7 Faglig mestring og tilfredshet med lærestedet
9.1 Faglig utbytte og syn på arbeidsgiveres vurderinger
Nos dois tópicos anteriores, trabalhei especificamente sobre as categorias enunciadas por meus interlocutores para justificar seus deslocamentos. Na realidade, o que me esforcei por fazer foi tentar compreender o valor e o significado atribuído por cada sujeito à sua experiência de deslocamento, estando disposto à procurar entender os movimentos de preenchimento de sentido que os viajantes direcionavam às categorias por eles utilizadas. Para a materialização desse esforço de entendimento, obviamente, lancei mão de uma série de ferramentas conceituais advindas, sobretudo, da sociologia e da antropologia. No entanto, outros importantes conceitos não figuraram neste capítulo de forma destacada, sendo aqui momento para sinalizar – mesmo que de forma breve ou genérica – outras abordagens possíveis acerca das práticas de viagem de longa duração, sempre levando em consideração as “expressões empíricas” desta pesquisa, ou seja, as narrativas dos interlocutores apresentados.
Um primeiro exercício sociológico distinto dos que empreendi anteriormente consiste em pensar a importância do conceito excitação, elaborado por Norbert Elias (1985), para a compreensão das atividades de lazer, em geral e para as práticas de viagens, notadamente. A descrição do cotidiano de Benny ressalta uma rotina mecanizada, de ações previamente estruturadas, onde até a expressão de relaxamento, ir ao bar com os amigos, ganha um matiz rotineiro. Aliada à incômoda experiência de repetição, especialmente, ligada ao mundo do trabalho, existe também para o jovem economista um desconforto sentimental produzido pelas formas de controle presentes em seu dia a dia. Desse desconforto emocional,
uma ação interpretativa que tende a tomar a viagem unicamente como uma suspensão do ordinário, sem procurar refletir acerca dos contornos particulares que este ordinário e, consequentemente, sua suspensão – a viagem – possuem em que cada trajetória pessoal dos viajantes.
dessa vivência individual de insatisfação ante à disciplina cotidiana, emerge a necessidade de se buscar a “excitação”.
Para Elias (1985), a disciplina ultrapassa a dimensão do trabalho e estabelece-se de amplo modo ao referir-se à um modelo social que objetiva fazer com que os indivíduos dominem perfeitamente seus “estados de espírito”, seus impulsos, afetos e emoções. Tal
domínio, portanto, é corolário do “processo civilizador”75 profundamente estudado pelo
autor76. Assim, os constrangimentos próprios das sociedades industriais se por um lado trabalham na direção da instauração de valores modernos como segurança e ordem, por outro não deixam intactos os âmbitos mais íntimos dos habitantes das metrópoles, eles são princípios geradores também de ansiedades, tensões e frustrações. Diante disso, uma espécie de “estratégia de alívio” deve ser formulada, residindo – portanto – nas atividades de lazer as oportunidades de mitigação das qualidades maçantes e constrangedores do mundo ordinário. Corridas de cavalo, jogos de futebol, danças, pinturas e cartas são apontados, então, como canais para se manifestar de forma autorizada a “excitação” que é constantemente objeto de evitação e condenação. No bojo dessas atividades de lazer, portanto, situa-se uma modalidade de experiência que é mais fluída, mais livre das constrições sociais reinantes. O perigo imaginário, o medo, a alegria ou a tristeza experimentados em espetáculos ou jogos animam sentimentos, despertam a excitação desejada, afastam-se do estresse produzido cotidianamente. A viagem, considerando o exposto, é mais um desses canais autorizados de liberação de constrangimentos sociais, é nesse sentido que o conceito de excitação auxilia ao entendimento da significação de Benny em relação aos seus deslocamentos. Como modalidade de excitação autorizada, ele – obviamente – não pode perenizar-se, sendo isso o que exatamente acontece na trajetória do inglês: a viagem praticada como fonte de alívio, como negociação ou mediação.
