• No results found

7.8 Analyse av empiriske data

7.8.3 Fagkunnskap og utfordringer

Apoiados pelo quadro epistemológico até aqui exposto, dizemos que o conjunto das acepções que o descrevem leva-nos à composição de uma narrativa de mundo. No entanto, queremos nos ater a um subconjunto dela, qual seja, às narrações possíveis desse mundo, ao ato mesmo de contá-lo, e, ao fazê-lo, de vislumbrar as apropriações e reapropriações das histórias que nele (e dele) se contam. Tais narrações parecem estruturadas em atualizações das significações por meio do discurso.

O modo como o mundo continua a ser relatado – para usar uma expressão de Charaudeau (2007), estrutura deslocamentos de sentido que parecem volver, depois da inércia, para o mesmo lugar, mas imputando ao sentido outras significações possíveis. Dito de outra maneira: cremos o que nos parece estar em jogo na construção de uma visão de mundo não diz mais apenas a uma realidade organizada pelos discursos, em que os sucessivos significantes e significados promovem os sentidos do que será apreendido coletivamente na arena simbólica.

O ato de narrar o mundo, entre comentários, relatos e explicações que se supõem objetivos, diante da própria incompletude do discurso, dos sentidos e dos sujeitos, estabelece uma disputa semiológica, na busca de representações sociais, em torno de uma hegemonia dos significados e dos sentidos, tendo em vista suas atualizações.

Essa contenda não se limita entre os meios de comunicação; ela se estende entre os meios e entre os meios e as instituições. Nesse sentido, vemos que a relação entre os meios estruturada no que Bourdieu (1997) chamou de circulação circular da informação, em que o agendamento dos assuntos e, consequentemente dos significados e sentidos que dele surgem, promovem uma homogeneidade do que deve ser vista sob a lógica da concorrência e remetem novamente a produzir aquele olhar ubíquo que mencionamos.

Contudo, a partir do aumento da visão negocial e executiva, que preside as rotinas do fazer midiático em seus bastidores, é preciso que os discursos dos meios,

para além dos dispositivos de encenação que lhes são próprios, atrelem-se às possibilidade de identificações, de tal forma que o meio coopte o sujeito-destinatário para uma comunidade imaginária que ele constrói.

É nessa comunidade imaginária, nesse auditório invisível, que se estabelecem os significados, geram-se as identificações e representações sociais. Nesse elo que os une estão postas as identificações e a ”realidade”. Os apresentadores de programas, por exemplo, incorporam a noção de que falamos e reforçam essa comunidade imaginária.

Vemos a atualização de uma significação, também em outro aspecto, por exemplo na série de artigos de Renato Janine Ribeiro, em A sociedade contra o social (2000). Ao analisar as ações políticas como compensação de um passado histórico, ele examina as ações políticas adstritas à expressão “politicamente correto”.

Neste artigo específico, A grandeza e a miséria do politicamente correto, em que discute as políticas afirmativas contra a discriminação, tais quais as cotas raciais, o autor afirma que primeiramente é preciso ter claro que a sociedade atual recorta-se de modo mais conservador do que o da década de 80. Em face disso, o ataque à desigualdade não a registra como tal, antes, ela é minorada perante políticas que favorecem uma falsa ascensão social tão benemérita quanto aquelas propostas no século XIX.33

Além disso, Janine Ribeiro aponta ainda que:

(...) o “politicamente correto” [enquanto ação política] constitui a ponta de um iceberg formado por movimentos sociais organizados na defesa dos direitos humanos (no caso, os de minorias). Como os Estados Unidos pulverizaram sua vida política em ações de lobbies, esses movimentos sociais, às vezes generosos, às vezes egoístas, se constituíram de uma forma que pouco tem de esquerdista: a esquerda sempre mantém algum compromisso com o socialismo (por vago que seja esse termo) e, portanto, sempre enuncia um projeto de sociedade, não de grupos. (RIBEIRO, 2000:31)

33 Entendemos a importância das políticas afirmativas, sem as quais, talvez, não fosse possível a

inserção de mulheres (haja vista a cota para assentos políticos), dos negros, dos deficientes. No entanto, precisamos considerar igualmente certos efeitos de uma ação política que também é da ordem do pertencimento identitário e dos aspectos dialéticos da exclusão, que buscamos discutir. Portanto, limitamo-nos na exposição desses aspectos.

Desse modo, tal crítica vai em direção de que as ações políticas em torno do que se esboça como “politicamente correto” têm em vista a microssociologia de grupos sociais, isto é, “não vai adiante dos conflitos sociais de certos grupos, o que reduz toda ação política a lobbies, ou seja, à promoção de interesses privados com escassa justificação [no que reivindica ou exige]”. (Id.ib, 40)

Isso significa que as ações políticas circunscrevem uma demanda aprisionada na seguinte ordem: cada grupo social que cuide das suas reivindicações particularizadas, o que em última análise, minimiza noção de direito (pensado como estatuto coletivo e como “oposição à força”). Some-se a isso, que as políticas em torno do “politicamente correto”, apesar de serem tomadas diante de um conflito cujo teor é absolutamente social, frequentemente operam-se na dimensão de etnia, de gênero, reduzindo a gravidade do conflito social ao convertê-lo em “natureza”, ou seja, uma instância que está acima da ação humana (apesar de que, assinala Janine Ribeiro, haja organizações de esquerda que contemplem a intervenção humana nessas reivindicações e a vejam como questões sociais e não dadas à naturalização).

Vemos, pois, que o eixo ideológico pouco se altera; apenas parece deslocar sua significação e continuar a girar no eixo de sempre.

O ensaio de Zizek (2003) também nos parece esclarecedor no sentido de que as demandas travestidas de novas com respostas igualmente “inéditas”, reinscrevem os lugares históricos, políticos e discursivos de sempre. São reapropriações, e isso nos basta?

Em vez de aplaudir açodadamente esses deslocamentos e reinscrições como potencialmente “subversivos” e elevar Shrek à condição de mais um “lugar de resistência”, devemos focalizar o fato de que, por meio de todos esses deslocamentos, contou-se a mesma velha história. Em resumo, a verdadeira função desses deslocamentos e subversões é exatamente tornar relevante para a nossa era “pós-moderna” a história tradicional – e dessa forma evitar que ela seja substituída por uma nova narrativa. (ZIZEK, 2003: 89-90)

Na aproximação ainda maior com o nosso objeto, Martins (2009) assevera que a “nova pobreza” é a reabilitação das novas formas da desigualdade social. Da mesma desigualdade de sempre. O que se passa é que se por um lado a nova

desigualdade aparta materialmente, por outro, une ideologicamente, por meio de um substrato cujo nome é mercado. As relações sociais estabelecidas sob esses aspectos levam nomes diferentes, mas dizem respeito às mesmas questões. Contudo, os conflitos sociais inerentes à história humana ganham o bálsamo do consumo. Assim, é possível discutir no que se estrutura a dialética da exclusão:

[A fenomelogia dos processos sociais excludentes] não produz uma reinclusão em relações sociais precárias e marginais, como produz também uma reinclusão ideológica no imaginário da sociedade de consumo e nas fantasias pasteurizadas e inócuas do mercado, qualquer que seja ele, até mesmo o mercado dos valores sagrados da tradição ou da dignidade humana. (MARTINS, 2009:21)

As atualizações dos discursos na perspectiva de disputa pelo modo de representar o mundo põem em circulação novos significados e valores no espaço público, é e por meio dessa variação dada pela atualização que novas posições-de- sujeito se estabelecem, outros pertencimentos e noções identitários são reclamados.