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Desde o início de suas atividades como acadêmico e militante político, Florestan Fernandes realizou constantemente trabalhos editoriais. Para bem exercer a ciência e a política uma das prerrogativas é a utilização adequada das publicações impressas – e atualmente também das plataformas digitais. Livros, panfletos, jornais e revistas (científicas ou não) servem como meios para comunicar resultados de pesquisas, ideologias políticas e informações diversas. Mas o ato de publicar, como escreve Villas Bôas, não apenas “completa uma etapa do saber”; deter um papel dentro do sistema editorial é, em si, uma maneira de contribuir para o processo de difusão do conhecimento e, evidentemente, confere ao agente poder legitimador.

O editor-mediador tem sido uma função desempenhada por vários cientistas sociais nas últimas décadas. Para Leclerc, esta é uma forma de “promover a obra dos colegas, influenciar sua produção, agir sobre a notoriedade dos pares” (2004:78). Complemento o argumento de Leclerc com a convicção de que dirigir uma editora ou editar/ coordenar uma coleção é um meio para afirmar o que é ou não é considerado legítimo, clássico, recomendável, digno de atenção. O desconforto de Martins com Ianni após o imbróglio Nisbet segue nessa linha. Florestan Fernandes não é um caso isolado de cientista social na condição de editor. No próximo quadro, apresento uma breve lista com profissionais gabaritados das Ciências Sociais, de diferentes países, que enveredaram pelo mundo editorial:

Cientistas sociais como editores/ coordenadores: alguns exemplos

Cientista Social Posição Editorial

Ricardo ANTUNES Coordena a coleção Mundo do Trabalho, da

Boitempo Editorial.

Pierre BOURDIEU (1930-2002) Desenvolveu para a Le Éditions de Minut o selo editorial Le sens commun.

Anthony GIDDENS Dirigiu a Polity Press, de Cambridge, editora

especializada em obras de ciências humanas.

Bernard LAHIRE Coordena, desde 2002, a coleção Laboratoire des

Sciences Sociales, da Éditions la Découverte.

John B. THOMPSON Diretor editorial da Polity Press.

Gilberto VELHO (1945-2012) Coordenou as coleções Biblioteca de Ciências Sociais e Antropologia Social, da Zahar.

No mercado editorial de livros, a primeira atuação de Florestan representaria a simbiose teoria-ação que décadas mais tarde consagraria o cientista social paulistano. Em um trabalho orientado pelo Partido Socialista Revolucionário (PSR), agremiação dirigida pelo jornalista trotskista Hermínio Sacchetta (1909-1982), editor da Folha da

manhã, Florestan Fernandes traduziu e escreveu o texto introdutório de Contribuição à crítica da economia política, de Karl Marx, livro publicado em 1946 pela Flama, braço

editorial do PSR (Soares, 1997; Sereza, 2005). Esta teria sido a “tarefa de maior envergadura da militância trotskista de Florestan” (Sereza, 2005: 75). Colaborador regular da Folha, Florestan fora convencido pelo amigo Sacchetta para a ação revolucionária, concomitantemente ao seu mergulho na pesquisa antropológica sobre os tupinambá, tese de mestrado realizada e defendida na Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo (ELSP). Naquela época, Florestan dava seus primeiros passos na trajetória docente como segundo-assistente da cátedra de Sociologia II na FFCL/USP.