A busca por excitação também poderia ser apontada como algo presente nas narrativas de Marc, em seus processos de significação de suas jornadas. Todavia, a
75O “processo civilizador”, de acordo com Elias (1994), diz respeito à uma mudança na conduta e sentimentos
humanos. No surgimento desta nova ordem, advinda dos entrelaçamentos de impulsos emocionais e racionais das pessoas, pode ser observado, por exemplo, o recalque gradual dos instintos, a evoluçãodos patamares de embaraço e repugnância, além do monopólio da violência por parte de um Estado centralizado.
76 O controle estável dos impulsos afetivos, libidinais e emocionais é considerado por Elias (1994, 1985) uma
condição de “sobrevivência social”. Manifestações de elevada excitação são consideradas anormais, prelúdios de
violência ou ameaças de anomia nas sociedades modernas, tratados – no limite – como casos para hospitais ou
para prisões. O autocontrole individual, assim, é evocado como fator de conciliação das “exigências da vida em comum”. Contudo, e esse é o cerne da reflexão de Nobert Elias sobre o tema, tal autocontrole é gerador denovas tensões, o que eleva as ocupações de desporto ou lazer à condição de imprescindibilidade. Excitação, destarte, na reflexão de Elias não é uma mera oposição ao mundo do trabalho, mas uma dimensão ampla de negociação com as formas de controle ou disciplina exigidas pelo social.
experiência do carioca permite a exposição de um exercício de compreensão sociológica informado igualmente pela noção de risco. Em seus discursos, por diversas vezes, alusões foram feitas a esportes considerados “radicais”, basta lembrar que Marc identifica-se como surfista, bem como em um de seus períodos de trânsito, durante o inverno europeu, procurou exercer atividades relacionadas à prática do snowboard77. O risco, presente em “esportes radicais”, foi trabalhado por Le Breton (2009a) como um exemplo de condutas empreendidas por jovens na contemporaneidade que visam ao “afrontamento do mundo”, tendo como meta
a produção de um sentido para acessar ou conservar o “gosto de viver”78.
Para o antropólogo francês, a experiência de vida dos jovens contemporâneos torna-se problemática quando se considera a evidenciação de um mundo caracterizado por expressões de fragmentação, incerteza e imprevisibilidade. O “jogo simbólico” com a morte ou com o perigo seria, portanto, uma estratégia de redefinição ou de reestabelecimento do sentido existencial dos sujeitos perdido frente à falta de integração, em alguns casos ou diante de uma “vida excessivamente regrada”, em outros. Toxicomania, fuga, anorexia, bulimia e até mesmo o suicídio são tomadas por Le Breton (2009a) como exposições deliberadas ao risco, advindas de um profundo e agudo sentimento de sofrimento pessoal, próprias da ausência de um “suficiente gosto de viver”. São, dessa maneira, recursos últimos utilizados pelos sujeitos em sofrimento para “nascer de si mesmo” e retomar o controle de suas vidas.
Para além de sua produção partir da ausência de sentindo da vida motivado por uma “falta de integração”, existem condutas de risco que buscam a plenitude da existência ao
77 Assim como o skate e o surf, o snowbord é um esporte que consiste em equilibrar-se em uma prancha. No
entanto, as superfícies utilizadas pelo esportista para equilibrar-se e fazer sua prancha deslizar são as encostas nevosas de montanhas, tais como as que proporcionam a prática do esqui. Como um dos maiores riscos aos quais os esportistas estão expostos existe a possibilidade de desequilibra-se da prancha e rolar montanha abaixo, chocando-se com alguma pedra ou banco de neve ou ainda caindo em algum precipício ou fenda. Com objetivo de diminuir os perigos da prática do snowboard as pistas para a execução do esporte são classificadas em termos de dificuldade e exigência de expertise, bem como diversos equipamentos de segurança são exigidos. O surf, para alguns, pode não ser considerado um esporte de risco, contudo se considerados os componentes do cenário da prática, o mar, esse argumento pode tornar-se facilmente indefensável. São muitos os casos de falecimento por afogamento, por impossibilidades de se retornar à praia diante de uma forte corrente ou mesmo pelo choque do surfista com pedras e barreiras de coral. Também como mais um exemplo da relação do surf como o risco pode ser citado o incremento entre os surfistas de uma prática que atende pelo nome de tow-in, onde o surfista (denominado de big rider) busca deslizar por ondas tão grandes, em um mar com condições tão extremas, que precisa ser rebocado por um jet-ski para ter acesso à ondulação.
