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5. CONCLUSION

5.2 Factors influencing the use of V1 word order

Neste sub-capítulo propomo-nos a fazer um breve ensaio de comparação com outros conjuntos de cerâmica comum estudados na Lusitânia que apresentem dados quantitativos globais e com contexto cronológico conhecido. Assim, no vale do Sado, contamos com os contextos escavados sob a Rua Francisco Augusto Flamengo (Silva et al., 2014, pp.161-214) para os quais, pelo menos nos contextos da segunda metade do século I ao século II, se aponta para o carácter doméstico da lixeira «apesar de

conter materiais rejeitados talvez no âmbito de actividades comerciais» (Silva et al., 2014, pp.186).

Tem também um depósito datado de meados do século IV à passagem para o século V. No vale do Tejo, analisámos os dados do sítio arqueológico de Povos, villa ou vicus portuário, cuja ocupação foi dividida em duas fases: uma entre o final do século I e o século III e outra do século III ao século V (Vila Franca de Xira; Grilo e Santos, 2017). Porém, os próprios investigadores realçam que houve um conjunto considerável de peças a que não foi possível adscrever um contexto de origem, devendo colocar-se «algumas reservas quanto à validação das interpretações sobre alguns conjuntos de

cerâmica comum do local» (Grilo e Santos, 2017, p.91). No caso da Quinta da Bolacha, é uma villa,

datada do último terço do século III ao primeiro quartel do século VI. No interior do território surgem as villae de São Cucufate que estão faseadas em diferentes horizontes da segunda metade do século I a meados do século V (Pinto, 2003). Outros contextos serão referidos para comparações específicas. Realizámos algumas adaptações de modo a tornar os valores equiparáveis nomeadamente nos dados de São Cucufate adicionámos os potes às panelas. Os pratéis pelo contrário são contabilizados no conjunto de Tróia mas não estão individualizados em nenhum outro conjunto, estando provavelmente distribuídos nos demais estudos entre as tigelas e os pratos como discutido aquando da descrição da variante. Os dados e as características do conjunto em estudo permitiram-nos discutir as funções de cada categoria e apontar uma função principal, agrupando-as do seguinte modo: cerâmica de mesa seriam os pratos, as tigelas, os potinhos, os jarros e as bilhas; seriam cerâmica de cozinha (uso ao fogo) os pratos covos, tachos, os potes/panelas e tampas; cerâmica para preparação de alimentos seriam os almofarizes e os alguidares, para o armazenamento utilizar-se-iam as talhas e em “outras funções” como a de queimadores ou para iluminação integramos os pratéis (Anexo V, Quadro 144).

Em primeiro lugar, em todos os contextos analisados, inclusive em Tróia, mas à excepção da Quinta da Bolacha, a loiça de cozinha tem o valor mais alto, ainda que em percentagens muito variadas (Anexo V, Quadro 145), seguida pela loiça de mesa. Além disso, se no conjunto da cerâmica comum de São Cucufate mudarmos os pratos para a loiça de mesa, os novos valores percentuais obtidos para a loiça de mesa (40,2%) e de cozinha (43%) aproximam-se muito do conjunto formado sobre o abandono da oficina de salga 1 de Tróia. No caso da Quinta da Bolacha (Amadora) o elevado valor percentual obtido para a cerâmica de mesa deve dizer respeito ao facto de determinadas formas que

consideraríamos pratos covos de acordo com os nossos critérios – como o paralelo da nossa variante 1.3.E.1.– serem consideradas tigelas neste conjunto.

Em terceiro lugar, surge em quase todos os contextos a cerâmica de preparação dos alimentos a frio. Apenas em Setúbal, a cerâmica de armazenamento é mais importante do que essa.

Por conseguinte, a ordem de funções presente na cerâmica comum dos espaços domésticos acima referidos é idêntica à que se verificou no conjunto de Tróia. Pode assumir-se que, tal como os dados da terra sigillata haviam sugerido (Anexo I) as unidades [488] e [519] provêm de despojos de cariz maioritariamente doméstico. As duas unidades são ainda compostas por fragmentos de metal, moedas, fragmentos de lucernas e conjuntos muito expressivos de fauna mamalógica e malacológica, mas também de fauna ictiológica, presente em muito menor quantidade e ainda por alguns carvões e argamassas. Aparentemente o despejo dos resíduos nesta área não teve nenhum tipo de triagem prévia e poderá ter sido realizado próximo de zonas de circulação – indiciadas pelo uso funerário do espaço e pelo simples facto de se tratar de uma pequena ilha com as naturais restrições de espaço que isso implica. Estas características contrastam com realidades antigas identificadas em Lisboa – sobretudo século I d.C. - cuja ausência de fauna e metais nos despejos permitiu propor a intervenção pública no processamento dos detritos (Banha da Silva, 2011, pp.208-209). Novamente, aproxima-se de uma prática de despejo essencialmente doméstico, com pouca triagem em função da natureza dos materiais como se identifica em depósitos sobretudo da segunda metade do século V na mesma cidade (Banha da Silva, 2011, pp.208-209) e, sobre construções desactivadas em áreas limítrofes, como oficinas de produção de preparados piscícolas, do qual são exemplo os contextos escavados sob a Rua dos Fanqueiros nº77 (Trindade, 2000).