Embora tenha posteriormente optado pela carreira acadêmica na USP, com o alegado consentimento dos dirigentes do PSR (Sereza, 2005; Sacchetta, 2011), Florestan Fernandes jamais deixou de reconhecer o efeito de sua militância de esquerda, ideologia política da qual jamais se afastou, conforme demonstram Soares (1997),

Souza Martins (1998) e Garcia (2002) 52. Nunca houve uma cisão absoluta entre o “Florestan cientista” e o “Florestan político”, apenas períodos em que a balança pendeu para um lado ou para o outro 53. Segundo o jornalista Vladimir Sacchetta, filho de Hermínio, a origem do conflito íntimo de Florestan 54, que nos anos 1940 estava dividido “entre duas forças não antagônicas, mas igualmente absorventes representadas pelo PSR e pela Universidade”, seria plenamente resolvido na década de 1980, com a filiação, em 1986, ao Partido dos Trabalhadores (PT), agremiação com a qual tinha divergências (Cerqueira, 2004); as aulas e palestras proferidas em universidades, seminários e cursos livres no Instituto Sedes Sapientiae55; nos discursos como deputado constituinte entre 1987-1988; e nos artigos publicados na Folha de S. Paulo, quando “tornara-se o homem-síntese que, aliando teoria à prática, personificava a ciência como instrumento transformador” (2011: 9). A meu ver, o “homem-síntese” a qual Sacchetta se refere encontra-se em sua atuação como coordenador editorial da coleção GCS.

A experiência de Florestan Fernandes na editora Flama colocou-o em contato com a literatura marxista (Marx, Engels, Trotsky, Lênin), de modo a suprir uma insuficiência das Ciências Sociais, então dominada pela sociologia americana (funcionalismo parsoniano, Escola de Chicago), fonte bebida por Florestan na ELSP e no debate com Donald Pierson (1900-1995); e pela tradição francesa representada por

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De acordo com Garcia, a amizade de Florestan com Hermínio Sacchetta foi uma “referência fundamental” para a abertura de horizontes de combate e diálogo intelectual (2002: 115).

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Retomando neste tópico a famosa discussão weberiana sobre as “duas vocações”, pode-se afirmar que, em Florestan Fernandes, ciência e política são vocações que não se repelem; antes se entrecruzam. “O predomínio da ciência natural acabou excluindo a ciência da esfera do político”, argumenta Florestan: “Esta perspectiva não pode ser mantida após o aparecimento das ciências sociais”, completa. (2006:44).

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Nas palavras de José Paulo Netto, “num processo de dilaceramento intelectual e emocional, cuja dramaticidade é cristalina em seus depoimentos retrospectivos, [Florestan Fernandes] opta por uma carreira acadêmica stricto sensu (...)” (2004:204).

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Durkheim e Mauss, orientação teórica vivida intensamente por ele em sua relação com Roger Bastide (1898-1974) na USP. Entre as duas vertentes, havia espaço para autores de outras bandeiras, como Weber e Mannheim, e Glaucia Villas Bôas é segura ao afirmar que havia “interesse pelos autores alemães, assim como boas traduções e publicações”, desde o processo de institucionalização das Ciências Sociais no Brasil (2006:17), relativizando a visão consagrada de sociologia brasileira como uma combinação entre a sociologia americana e francesa. Mas, nos anos 1940, Karl Marx era pouquíssimo lido fora dos círculos das organizações de esquerda. Para Florestan,

os debates eram sérios e profundos [dentro da organização trotskista PSR]; a documentação externa, vinda do movimento internacional, alargava a visão dos problemas da revolução mundial e dos seus entraves. Era nisto e nos lançamentos da editora Flama que se concentravam os verdadeiros vínculos com a aprendizagem marxista e o processo revolucionário como aspiração política decisiva [grifo meu] (Florestan apud Garcia, 2002: 115).

