Outro vestígio desse boom na abordagem das práticas culturais populares é a mudança de tratamento dado pelo jornal Correio de Uberlândia à festa da congada. Nos anos de 1970, as escassas reportagens que foram veiculadas, apenas informando a ocorrência do evento ou divulgando local e data da festa, classificavam na como manifestação folclórica e na década seguinte ela recebeu o status de cultura popular, o que não foi uma mudança repentina, pois nesses anos também se observam referências à idéia de folclore. O trecho seguinte é representativo do modo como a festa congadeira foi noticiada na década de 1980:
Às 18 horas – procissão com as veneráveis imagens de N. S. do Rosário e São Benedito. Este acontecimento será abrilhantado também pelos ternos de Congados e Moçambiques, indiscutivelmente as maiores expressões folclóricas, de origem africana, rememorando costumes e fatos da vida tribal, na sua manifestação mais primitiva e generalizada; não passa dum simples cortejo real, desfilando com danças cantadas. Hoje, os estudiosos vêem os congados como uma manifestação afro brasileira, de conteúdo místico mágico religioso.282
281Nessa perspectiva, conferir: ABREU, Martha. Cultura popular: um conceito e várias histórias. In: ABREU,
Martha; SOIHET, Rachel (orgs.). : conceitos, temáticas e metodologia. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003.
282AMANHÃ o encerramento da festa de N. Senhora e S. Benedito. ' ( # Uberlândia, 18
O enquadramento da festa em determinadas categorias é visível na narrativa jornalística: “origem africana”, que rememora “costumes e fatos da vida tribal”, “manifestação mais primitiva e generalizada” que “não passa dum simples cortejo real, desfilando com danças cantadas”, “manifestação afro brasileira”, “de conteúdo místico mágico religioso”. As definições vêm de fora, não trazem os significados que a congada possui na vida das pessoas, no tempo presente vivido por elas, e a congelam em uma temporalidade distante, limitando a a um “simples cortejo real” e a “danças cantadas”, embora isso faça parte de uma das suas dimensões. O espaço conquistado pelos sujeitos que fazem a congada integra também um processo de apropriação que contesta o olhar simplista e o senso comum do jornalista no seu tempo histórico.
Hoje é possível encontrar as imagens da congada e da Igreja do Rosário, símbolo arquitetônico da festa, em diferentes materiais, como cartões de telefone, guias turísticos, programas de campanha eleitoral, catálogos de produção cultural, revistas locais, informativos da prefeitura, calendários, painéis de supermercado, na imprensa escrita e nos programas de TV e rádio. São imagens que exprimem a idéia de que “o Congado é uma tradição na vida cultural de Uberlândia283, uma festa de muita cor, movimento e religião”284, que exibe “uma coreografia altamente cultural, cheia de ginga e ritmo”, de modo que, “nesta festa tradicional, evidencia se um importante segmento da história cultural do País.”285
Essas expressões foram recortadas das novas representações que a congada foi ganhando nos jornais, num movimento lento e descontínuo que inventava a congada como a festa da tradição, da vida cultural de Uberlândia, afinal, “diversidade é a palavra chave para descrever as possibilidades do turista no Triângulo Mineiro.”286 Esta frase foi publicada ao lado de uma fotografia do terno Catupé de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito (Catupé do Martins), em movimento durante um desfile, e no texto aparece como mais uma das opções turísticas da cidade, ao lado de cachoeiras, trilhas e lagos.
283SECRETARIA de Cultura apóia Grupos de Congados. ' ( , Uberlândia, 11 set. 1984,
p. 12.
284FESTA de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. ' ( , Uberlândia, 13 nov. 1984,
p. 12.
285Idem, ibidem.
286SOCIEDADE ANÔNIMA BRASILEIRA DE EMPREENDIMENTOS (Sabe). & D . Uberlândia, 3.
No programa de governo distribuído pelo candidato à reeleição ao cargo do executivo municipal, Odelmo Leão Carneiro Sobrinho expõe o seu plano de ação para 2009 2012 e fala das principais realizações na gestão de 2005 a 2008, destacando as “ações sociais no Congado” e ressaltando que “a Prefeitura realiza diversas oficinas nos quartéis de Congado, com a participação da juventude e de adolescentes em atividades como: confecção de instrumentos e de sandálias, dança, percussão, bordado com pedraria, pintura e outras.”287
A nota faz alusão às oficinas que acontecem na sede (quartel) de alguns grupos de congado (ternos), como resultado de projetos enviados por seus membros para o Programa de Incentivo à Cultura e ao Fundo Municipal de Cultura de Uberlândia. Sendo aprovados, recebem verba para executar suas propostas, em muitos casos inferior àquela solicitada na carta de intenções. Um dos ternos da cidade, Moçambique Estrela Guia, localizado num bairro periférico da cidade, São Jorge, conseguiu aprovação de projetos culturais e recebeu verbas municipais, estaduais e federais. Outros ternos, como o Marinheiro de Nossa Senhora do Rosário e o terno de congado Azul de Maio, também obtiveram resposta positiva no Programa de Incentivo à Cultura, mas grande parte dos ternos não enviou projetos.
