Os primeiros passos para o desenvolvimento do conceito de eco aldeia foram dados em 1987 com a fundação da organização Gaia Trust, que viria a ser a impulsionadora da Rede Global de eco aldeias (GEN). A expressão eco aldeia surgiu pela primeira vez em 1991, num relatório comissionado pela Gaia Trust a Diane e Robert Gilman e que viria a intitular-se de eco aldeias e Comunidades Sustentáveis. É precisamente neste relatório que se faz a primeira definição de eco aldeia que, curiosamente, continua ainda a ser usada pelo mundo fora.
De forma sucinta, as eco aldeias são pequenas comunidades formadas voluntariamente por grupos de pessoas que desejam levar a cabo um modo de vida mais sustentável. Para tal é
necessário que a envolvente e as infraestruturas permitam a implementação desta ideologia, tendo em conta as práticas mais relevantes que lhe são associadas. Entre elas, a organização da estrutura social e a abordagem ao tema da sustentabilidade na construção do espaço habitado. O conhecimento das práticas mais relevantes na dimensão social e na dimensão construtiva permite desenvolver uma
aldeia que sirva de modelo para um futuro mais sustentável, onde seja estabelecida uma ligação
entre o edificado, o ambiente e a saúde dos habitantes. Estas diretrizes passam pela conjugação das questões sociais com as questões ecológicas e arquitetónicas.
É de salientar que não está implícito nas eco aldeias o dever de serem completamente
autossuficientes ou isoladas do seu meio circundante, muito pelo contrário. Uma eco aldeia é um microcosmos, em pequena escala, de uma sociedade mais alargada mas, ao contrário desta, revela preocupações com a integração no território. Entre estas preocupações consideram-se as características geomorfológicas (solo, vegetação e água) e o respeito pela biodiversidade dos locais.
Considerando as dimensões de uma eco aldeia estas são consideradas pequenas (quando comparada com os meios urbanos), aspeto desejável para o reforço das ligações de proximidade entre os seus habitantes, este facto não impede a diversidade.
Princípios básicos como habitação, trabalho, relações sociais, lazer, criatividade e liberdade de crenças, deverão ser possíveis num local como este. A ideia de comunidade está sempre presente, pelo que nestes assentamentos se investe em atividades comuns como festivais, reuniões, celebrações, concertos, desportos, caminhadas e outros eventos sociais.
Os múltiplos exemplos de eco aldeias que cumprem na íntegra a sua função são um excelente modelo base no que respeita à organização do espaço social, tendo como princípio os novos paradigmas da vida comunitária e da sustentabilidade. Esta nova estrutura social deverá ser refletida nos instrumentos de gestão territorial, nomeadamente à escala do desenho urbano. É precisamente este o objetivo do projeto a apresentar no capítulo V, pois esta prática considera-se bastante inovadora não sendo ainda comum no planeamento urbanístico. Trata-se de um planeamento urbano que considera as relações comunitárias projetando espaços que as tornem mais coesas. O tema da sustentabilidade deverá refletir-se nos princípios base do projecto, seja na aplicação dos princípios da arquitetura bioclimática ou na escolha de materiais e técnicas construtivas. É também este o objetivo do projeto de arquitetura da unidade de turismo desenvolvido no Capítulo V.
Em suma, as eco aldeias têm como denominador comum o objetivo de proporcionar um estilo de vida em harmonia com a natureza, entre os seus membros. Como tal, pretende-se que o projeto de reabilitação urbana a ser desenvolvido respeite e evidencie essa relação Homem-Natureza, tornando-se então necessário perceber o que significa ecologia, sustentabilidade e permacultura e em que medida é que esses conceitos se aplicam à arquitetura. É ainda extremamente relevante perceber qual a
importância da água quer para a sustentabilidade, quer para a arquitetura, uma vez que o estudo de
caso “Cabeço Monteiro” é particularmente sensível nesta matéria. Este aglomerado teve a sua origem associada à construção da barragem, pelo que se pretende manter viva esta memória. Por outro lado o desenvolvimento destes conceitos vai permitir que perceber o modo como se relaciona o Homem no espaço construído e o meio ambiente (não construído). Consequentemente sugere que há um ideal de igualdade entre os humanos e as outras formas de vida, na busca de formas de cooperação com a natureza e não como Ser que a domina. Em síntese, significa que se deverá apontar para uma abordagem cíclica do uso dos recursos que a natureza dos proporciona, em vez do estilo de vida descartável que se tornou norma no mundo ocidental.
Em Portugal existem já alguns exemplos de eco aldeias, como seja o caso da eco aldeia Quinta Cabeço do Mato, situada no concelho de Tábua, ver fotografia em baixo apresentadas. Tem cerca de 10 ha localizados junto a uma linha de água – afluente do Rio Mondego; onde se podem encontrar áreas dedicadas à permacultura como a floresta, hortas e campos de cultivo. O recurso às energias alternativas é uma constante, recorrendo à hidroenergia como principal fonte, estando em montagem uma fonte de energia eólica (ventoinha) e estando prevista a recuperação dos moinhos de água. A eco aldeia Quinta Cabeço do Mato realiza vários eventos ao longo do ano de modo a promover a vida em comunidade de forma sustentável e ecológica.
Está em preparação a rede nacional de eco aldeias, onde se pode encontrar a listagem das diversas eco aldeias existentes em Portugal.
Figura 17 - Fotografias ilustrativas da vida em comunidade, eco aldeia Quinta Cabeço do Mato, Portugal;
Fonte: http://quintanemus.blogspot.pt/2011/01/nova-eco-aldeia.html, consultado em 12 Abril.