O contato de Florestan Fernandes com os mecanismos de imprensa fornecia um espaço estratégico para que transmitisse a sua, na adequada definição de Sereza, “inteligência militante”. Sobretudo quando a ditadura retirou à força o autor de

Mudanças sociais no Brasil (1960) da FFCL/USP na Rua Maria Antônia. Mas já em

seus primeiros anos como intelectual na década de 1940, Florestan colaborava nas mencionadas Folha da manhã e Flama, via Hermínio Sacchetta; no Estado de S. Paulo, incentivado pelo crítico literário, jornalista e agitador cultural Sérgio Milliet (1898- 1966), um dos fundadores da ELSP; e no extinto Jornal de São Paulo. Como pesquisador bastante produtivo, Florestan publicava ainda artigos em revistas acadêmicas como Sociologia, Anhembi e Revista do Arquivo Municipal. No ano de 1949, lançou seu primeiro livro, derivado de seu mestrado, intitulado A organização

Pouco depois de ser “aposentado compulsoriamente” de sua cátedra na USP em 1969, Florestan Fernandes aceitou lecionar na University of Toronto, posição de prestígio com a qual nunca se acostumou, enquanto vários de seus colegas cassados, muitos deles ex-alunos do próprio Florestan, optaram por fundar o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP), com subsídio da Ford Foundation, uma das razões alegadas para a recusa de Florestan participar do projeto conduzido por, entre outros, Fernando Henrique Cardoso, Octavio Ianni, que ingressou no instituto no ano posterior à sua fundação56, Francisco de Oliveira, Ruth Cardoso (1930-2008) e Paul Singer.

Assim como os integrantes do CEBRAP criaram a revista Novos Estudos, Florestan investiu seus esforços em iniciativas editoriais, quer na autoria e organização cada vez mais frequente de livros, quer na codireção, entre 1972 e 1978, das revistas

Debate & Crítica e Contexto, em conjunto com José de Souza Martins, Jaime Pinsky e

Tamás Szmrecsányi (1936-2009). Nas conversas em torno dessas publicações, afirma Souza Martins em depoimento para o livro Conversas com sociólogos brasileiros, “a USP cassada se encontrava com a USP não cassada, em torno de um trabalho intelectual de grande relevância acadêmica”. (2006:157). Em tempo: Pinsky utilizou o nome Contexto para a sua editora de livros fundada em 1987, situada no bairro da Lapa, zona oeste da cidade de São Paulo, com um catálogo voltado para as Ciências Humanas.

Nos anos 1970 e 1980, Florestan Fernandes lançou ou reeditou seus livros por nada menos do que doze editoras: Nacional, Difusão Europeia do Livro, Hucitec, Zahar, Vozes, Alfa-Ômega, T.A Queiroz, Paz e Terra, Brasiliense, Estação Liberdade, Cortez e Ática. Ao circular por todas essas casas publicadoras, Florestan emprestou seu prestígio intelectual e, em troca, alargou suas instâncias de legitimação. Na Hucitec, além de publicar livros de sua autoria, dirigiu a coleção Pensamento Socialista.

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Segundo Bernardo Sorj, “Octavio Ianni, que no início não participou da criação do CEBRAP – pois se opunha ao financiamento da Ford –, veio, um ano depois, a integrar-se” (2001: 32).

Florestan Fernandes compreendeu com argúcia a dinâmica do campo editorial e soube desatar as amarras da censura justamente na época em que assumia de vez sua convicção socialista e a sua vocação de militante. Radicaliza, assim, a sua postura de “pedagogo da revolução”, esboçada entre “1964 e 1968”, quando “ultrapassa o terreno da Sociologia (...) e franqueia a fronteira do socialismo revolucionário”. (Netto, 2004:

207). E os campos acadêmico e editorial encaixavam-se aos seus propósitos. No “terreno” editorial, escreve José Paulo Netto,

é notável a sua contribuição à dinamização da produção editorial, especialmente através das chancelas Hucitec e Ática – nesta última, avulta o empreendimento da coleção “Grandes Cientistas Sociais”. (2004:215, n. 20).

