A análise das histórias abordadas nas “pegadinhas” exibidas semanas antes de o programa Tarde Quente sair do ar por determinação judicial possibilita algumas inferências sobre as mensagens veiculadas ao telespectador desta atração.
Em um primeiro momento, avalia-se a ausência nos quadros exibidos de compromissos com a ética e a moral, mas sim com a audiência. Produto da cultura de massa, a atração recorre a temáticas que transgridem os direitos humanos.
Exposta a estas mensagens sobre as minorias sociais, a exemplo dos homossexuais, mulheres, deficientes e idosos, a audiência do programa é conduzida a acreditar que tais atitudes de violência sejam tomadas como normais no cotidiano.
O problema fica mais sério quando se nota o horário das “pegadinhas”, consumidas principalmente por um público infanto-juvenil, muitos em fase de construção de personalidades e afirmação social.
Considerando que grande parte dos pais possivelmente esteja no trabalho no horário do final de tarde, infere-se que a TV funcione como se fosse a “babá eletrônica” para inúmeras crianças e adolescentes. Destituído de opções de brincadeiras fora de casa, esse público torna-se um telespectador potencial de tais programas.
Ainda que sirvam para rir e distrair, como argumenta o apresentador, as “pegadinhas” criam conflitos que geram a impressão de que as relações apresentadas sejam naturais, com atitudes desrespeitosas e uso de violência. Isto nos remete à manutenção do conformismo social como uma das funções da mídia no âmbito da cultura de massa. (LIMA, 1990, p. 116).
Segundo Robert Merton, os assuntos são tematizados de maneira a não se chocarem com o lucro, pilar do sistema capitalista. Logo, seguem as orientações das equipes de produtores.
Se o produtor achar que este tema é seguro, que não antagonizará nenhuma parte substancial de sua platéia poderá concordar; mas à primeira indicação de que é um tema perigoso, pois poderá afastar consumidores potenciais – o recusará, ou logo abandonará o experimento. Os objetivos sociais são consistentemente expulsos dos mass media ao entrarem em conflito com sua rentabilidade. (LIMA, 1990, p.117).
A banalização e os casos triviais são apresentados de forma a não exigirem qualquer posição crítica por parte de quem assiste ao programa, mas apenas a diversão com o grotesco vivenciado pelos outros, no caso em questão as vítimas das armações. Para Sodré, (1978, p. 38), essa característica sintomática da cultura de massa brasileira remete a um “ethos” baseado na cultura oral e marcado pelas influências escatológicas da tradição popular.
Comuns nos programas “mundo cão”, abordados no Capítulo 2, este fascínio pelo extraordinário e pela aberração também povoa o Tarde Quente.
O grotesco parece ser, até o momento, a categoria estética mais apropriada para a apreensão desse ethos escatológico da cultura de massa nacional. Realmente, o fabuloso, o aberrante o macabro, o demente – enfim, tudo que à primeira vista se localiza numa ordem inacessível à “normalidade” humana – encaixam-se na estrutura do grotesco. (SODRÉ, 1978, p. 38).
Por essa forma, a “estranheza” que caracteriza as temáticas grotescas das “pegadinhas” veiculadas aproxima-as do cômico, do caricatural e do kitsch. Segundo Sodré, “em resumo, o grotesco é o mundo distanciado, daí a sua afinação com o estranho e o exótico”. (1978, p. 39).
As situações impensáveis e criadas pela produção do programa sobre fatos banais evidenciam este aspecto da cultura de massa brasileira. Em contato com o pensamento latino- americano em comunicação, esses produtos culturais trazem interpretações tomadas como “satisfatórias” para os diferentes grupos de consumidores, sem problematizar os fatos.
Para a mídia e para as novas tecnologias recreativas não interessam as tradições senão como referência para reforçar o contato simultâneo entre emissores e receptores, não lhes importa a melhoria histórica, mas a participação plena e fugaz no que está acontecendo. (CANCLINI, 2001, p. 363).
Neste ponto de vista, a cultura industrial massiva oferece para os habitantes das sociedades pós-modernas experimentações fragmentadas, híbridas. Propostas sem conexão com a realidade que geram normas e situações-modelo para suas audiências.
(...) Dos modelos de astros do cinema aos protagonistas dos romances de amor, até os programas de TV para a mulher, a cultura de massa, o mais das vezes, representa e propõe situações humanas sem conexão alguma com as situações dos consumidores, e que, todavia, se transformam para eles em situações-modelo. (ECO, 1987, p.25).
Por último, as “pegadinhas”, em seu conjunto, não apresentam condutas pró-sociais, isto é, ações positivas que se revertem em benefícios para os participantes do programa e para a sociedade. Entre os exemplos, faltam nos conteúdos: altruísmo, cooperação, adesão a normas, ajuda, expressão positiva de sentimentos, controle de impulsos e respeito ao próximo. Por se tratar de um programa voltado para a massa em um país no qual o acesso à educação formal é deficiente, depreende-se que a atribuição de identidades e a violência simbólica presentes na atração podem contribuir para o conformismo e reforço das condições de opressão das minorias sociais.
Robert Merton, da linha funcionalista, destaca o fato de a cultura de massa trazer certo conformismo para seus públicos, afastando-os das esferas de mobilização. Uma observação
rápida do Tarde Quente conduz a esta interpretação, uma vez que o programa recorre ao exótico, ao outro, simplesmente para expressar seus aspectos grotescos e não para propor soluções de problemas.
Na condição de um apresentador de um programa de TV, cujo serviço possui uma dimensão pública, faz-se o inverso: ao invés de passar informações de apreço aos vários segmentos componentes da sociedade, usa-se uma estratégia recorrente para descaracterizá- los, o que reforça uma carga negativa e depreciativa em relação a esses grupos. Não se preserva a integridade e a individualidade das pessoas, tendo em vista que elas são ridicularizadas verbalmente e de forma gratuita.
Ao se aproximarem da vulgaridade e de um rebaixamento de qualquer atribuição educativa, tais programas enfatizam o grotesco, o extraordinário, o bizarro e o exótico. Não se trata de um humor simples, mas de uma ridicularização da própria sociedade, pois as pessoas alvo das brincadeiras fazem parte da nação brasileira e estão inseridas neste contexto.
4 A CAMPANHA “QUEM FINANCIA A BAIXARIA É CONTRA A CIDADANIA”