78 De acordo com Le Breton (2009a), há uma multiplicidade de significados em torno do risco. A sociologia e
antropologia abordam a temática de maneira variada, por exemplo, associando-o com o perigo contido nas tecnologias modernas, com as consequências da atividade humana sobre o ambiente (poluição), com os
problemas de saúde pública a que “estão expostas as populações em virtude de seu modo de vida” ou com os
efeitos da produtividade industrial. No entanto, a abordagem que mais interessa a Le Breton (2009a, p. 03) é
aquela que se preocupa com “o significado das atividades em que se envolvem os indivíduos em sua vida pessoal ou profissional, e em seu lazer, para irem ao encontro do risco ou para dele se protegerem”. Especificamente, o
antropólogo e sociólogo francês debruça-se sobre aquilo que denominou de “condutas de risco”, noção configurada a partir de um jogo simbólico ou real com a morte não para morrer, mas para encontrar no ato de arriscar-se um sentido de “viver mais”.
esquivar-se de estilos de vida demasiadamente ordenados, comedidos ou regulares. Esse é o caso de Marc, situado entre os esportistas radicais que priorizam a procura de uma “intensidade de ser”, ao configurar seus deslocamentos também em uma íntima interação com as práticas do surf e do snowboard, como pontuado. A viagem em si talvez já pudesse ser considerada uma conduta de risco, pelo menos se feita a partir do ideal de independência e flexibilidade reivindicado por Marc, mas sua potência em relação aos riscos é intensificada na medida em que as experiências de trânsito associam-se a experiências esportivas não corriqueiras, que se definem numa incontrolável ou imponderável interação com as dinâmicas da natureza, como é o caso do mar e da neve nos exemplos de esporte mencionados.
A vivência do risco pela viagem e pelo esporte praticado em seu fluxo concedem à Marc instrumentos de interpelação de limites, sociais e físicos, o que parece repor seu “gosto de viver”, talvez daí derive o senso de vitalidade atribuído às viagens por parte do carioca. Se a viagem é para ele, como dito, uma prática de “enfrentamento do cotidiano”, tal enfrentamento recrudesce quando os próprios limites da vida pessoal, e não só da vida social, são postos em xeque. Se por um lado, em sua narrativa, a falta de integração é mencionada, as dificuldades de se lidar com as expectativas familiares são explicitadas, isso não implica uma conduta de exposição deliberada ao risco que se baseia em modalidades como as do suicídio ou bulimia, por exemplo. O que está realmente em jogo, o que tende a se evidenciar de maneira mais marcante que a citada falta de integração, é a insatisfação diante de um cotidiano previamente estruturado ou amplamente organizado; é para se distanciar desse ordenamento que leva a mortificação do sentido de vida que o surfista viaja e põe seu corpo à
prova, fruindo as “paixões da vertigem”79 (LE BRETON, 2009a).
Finalizando o presente capítulo, gostaria de propor mais um exercício sociológico, desta feita assentando-se sobre a narrativa de Ceci. Como assinalado, sua relação com a prática de viagem apoia-se na valorização da mesma como uma espécie de “ferramenta de compreensão” do mundo. É por meio de seus “distanciamentos” e das interações estabelecidas com os habitantes dos lugares visitados que ela motiva-se a pensar sobre si e também acerca de seu mundo familiar. Em suas próprias palavras, as interpretações que os outros fazem sobre suas vidas ordinárias a estimulam a refletir e, muitas vezes, a reconhecer o valor do seu
79 A vertigem reporta-se à “ausência de contenção”, diz respeito ao “salto no vazio” presente em diversas formas
de conduta de risco (LE BRETON, 2009a). Essa “paixão da vertigem” denota, portanto, um sentido de
exploração de limites, uma vez mais, que são sociais e físicos. A fascinação pela ideia de queda, simbolicamente, representa um desejo de existência que procura intensidade, o que é obstacularizado pelas estratégias de
contenção, pelas chamadas disciplinares, pelo regramento ordinário. A fruição do “vazio” antes de ser uma
manifestação de desistência, de resignação, é ato de afrontamento ao próprio “sentimento de vazio” partilhado pelos jovens em suas confusas experiências contemporâneas, a vertigem é possibilidade de preencher de
próprio cotidiano. Viagem e conhecimento, no discurso da jornalista australiana, assim, são elementos difíceis de serem dissociados80.