A coleção GCS, citada por Netto, não surgiu na mesma velocidade de sua profusão de títulos lançados, especialmente no período entre 1978 e 1986. Começou timidamente no princípio dos anos 1970, quando Florestan Fernandes, cada vez mais apaixonado pela teoria marxista-leninista, decidiu realizar leituras sistemáticas dos textos de Vladimir Lênin. A admiração pelo autor de O que fazer? (1902), expoente da Revolução Russa, é declarada em carta datada de 26 de outubro de 1972 a uma amiga e confidente, a socióloga Barbara Freitag, graduada, mestra e pós-doutora pela Freie Universtität Berlin e que viria a organizar, em parceria com o marido, o filósofo e diplomata Sergio Paulo Rouanet, o volume sobre Habermas da GCS (1980):

Ando relendo Lênin... Volto a um universo que me fascina, hoje ainda mais que no passado. (...) O mundo perdeu um “scholar” completo e apaixonado. Espanta-me como aos 23 e aos 24 anos já tinha um domínio profundo de Marx e plena segurança no manejo do método dialético (Fernandes apud Soares, 1997: 78).

Não é difícil vislumbrar no discurso de Florestan Fernandes, revelado pela carga emotiva característica de suas missivas escritas à Freitag, o sentimento de ter

encontrado na figura de Lênin um “homem-síntese” da teoria e da ação, tal como Vladimir Sacchetta definiria, anos depois, Florestan. O retorno ao – e em certo sentido a redescoberta do – pensamento leninista tinha ganas de divulgação teórica e ação revolucionária. O cientista social paulistano preparava naquele ano de 1972 uma compilação de escritos de Lênin. “Em 1972”, informa Eliane Veras Soares, “[Florestan] preparou um livro de leituras básicas de Lênin, que viria a ser publicado em 1978.” (1997: 78). Era este o quinto volume da coleção GCS, mas o hiato de seis anos entre a elaboração da coletânea e sua definitiva publicação nos permite brechas para investigar as razões para tamanha demora, na medida em que Florestan Fernandes continuava a ter reputação dentro do sistema editorial de livros para o mercado universitário.

A resposta com maior coerência e consistência para esta questão parte da pena de Hallewell. A ideia, em princípio, era que Florestan Fernandes fosse o supervisor de uma coleção de livros de “estudos universitários”, mais precisamente de Ciências Sociais, a ser editada pela Companhia Editora Nacional, dirigida por Octalles Marcondes Ferreira. Como Hallewell afirma que as tratativas eram diretas entre Florestan e Ferreira, e as conversas se deram “pouco antes” da morte deste último57,

presume-se que o volume sobre Lênin entraria nessa série de livros cujo nome estava definido. Seria denominada de Grandes Cientistas Sociais. O falecimento de Octalles Ferreira, e a crise financeira da CEN, fizeram com que o projeto fosse abortado, ainda mais com o cenário claustrofóbico do governo Médici. A descrição do bibliotecário é primorosa, mas novamente peca por um erro: ao contrário do que está transcrito no livro de Hallewell, a Ática lançou a coleção em 1978, e não em 1980. (2012: 418).

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Há controvérsias sobre o ano de nascimento e morte de Octalles Marcondes Ferreira. Alguns livros e sites colocam sua data de nascimento e morte como 1889-1972 ou 1901-1972; outros como 1901-1973; e ainda 1900-1973.Nem o livro de Hallewell (2012), nem o estudo de Toledo sobre a CEN (2010), arriscam-se a precisar tais datas, uma praxe em pesquisas históricas. É,

Na entrevista que me concedeu em maio de 2013, o editor Fernando Paixão não conseguiu precisar quando a coleção começou a ser realmente ventilada pelos corredores da editora Ática, mas o projeto “provavelmente” foi gestado por volta de 1975, um ano após a crise financeira na CEN, que redundaria na “estatização”, via BNDE, da histórica editora, após a frustrada tentativa de aquisição por parte da Livraria e Editora José Olympio. Em 1980, o catálogo da Companhia Editora Nacional foi comprado pelo Instituto Brasileiro de Edições Pedagógicas (IBEP).