Esse exemplo cumpre a função de mostrar como, nesse movimento de apropriação da festa, principalmente pelos poderes públicos municipais, há um retorno por parte dos seus participantes que, astutamente, pressionam com novas demandas, aproveitando se do prestígio e da repercussão que eles próprios conquistaram ao longo de quase um século de existência e resistência. Nessa trajetória, enfrentaram e enfrentam a recusa de alguns vizinhos da Igreja à suas presenças e batuques, de outros moradores da cidade que não respeitam a passagem dos ternos e, por vezes, jogam água ou avançam com seus carros, as reduzidas subvenções do município para custeio parcial da festa, dentre outras dificuldades. Mas os sujeitos da festa persistem, fazendo se presentes nas ruas de Uberlândia. E os sons e batuques de congadeiros, moçambiqueiros, marujos e catupés, ao mesmo tempo em que se traduzem em incômodo para muitos, entoam um grito que ecoa na disputa por espaço e reconhecimento, como se dissesse: “estou aqui, sou negro e essa cidade também
287 Programa de governo. Principais realizações 2005 2008. Odelmo Leão. (Folheto distribuído durante a
me pertence!”. No enredo dessas trajetórias de vida, que passaram por embates diversos na experiência social, entrecruzando se aos interesses de grupos específicos, compreendo a maior notoriedade da festa da congada nas últimas décadas. Afinal, a congada se tornou um canal de comunicação da política institucional com parcelas do segmento negro local.
Nesses desdobramentos se verifica certo ofuscamento do carnaval pela congada, especialmente quando se trata de imagens de maior difusão social. Além disso, há uma discrepância no número de envolvidos, com maior aglomeração nos festejos congadeiros. No esforço por capturar a historicidade dessa mudança, no vai e vem das relações que constituíram o carnaval local nas décadas analisadas, constatei que, do ponto de vista dos poderes públicos, a proposta de tornar o carnaval uma festa tradicional da cidade e transformá la num evento comercial e turístico não deu certo.
Isso não se traduz em um atual desprezo de autoridades políticas para com o carnaval de rua da cidade, pois os seus participantes possuem, em certa medida, poder de barganha e negociação com os representantes dos poderes públicos, conforme mostrado na discussão realizada a partir das imagens do carnaval 2010 no início deste capítulo. Mas hoje o carnaval tem uma significação social diferente da congada, já que, comparativamente, aglomera menor número de pessoas, suscita poucos trabalhos de pesquisadores, educadores e produtores culturais, impedindo a circulação de outras imagens e representações acerca dessa prática que a distanciem do preconceito que freqüentemente a desqualifica entre os moradores da cidade.
Nesse viés, entendo que a forma como os costumes e práticas de determinada cultura são trazidos para o presente, como “tradição” ou como “uma das mais importantes festas populares da cidade”, revela construções feitas no interior de um processo de incorporação288, com os olhos voltados para interesses muitas vezes não coincidentes com os interesses dos praticantes. Essa incorporação de valores, de acordo com Williams, dá se através de outro processo, o de “tradição seletiva”. Segundo o autor,
o principal é sempre a seleção, o modo pelo qual, de um vasto campo de possibilidades do passado e do presente, certos significados e práticas são enfatizado e outros negligenciados e excluídos. Ainda mais importante,
288
alguns desses significados e práticas são reinterpretados, diluídos, ou colocados em formas que apóiam ou ao menos não contradizem outros elementos intrínsecos à cultura dominante e efetiva.289
O processo de apropriação não significa total dominação e controle de uma prática, mas uma forma de determinados grupos se beneficiarem dela e tentarem, por meio de sua força, amenizar as tensões sociais. Mas isso tem o seu reverso, pois, utilizando a maneira de agir de representantes da política institucional, homens e mulheres negros, que historicamente conquistaram esse espaço, reorganizam o jogo com novas demandas e negociações. Durante os festejos de 2010, circulou um abaixo assinado para reivindicar, à prefeitura de Uberlândia, a construção de uma sede para a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, onde se desenvolveria, entre outras atividades, as oficinas que o prefeito Odelmo capitalizou em campanha eleitoral como uma realização do seu primeiro mandato e que representam um dos muitos eventos e ações que os sujeitos da congada protagonizam o ano inteiro.
Então, analisar tais relações requer sensibilidade para interpretar os sentidos de suas teias complexas, cheias de reversos, ambivalências, emoções e (res)sentimentos que vão costurando as relações com diferentes linhas, com variadas cores que se entrelaçam, sendo muitas vezes difícil definir o(s) seu(s) desenho(s).
289
6
9
$ !
!
Figura 9: Folder do Iº Encontro Estadual da Consciência Negra realizado pelo Grucon. Uberlândia, ago./set. 2007. Acervo da pesquisadora.
Figura 10: Delegados eleitos para a II Conferência Estadual de Promoção da Igualdade Racial realizado em Belo Horizonte. Uberlândia, jun./2009. Retirado de: http://helifidelis.blogspot.com/2009/06/uberlandenses vao amanhecer na capital.html Acessado em 05/02/2011.