Diante do exposto, parece também não ser descabido explorar a ideia de viagem como um instrumento de aquisição de “competências”. Nesse sentido, os deslocamentos
assumiriam um caráter formativo, em termos de “capital cultural”81 (BOURDIEU, 2006),
muito próximo daquele presente em instituições formais de educação, como a escola. Portanto, no que tange à trajetória de Ceci, seu “capital cultural” parece ser incrementado por uma modalidade de formação produzida no seio da estrada, no bojo de suas experiências de trânsito. É importante lembrar que o gosto por viagens já era uma das expressões do estilo de vida de sua família, consistindo em um dos elementos que configuravam o que Bourdieu chamou de “capital cultural herdado”.
Contudo, o que busco salientar aqui com maior ênfase é justamente a expansão do “capital cultural” de Ceci para além daquele adquirido em meio a suas relações familiares. Obviamente, a escola e a universidade, ressaltando mais uma vez sua profissão de jornalista, contribuem para a referida expansão, no entanto na experiência da jovem australiana um termo a mais deve ser considerado: a influência da “estrada”, do deslocamento, das viagens
em seus processos de aquisição de competências. O “douto” e o “mundano”82, desse modo,
configurariam para Ceci formas complementares, e não-antagônicas, de maneiras de aquisição
80 A relação entre viagem e conhecimento foi exposta de maneira mais detalhada no primeiro capítulo desta tese.
Todavia, faz-se importante destacar um ideário de complementação de formação escolar realizado pela experiência mundana, simbolizado pela prática do Grand Tour, que aparentemente é retomado nos dias atuais. Os intercâmbios, como aquele vivenciado por Marc, são cada vez mais comuns, atualizando, por exemplo, a ideia de que o distanciamento do mundo familiar é propulsor de mudanças pessoais e aquisição de conhecimento, como a destreza em uma nova língua. No caso de Ceci, mais que uma habilidade linguística, o que está em jogo, como dito, é o entendimento da viagem como uma experiência à serviço de novas compreensões sobre o mundo.
81“Capital cultural”, na obra de Bourdieu (2006), pode ser definido, em linhas gerais, como um conceito para se
analisar situações de classe na sociedade. Como é evidente, tal constructo relaciona-se de forma íntima com um esforço de análise cultural que considera gostos, estilos, valores e esquemas de percepção de classes, grupos e frações de classe. Seus modos de aquisição são, de acordo com Bourdieu, distintos: o “capital cultural herdado”
seria incorporado diante da localização dos sujeitos no bojo familiar, já o “capital cultural adquirido” diria
respeito ao papel formativo da escola. É válido destacar que o “capital cultural” pode operar reconversões,
implicando a aquisição de “capital econômico”, ao mesmo tempo em que não prescinde do “capital social”, ou
seja, as redes de relações ou contatos estabelecidas entre os indivíduos. Assim, mais que um aspecto definidor de
uma classe ou mesmo de uma fração de classe, o “capital cultural” mobiliza expressões de poder e distinção,
sendo protagonista de lutas simbólicas por legitimações culturais entre as classes e suas frações.
82O “douto” e o “mundano” são termos utilizados por Bourdieu (2006) para explicitar as diferenças no modo de
aquisição do capital possuído, apresentando-se também como indícios das lutas simbólicas instituídas entre
grupos ou classes opostas. Por “douto”, o sociólogo francês compreende um modo de produção e apreciação de
obras culturais que se fundamenta na racionalização e na observação de regras ou preceitos que objetivam impor-se à concepção das obras. Já a expressão “mundano”, por seu turno, refere-se à uma maneira de apreciação da cultura muito mais baseada na busca de prazer, de uma fruição menos constrangida, atendo-se para isso aos detalhes mínimos que constituem a obra que se aprecia.
de capital, revelando possibilidades de pensar as dinâmicas culturais de classe não pela oposição de tais termos, mas por mistura ou imbricação.