Ao perceber que o projeto seria suspenso por tempo indeterminado pela turbulenta CEN, Florestan Fernandes iniciou rapidamente conversas com os diretores da editora Ática, que, cientes da expansão do ensino superior, buscavam justamente aproximar-se do público universitário, em diálogo iniciado com a coleção Ensaios, gerenciada por Granville Ponce e colocada nas prateleiras das livrarias em 1975.

Quando a coleção GCS foi, enfim, lançada com a chancela da Ática no ano de 1978, sete títulos saíram de forma quase simultânea e pela seguinte ordem numérica: Durkheim, Febvre, Radcliffe-Brown, Köhler, Lênin, Keynes e Comte. E apesar da resposta tímida da imprensa – foram escassas as matérias – os primeiros números de vendas foram, segundo a lembrança de Paixão, favoráveis. Além disso, nenhum dos títulos sofreu censura prévia. Em parte, porque o caráter de coleção didática voltada para o ensino superior inibia os órgãos de repressão a fazer reparos. E havia em jogo, claro, todo o poderio de negociação e produção da editora Ática. Boa parte dos livros, publicados em etapas, foram elaborados pelos organizadores anos antes do acerto de Florestan Fernandes com a Ática, demonstrando que a coleção estava em andamento pela CEN. Lançado em 1982, o volume sobre Karl Mannheim foi organizado por Marialice Mencarini Foracchi, falecida em 1972.

Interessada tanto na lucratividade quanto na distinção que a marca GCS poderia lhe conferir, em situação parecida à ocorrida com a Ed. Abril Cultural e sua coleção Os pensadores ou, décadas antes, o prestígio acumulado pela CEN com sua Brasiliana, a Ática conseguiu lograr a não interferência do governo no lançamento dos livros. E, para completar, a coleção GCS saía da gráfica com se já tivesse passado por cinco instâncias de legitimação: 1) o peso do selo editorial Ática; 2) a grife do coordenador Florestan Fernandes; 3) a respeitabilidade e titulação acadêmica dos organizadores; 4) o projeto gráfico de um artista prestigiado, Elifas Andreato; 5) o autor abordado em cada volume.

Acompanhar os livros escritos e organizados por Florestan Fernandes desde o final dos anos 1940 até seus últimos dias de vida, é ter uma visão clara das preocupações do cientista social em cada momento de sua carreira. Quando descrevi que uma separação entre o “Florestan cientista” e o “Florestan militante” era imprecisa e simplória, em consonância com a opinião da maioria de seus comentadores (Soares, 1997; Souza Martins, 1998; Cerqueira, 2004; Sereza, 2005; Ianni, 2011; Sacchetta, 2011), deixei como adendo que o movimento era pendular, e durante parte expressiva de sua trajetória, a ambição de ser o “inventor” e autoridade legitimadora da, nos dizeres de Miceli (2012), “sociologia científica” no país também o motivou intensamente.

A Ática evidentemente estava interessada nesta faceta, apresentada por ele nos seus livros entre 1949 e 1975, ainda que fossem outras as circunstâncias por ocasião do lançamento da GCS. Leitor de Lênin, Trotsky e orador de discursos socialistas, Florestan Fernandes antes investiu seus esforços para vencer batalhas internas e externas à USP e afirmar e regrar as Ciências Sociais. Ninguém assina uma obra com traços biográficos com o título de A sociologia no Brasil (1977), em postura meio arrogante, se não tivesse essa pretensão de ser o sistematizador teórico, metodológico e mesmo burocrático-administrativo das Ciências Sociais, e da Sociologia em particular

no Brasil. É uma marca de abnegação e combatividade que Garcia (2002), Cerqueira (2004) e Sereza (2005) querem revelar em várias passagens de seus respectivos livros. Garcia, por sua formação e linha de pesquisa, tinha maior inclinação a desconfiar dessa narrativa heróica. Cerqueira e Sereza embarcam facilmente na exaltação. O menino engraxate que enfrentava a concorrência dos grandalhões, o atendente de bar que lia vorazmente no balcão e no sacolejar dos bondes, o sociólogo de alto nível que recusava subsídios estrangeiros. O começo, o meio, o fim. Em “A ilusão biográfica”, Bourdieu é taxativo em sua crítica a esse tipo de narrativa:

