outras palavras, podemos afirmar que o conteúdo linguístico do texto fundador/verbal está representado nas formas imagéticas das obras.
Sigamos recordando o passo a passo proposto na metodologia acrescido de alguns informes que adotamos para a análise. Conforme já informado, a ordem de apresentação das obras definida para a análise obedeceu, predominantemente, a uma sequência cronológica dos acontecimentos. Já que o texto fonte é o texto bíblico e, neste, os acontecimentos são apresentados segundo uma hierarquia temporal, optamos por respeitar esta hierarquia dos acontecimentos bíblicos. Entretanto, convém esclarecer que, como nem todas as obras referem-se a fatos, mas também a personagens ou paisagens (obras descritivas de determinados locais que são cenários bíblicos), seguimos, de modo geral, a hierarquia dos acontecimentos da mitologia cristã e, em cada momento, destacamos outros detalhes relativos a personagens que protagonizam as cenas enfocadas, a partir do que nos foi possível conseguir, por meio da amostragem não probabilística, nas retratações nas pinturas e esculturas que constituem o corpus.
Também é imprescindível esclarecer, para um melhor acompanhamento da análise, o uso dos termos genettianos: hipotexto e hipertexto36. Como trabalhamos com pares de obras, consideraremos hipotexto a primeira obra. A palavra “primeira”, neste contexto, considerando cada par de obras, cada exemplo de PIH, diz respeito à primeira obra apresentada sobre determinado tema. Consequentemente, o hipertexto será a segunda obra. Entretanto, quando tratarmos da relação entre estes pares de obras e o texto bíblico-fundador, este será considerado hipotexto, enquanto aquele passará a ser hipertexto em relação a ele.
35 Cf. seção 2.1, na página 28.
Antes de apresentarmos o primeiro exemplo da análise, retomamos, de forma sucinta, o que disse Genette (2010) acerca das ocorrências de PIH. Embora isso já tenha sido exposto na primeira seção desta tese, fazemos a retomada apenas para ajudar o leitor no resgate da informação, que já ficou distante. Antes de fazê-lo, transcrevemos aqui uma advertência do próprio Genette (2010, p. 37) com relação à dificuldade percebida por ele no que diz respeito à proposta de reforma taxinômica à qual ele se propõe e sobre a qual nos debruçamos no intuito de revisá-la:
Ao propor uma reforma taxinômica e terminológica, não nutro muitas ilusões sobre o destino que a aguarda: como a experiência muitas vezes demonstrou, se nada é mais fácil do que introduzir no uso um neologismo, nada é mais difícil que extirpar um termo ou uma acepção aceitos, um hábito adquirido.
Essas palavras de Genette (2010) deixam clara a dimensão da dificuldade da tarefa que ora resolvemos assumir. Mesmo assim, conscientes desta dificuldade, seguimos no intuito de darmos continuidade ao estudo que ele iniciou. Esclarecemos ainda que não temos a intenção de extirpar nenhum termo no que diz respeito às categorias das PIH, mas sim acrescentar dois outros, conforme já exposto na seção 3: austerismo e transfiguração.
Ao tratar das práticas transposicionais, entre as quais se encontra o nosso objeto de estudo, as PIH, Genette (2010, p. 62) classifica estas transposições em dois grandes grupos: as transposições em princípio (e em intenção) puramente formais e as transposições aberta e deliberadamente temáticas, entretanto, mesmo admitindo as duas categorias, ele adverte que não se trata de uma dicotomia. Muitas vezes, a princípio, a transposição se inicia com mera intenção formal e pode vir a se tornar temática, ou já se iniciar com uma deliberação temática explícita que já faça parte do propósito. Em outras palavras: estas transposições podem ocorrer juntas ou separadas. Embora os exemplos que constituem o corpus desta tese sejam, predominantemente, casos de transposições temáticas, a observação na seguinte citação sobre as transposições temáticas e formais é de grande valia para lembrarmos que estas transformações não ocorrem isoladamente, ou seja, só na forma ou só no conteúdo. Sobre esta questão, Genette (2010, p. 62) nos diz:
Não se trata, portanto, aqui, de uma classificação das práticas transposicionais, nas quais cada indivíduo, como nas taxonomias das ciências naturais, viria necessariamente se inscrever num grupo e em apenas um, mas, sobretudo, trata-se de um inventário de seus principais procedimentos elementares, que cada obra combina à sua maneira, e que eu tentarei simplesmente dispor no que me parece ser uma ordem de importância crescente, ordem que procede apenas da minha apreciação pessoal, e que cada um tem o direito de contestar – e a possibilidade de
inverter, pelo menos mentalmente. Disponho, pois, estas práticas elementares em uma ordem crescente de intervenção sobre o sentido do hipotexto transformado, ou, mais exatamente, em uma ordem crescente do caráter manifesto e assumido desta intervenção, distinguindo deste modo duas categorias fundamentais: as transposições em princípio (e em intenção) puramente formais, que só atingem o sentido por acidente ou por uma consequência perversa e não buscada, como ocorre na tradução (que é uma transposição linguística), e as transposições aberta e deliberadamente temáticas, nas quais a transformação do sentido, manifestada e até oficialmente, faz parte do propósito: é o caso, já mencionado, de Sexta-feira. No interior de cada uma dessas duas categorias, cuidei de avançar ainda segundo o mesmo princípio, apesar de que os últimos tipos de transposição “formal” já estarão muito fortemente, e nem sempre forçadamente, engajados no trabalho do (sobre o) sentido, e a fronteira que os separa das transposições “temáticas” parecerá bem frágil, ou porosa.