Família e escola para Bourdieu (2006) podem ser considerados espaços de constituição de competências tomados como importantes ou necessários para determinados momentos. A “estrada”, entendida também como lugar de aquisição de conhecimento, deve ser considerada como mais um mercado. Se do “capital cultural herdado” e daquele adquirido posteriormente a partir da frequentação escolar podem ser operadas reconversões que culminam na aquisição de outras formas de capital – a saber, social e econômico –, o mesmo pode ser dito no que concerne às experiências de viagem, sendo o discurso de Ceci bastante ilustrativo: não é demais rememorar que é de sua escrita de viagem, da textualização de seus encontros em trânsito, da representação em alhures, que buscará cursar uma pós-graduação e, consequentemente, localizar-se da melhor maneira possível no mundo do trabalho.
4 DIREÇÕES E RITMOS
“I wanna run, I want to hide I wanna tear down the walls That hold me inside I wanna reach out And touch the flame Where the streets have no name.” (Where the streets have no name, U2)
Passar certo tempo em uma mesma cidade, em minha opinião, sempre foi uma experiência geradora de sentimentos ambivalentes. A ultrapassagem de um primeiro momento, o “desembarque”, comumente repleto de expectativas mobilizadas por imagens consumidas de forma apriorística sobre o destino em questão, pode bem ser um motivo de júbilo; afinal, depois de algumas semanas ou meses em alguma localidade, tendemos a nos sentir parte dela: referimo-nos a um conjunto de pessoas evocando seus nomes próprios; dominamos (ou pensamos dominar) algumas estruturas linguísticas básicas, utilizando-as (ou nos iludindo que as utilizamos) em contextos corretos e; não precisamos, como nas primeiras horas ou dias, sobrecarregar nossos pescoços em um quase eterno movimento de “baixa-
levanta”, “esquerda-direita”, derivado da necessidade de se checar um mapa ou GPS a cada
intervalo de 40 segundos.
Contudo, essa impressão de “fazer parte da cena” reserva, na falta de um melhor termo, “mal-entendidos” particulares. Talvez o mais grave deles resida na afirmação, por parte daquele que passou algum tempo em uma mesma cidade, de que a conhece. Esse discurso de pretensão totalizante é desestabilizado, entretanto, na medida em que se reconhece que as cidades “manipulam” uma gama variada de signos para se apresentar, sendo cada um destes um tipo diferente de “chave” para se ter acesso ao local. Nesse sentido, os lugares visitados são camaleônicos, uma rota que busca atravessá-los, fazer com que o viajante os vivencie, é apenas uma das cores possíveis da experiência, impossibilitando a enunciação, um tanto pernóstica, de “eu conheço esse lugar”. Como um potencial caleidoscópio, os destinos invocam multiplicidade, sequências de imagens ou narrativas, inclusive, não harmônicas acerca de si.
Depois de meses em Lisboa, o que não era de se estranhar, vivi sob tal ambivalência. Primeiramente, o Largo do Rato, passado certo tempo, já não era apenas uma denominação curiosa de uma região da cidade, onde as calçadas – pelo contraste das pedras – buscavam exibir os traços do roedor que dotava de nome a vizinhança, era “minha casa”. A “baixa” já era incorporada como algo da ordem do familiar, pronunciada por mim com afeição e entusiasmo sempre que indicava a algum conhecido meu destino de quase todas as noites. O “Jardim da Estrela”, o “Parque Eduardo VII” e o “Miradouro de Santa Catarina”, em meus discursos cotidianos, perdiam certa deferência, reclassificados em minhas vivências simplesmente como “Estrela”, “Eduardo” ou “Adamastor”. Nada mais pessoal! A cidade parecia ser minha, eu parecia a conhecer, orgulhosamente, inclusive, assumindo o papel de