Cabe agora a comparação entre as categorias morfológicas dos grupos funcionais dos diferentes contextos. Quanto à loiça de mesa e como é visível pela análise dos Quadros 144 a 146 (Anexo V) o contexto em estudo aproxima-se consecutivamente dos conjuntos com datações mais tardias e sobretudo em torno da segunda metade do século IV a meados do V, onde os pratos existem em percentagens superiores às tigelas. Ainda assim, Tróia apresenta o conjunto de pratos com maior valor percentual. Estes pratos têm uma média de 24,7cm de diâmetro externo, curiosamente inferior aos pratos de São Cucufate (Pinto 2003, p.629). De acordo com J. Nolen esse valor está no limite entre um prato de consumo individual e um prato de serviço e/ou consumo comunal, que para essa autora se situará sobretudo a partir dos 25cm (1985 apud Pinto, 2003, p.629). Em conjunto, a loiça de serviço e consumo de líquidos (jarros, potinhos e bilhas) mantem-se relativamente estável entre as diferentes fases dos mesmos sítios, apresentando valores díspares entre os sítios. Os jarros só são mais numerosos que os potinhos e bilhas na segunda fase de Povos e no Locus A do sítio de Setúbal, sendo que na Quinta da Bolacha e nos quatro primeiros horizontes de São Cucufate têm uma expressão muitíssimo

mais baixa em relação às demais categorias, afastando-se do conjunto de Tróia.

Em relação ao vale do Tejo, o serviço de mesa em cerâmica comum da comunidade da primeira metade do século V de Tróia mais do que pelas formas, distinguir-se-ia dos contextos examinados no vale do Tejo pela cor, pois 42% (grupos 4, 5 e 13) dos recipientes de mesa foram produzidos em Modo B e muitos destes polidos. Será esta particularidade do conjunto de Tróia extensível ao restante vale do Sado? Será característica desta cronologia? A ausência de estudos de grandes conjuntos de outras cronologias neste centro industrial impede saber mais.

Talvez o conjunto de São Cucufate possa aduzir alguns dados a essa discussão, já que quando a questão se situa nos fabricos cerâmicos, este sítio aproxima-se onde os do vale do Tejo se afastam. Na apresentação dos grupos técnicos salientámos desde logo a hipótese de que os grupos 4 e 5 poderiam relacionar-se com o grupo petrográfico 2 estabelecido em São Cucufate (Pinto, 2003, p.93- 141) associado aos gabros de Beja. Se atentarmos apenas nos grupos de fabrico de cozedura redutora desse conjunto (2-C, 2-D, 2-E, 2-G) notaremos como qualquer um deles aumenta consideravelmente e de forma mais ou menos constante desde o início da ocupação até aos contextos mais recentes estudados por Inês Vaz Pinto (2003, fig.650, p.550). Assim, poder-se-á considerar provável que a presença em Tróia de cerâmicas dos grupos técnicos 4 e 5 tenha um significado cronológico, sendo de esperar que seja mais relevante nos momentos mais tardios da ocupação deste sítio. Esta comparação permite também estender a discussão em torno da cerâmica de minerais negros alentejanos, da dinâmica da sua produção e distribuição à região do vale do Sado (Pinto 2003, p.576). Discutida a mesa, segue-se a questão: o que se preparava nas cozinhas? Como referido, a cerâmica de cozinha é o conjunto funcional mais importante. Novamente, existe um padrão que aproxima o conjunto de Tróia daqueles com datações mais tardias: com reduzidos valores percentuais para as tampas e valorização dos pratos covos. Contudo, neste caso há ressalvas importantes. A relevância dos pratos covos em Tróia (14,4%) não é igualada em nenhum caso. Porém, deve matizar-se esta discrepância com os comentários já elaborados face à categoria das tigelas. Inversamente, em todos os depósitos analisados, os tachos são mais importantes do que em Tróia. Os potes/panelas são a categoria mais importante nas villae em análise, mas são menos que os tachos na olaria do Seixal, com percentagens díspares. No conjunto de Tróia existem cinco vezes mais potes/panelas do que tachos, relação que sobretudo nos conjuntos do vale do Tejo é sempre muito mais próxima.