Ao exemplificar os casos de PIH, Genette (2010) apontou quatro tipos de relações intertextuais nas ocorrências de práticas hiperestéticas que analisou: a transposição, a paródia, o travestimento, o pastiche e a imitação (direta e indireta). Para que bem se entenda o sentido que ele atribui a cada uma destas categorias, convém retomarmos alguns informes muito importantes para a correta orientação desta análise.
Em primeiro lugar, tomemos os conceitos de paródia e de travestimento, para defini-los e distingui-los segundo a concepção genettiana. Iniciemos por recordar que, para Genette (2010, p. 37), a paródia consiste em “um desvio do texto original por uma transformação mínima”. E esta transformação, segundo o autor, na maioria das vezes, expressa intenção lúdica. O travestimento, por sua vez, implica na “transformação de um texto com função degradante” (GENETTE, 2010, p. 37). Comparando as duas ocorrências, Genette (2010, p. 38-39) apresenta a paródia como transformação semântica e o travestimento como transposição estilística:
Essa distinção repousa evidentemente sobre um critério funcional, que é, ainda, a oposição entre satírico e não satírico; a primeira pode ser motivada por um critério puramente formal, que é a diferença entre uma transformação semântica (paródia) e uma transposição estilística (travestimento), mas ela comporta também um aspecto funcional, pois é inegável que o travestimento é mais satírico, ou mais agressivo, em relação a seu hipotexto que a paródia, que não o toma exatamente como objeto de um tratamento estilístico comprometedor, mas apenas como modelo ou padrão para a construção de um novo texto que, uma vez produzido, não lhe diz mais respeito.
Além da paródia e do travestimento, Genette (2010) também analisa, em seus exemplos, ocorrências de pastiche e imitação. O pastiche, segundo ele, é a imitação de um texto desprovida de função satírica (2010, p. 20). Enquanto a imitação é a retomada direta de uma obra, sem alterações significativas no hipotexto e, segundo ele, pode ocorrer de duas
maneiras: de forma direta, feita pelo próprio artista, pelo seu ateliê ou por outros artistas; ou de forma indireta, “imitação à maneira de um mestre” que, muitas vezes, tende à falsificação.
Retomemos, brevemente, em forma de quadro-resumo, para facilitar a análise, os principais conceitos das categorias definidas por Genette (2010) para a PIH a partir das obras analisadas por ele. No Quadro 10 abaixo, apresentamos apenas as três categorias que compõem o quadro das transformações: a transposição, a paródia e o travestimento, porque é com estas que trabalharemos na nossa análise. Dessa forma, excluímos as três categorias da imitação: o pastiche, a charge e a forjação, uma vez que, no corpus desta tese, não identificamos nenhuma dessas três ocorrências.
Quadro 10 – Definições das categorias intertextuais para as PIH segundo Genette, 2010
CATEGORIAS CONCEITOS
Transposição Transformação que implica em uma recriação que mantém o conteúdo da obra original, sem intenção crítica, lúdica ou satírica. Apenas o tema é transposto do hipotexto para o hipertexto. Não ocorre transformação semântica, nem estilística.
Paródia Transformação de um texto por desvio mínimo, com intenção lúdica, não satírica. Na paródia, não ocorre alteração de estilo, e a maioria dos elementos constitutivos da obra original é mantida. É uma transformação semântica.
Travestimento Transformação que implica em uma recriação, cujo objetivo é um texto com função degradante. Trata-se de uma transformação com teor depreciativo. É uma transposição de intenção satírica e uma transformação estilística.
Fonte: Elaborado pela autora (2015).
Às estas três categorias, foram acrescentadas as outras duas que sugerimos para compor o quadro reformulado das categorias para as PIH. Desse modo, o novo quadro das categorias fica reconstituído da seguinte maneira:
Quadro 11 – Definições das categorias intertextuais para as PIH segundo a autora
Categorias Conceitos
Transposição Transformação que implica em uma recriação que mantém o conteúdo da obra original, sem intenção crítica, lúdica ou satírica. Apenas o tema é transposto do hipotexto para o hipertexto. Não ocorre transformação semântica, nem estilística.
Paródia Transformação de um texto por desvio mínimo, com intenção lúdica, não satírica. Na paródia, não ocorre alteração de estilo, e a maioria dos elementos constitutivos da obra original é mantida. É uma transformação semântica.
Travestimento Transformação que implica em uma recriação cujo objetivo é um texto com função degradante. Trata-se de uma transformação com teor depreciativo. É uma transposição de intenção satírica e uma transformação estilística.
Austerismo Transformação séria de conteúdo crítico-reflexivo na qual não ocorre mudança de estilo do hipotexto para o hipertexto. Esta categoria aproxima-se da paródia, mas não pode ser considerada como tal por lhe faltar o componente lúdico.
Transfiguração
Transformação estilística séria de conteúdo crítico-reflexivo na qual ocorre mudança de estilo do hipotexto para o hipertexto. Esta categoria aproxima-se do travestimento, mas não pode ser considerada como tal por lhe faltar o componente satírico.
É este, em síntese, o conjunto das ocorrências de práticas hiperestéticas apresentadas por Genette (2010) e reformuladas por nós. Em seguida, apresentamos os autores e o contexto histórico nos quais eles estão inseridos.