Essa propensão a tornar-se ideólogo da própria vida, selecionando, em função de uma intenção global, certos acontecimentos significativos e estabelecendo entre eles conexões para lhes dar coerência, como as que implica a sua condição como causas ou, com mais frequência, como fins, conta com a cumplicidade natural do biógrafo que, a começar por suas disposições como profissional da interpretação, só pode ser levado a aceitar essa criação artificial de sentido (1996: 184-185).

Em meu ponto de vista, as considerações bourdianas são convincentes – embora, no livro Esboço de autoanálise, Bourdieu tenha procurado sociologizar e explicar sua história, disfarçando-a habilmente com uma linguagem intrincada e a epígrafe “Isto não é uma autobiografia”. No entanto, para efeito desta pesquisa, os livros de depoimentos de e sobre Florestan são uma fonte da qual não posso fugir. Elas são reveladoras inclusive naquilo que ocultam. Assim sendo, a certa altura dos fatos, o projeto oficial de Florestan era fazer da Sociologia uma ciência digna e austera, sem interferência de militância política explícita. Os livros Fundamentos empíricos da explicação

sociológica (1959), Ensaios de Sociologia Geral e Aplicada (1960), Elementos da Sociologia Teórica (1970), além das coletâneas que organizou para a CEN Comunidade e sociedade no Brasil: leituras básicas de introdução ao estudo macrossociológico no Brasil (1972) e Comunidade e sociedade: leituras sobre problemas conceituais,

metodológicos e de aplicação (1973) nos mostram um acadêmico imbuído do espírito

de cientista, mesmo após sua cassação. E ele incentivava seus alunos na prática: Homem

e sociedade: leituras básicas de Sociologia, organizado por Fernando Henrique Cardoso

e Octavio Ianni em 1961, possui essa marca. Dai porque separar Florestan em esferas, ou romantizar sua biografia como guerrilheiro de ideias e ideais, é um desserviço e dificulta o entendimento da complexidade e das contradições, de sua vida e obra. Netto (2004) não está equivocado ao chamá-lo de “pedagogo da revolução”, mas às vezes Florestan revelou-se um conservador em termos de teoria e método sociológico (e essa ambivalência progressismo-conservadorismo é uma discussão que vale, quem sabe, uma tese de doutorado). Por melhor que fossem suas intenções, como o desejo de reduzir o descompasso entre a modernização institucional do país e os comportamentos políticos e culturais retrógrados, ele também se apegava aos analistas positivistas, como pontuou Freitag a respeito dos trabalhos de Florestan antes de sua cassação:

Como conclusão de minha dissertação defendida em 1967, deparei-me com um paradoxo. Por um lado, Fernandes recorria a uma sociologia positivista, com teorias baseadas em Durkheim, Weber, Radcliffe- Brown, Mannheim e Hans Freyer, essencialmente "acadêmicas" e "conservadoras"; e, por outro, o nosso autor demonstrou ser um cientista social crítico e engajado, que na Campanha em defesa da Escola Pública (1962), voltada para os oprimidos, excluídos e marginalizados, defendeu com veemência uma causa política, quebrando a "neutralidade" do cientista, exigida pelo positivismo (2005:235)

Essa capacidade de Florestan apontada por Freitag, o trânsito do sociólogo nos campos editorial e acadêmico, foram absorvidas na GCS e conferiu à coleção uma autoridade única, em que ciência e política, teoria e crítica, caminhavam juntas.

2.4 – Mapa da coleção I: Os organizadores

Como esclarece Gerard Leclérc (2004), em passagem citada anteriormente, o