Fica claro que a comunidade que nas primeiras décadas do século V utilizou os recipientes em estudo integra-se numa evolução normal que existiu no litoral ocidental e interior da Lusitânia. A prática quotidiana das cozinhas destas comunidades nesse período valorizou os pratos covos e desvalorizou as tampas. Todavia, as tampas não têm uma relação directa com a diminuição de um

recipiente concreto que cobririam, uma vez que potes/panelas e tachos têm evoluções diferentes nos diversos sítios. Será evidência de que os cozinhados desta fase, eventualmente mais secos e com menor necessidade de conter o vapor de água, não necessitam de ter uma cobertura no processo de confecção? Ou outras formas são usadas para o efeito? O serviço para cozinhar os alimentos de Tróia parece sobretudo comparável ao serviço dos horizontes 5 e 6 de São Cucufate, onde a “relação de forças” entre as quatro categorias em discussão (pratos covos, tachos, potes/panelas e tampas) é mais próxima do que em qualquer um dos outros sítios. Ainda assim, se destaca o valor elevado de pratos covos em Tróia e haverá que entender a reduzida percentagem de tachos face aos restantes conjuntos. Será que os pratos covos satisfariam a mesma função e permitiriam maior quantidade de comida?

Desta forma, temos em Tróia duas expressões na cozinha das comunidades da primeira metade do século V. Em primeiro lugar, é indiscutível o predomínio dos potes/panelas. Diferentes autores notaram já a sua importância para a confecção de sopas, purés e cozidos, refeições líquidas ou com bastante caldo (Bats, 1988, pp.65-67; Pinto, 2003, p.649; Arthur, 2007). Em São Cucufate verificou- se como a importância deste recipiente teve tendência a aumentar ao longo dos séculos, que a autora questionou poder relacionar-se com a alimentação tradicional do mundo mediterrânico (Pinto, 2003, p.649). Porém, o reduzido valor dos tachos deve ser matizado na cozinha das comunidades de Tróia pelo intenso uso do prato covo ao lume e forno. Assim, a expressão dos alimentos sólidos, relativamente secos ou semi-líquidos está por seu turno explícita na importância dos pratos à mesa; nos tachos e pratos covos na cozinha (e na raridade das tampas?) (Alarcão, 1974, p.33; Bats, 1988; Ornellas e Castro, 1997, pp.13-55; Arthur, 2007), que em conjunto salientam um costume tão importante como o dos potes/panelas. Diferentes autores salientaram que os guisados, estufados ou assados, cozinhados em pouca gordura, tal como massas de cereais e pão e eventualmente carne e peixe em conserva seriam típicos deste serviço de formas mais abertas e baixas. No entanto, outros investigadores, ao verem nos conjuntos que estudaram indícios suficientes para designar os pratos covos como recipientes por excelência para a mesa, viram na sua relevância possíveis indícios para a regressão dos alimentos sólidos e progressão dos alimentos mais líquidos, com a redução dos pratos (Pinto, 2003, p.649). Assim, é necessária bastante cautela na hora de concluirmos sobre a tendência contrária. Já que, como a mesma autora refere, verificámos no nosso conjunto que os pratos covos são também uma presença importante na terra sigillata. Finalmente, face à importância de pratos e pratos covos em Tróia, mesmo em relação a todos os outros contextos, é interessante notar a associação de vários autores do prato (Pinto, 2003, p.649), prato covo (Bats, 1988, p.67) e mesmo do tacho (Alarcão, 1974, p.33) à tarefa e moda de cozinhar peixe, alimento naturalmente muito disponível em Tróia. A reduzida percentagem de tachos quando comparado com outros contextos, é contraditória à presença de tachos em formas únicas no panorama lusitano. A discussão realizada anteriormente em torno

dessas formas permitiu levantar um conjunto de hipóteses para estas presenças, sendo que cremos que de um modo ou de outro, espelham a intenção de ter um recipiente para cozinhar de um modo concreto, ligado à cultura do sul mediterrânico (Arthur, 2007, p.18; Santos, 2011, pp.121-126).

No caso dos recipientes para armazenamento, as talhas são sempre indivíduos muito pouco significativos nos conjuntos globais, provavelmente pelo seu cariz específico de grandes recipientes em que um exemplar já por si significa grande capacidade de armazenamento de produtos. No entanto, o conjunto de Tróia é sempre o mais reduzido, à excepção da segunda fase de Povos no vale do Tejo e da Rua Francisco Augusto Flamengo em Setúbal. O diâmetro médio dos bordos estudado (26,4cm) é sempre inferior aos de São Cucufate, demonstrando vasos mais pequenos. A justificação terá de passar pela especificidade do sítio de Tróia: poderá relacionar-se sobretudo com a dinâmica da ocupação em interdependência directa com o lado Norte da margem do rio Sado, com circulação constante de gentes e bens, e talvez, com a sazonalidade da ocupação no sítio, que demandaria menor armazenamento. Deve ainda colocar-se a hipótese de uma utilização maior das ânforas como armazenamento, pelo excesso que deveria existir deste recipiente e provavelmente também dos suportes adequados ou até da sua facilidade de encaixe em solo arenoso.