4. Results
4.2. Factor analysis
As tentativas de desenvolvimento de um modelo de ajustamento abordaram também as transformações pessoais ocorridas durante o período da designação internacional. Essas transformações implicariam em mudanças comportamentais e supostamente em mudanças na identidade dos expatriados. Esta seção apresenta as pesquisas que abordam a questão da identidade do expatriado em missões internacionais.
Em seu modelo de expatriação, Sanches, Spector e Cooper (2000) sugerem inicialmente como saída para o expatriado, o desenvolvimento de uma abordagem multicultural que passa a amortecer o estresse oriundo de uma designação internacional. Embora esses autores não se aprofundem no detalhamento dessa abordagem, vale ressaltar que, em geral, o multiculturalismo diz respeito ao conhecimento e o entendimento das diferenças culturais e a apreciação da diversidade através do respeito das identidades dos grupos minoritários, sua cultura e direitos (VERKUYTEN, 2006).
O modelo de expatriação de Sanches, Spector e Cooper (2000), por exemplo, afirma que o expatriado passará por uma profunda transformação pessoal e que ele deverá ter essa abertura se quiser ser bem sucedido em sua expatriação.
De acordo com esses autores, os executivos expatriados devem desenvolver mecanismos para lidar com o paradoxo de se viver com a dualidade em suas identificações, com a cultura do país hospedeiro e do país de origem. A expatriação para esses autores demanda reações adaptativas por parte do executivo, pois ele passa a atuar sobre duas culturas distintas.
Os reflexos dessa pesquisa podem ser vistos na parte da seleção de candidatos à expatriação, que agora passa a se basear não apenas em sua competência técnica, mas sim em seu perfil de abertura para contatos com novas culturas. “O ajustamento bem sucedido implica em uma identificação final e
intermediária com as culturas hospedeira e original.” (SANCHES; SPECTOR; COOPER, 2000, p.101, tradução nossa).
Os autores defendem em suas conclusões que o Expatriado Bicultural representa o modelo ideal de identificação cultural e ajustamento, resultando assim em efetividade na expatriação. O Expatriado Bicultural está sujeito a menos estresse pois já venceu o choque cultural e se ajustou perfeitamente ao ambiente diferente da sua cultura de origem (SANCHES; SPECTOR; COOPER, 2000).
A crise de identidade seria o principal fator de estresse na experiência de expatriação pela qual passam os executivos. De acordo com os autores, os expatriados se defrontam com situações onde precisam modificar e adaptar seus comportamentos e mesmo introjetar valores, hábitos e códigos do novo ambiente cultural a ponto de modificar até mesmo o seu estilo de gestão quando necessário. Aos poucos, o executivo pode sentir que está excluindo o seu lado cultural original a favor do ajustamento e isso gera uma tensão interna. Para vencer esta fase, o expatriado deverá dividir a sua identidade de modo a incorporar a cultura local, sem danificar a essência de sua identidade original. Trata-se de um expatriado que venceu o medo de perder a sua identidade e desenvolveu uma habilididade para aprimorar uma identidade que lhe permita ter uma proficiência em duas culturas.
As razões para os altos níveis de falha em expatriação dos norte-americanos (cerca de 40%), defendem os autores, está justamente na inabilidade de desenvolver essa identidade bicultural. Essa inabilidade, afirmam os autores, surge da não aceitação de profundas tranformações pessoais advindas de uma designação internacional devido ao medo de perda de identidade e da incapacidade em lidar com vários fatores de estresse.
Vale ressaltar que Sanches, Spector e Cooper (2000) tratam o conceito de identidade como algo objetivo, passível de aparente manipulação ou mesmo treinamento. De acordo com Pizzinato e Sarriera (2008), a identidade pode ser entendida como um espaço psicossocial de pertencimento, que supõe alguns traços significativos e uma consciência elaborada de compartilhar um espaço vital. A identidade, de acordo com esses autores, trata-se de como a pessoa pensa sobre si mesma em relação ao meio social e tudo isso é influenciado também pela infância e pelas condições sociais da construção de si mesmo ao longo de todo o processo evolutivo. Aqui cabe a ressalva de que identidade é um conceito amplamente estudado, mas que para o contexto desta pesquisa, a abordagem de Pizzinato e
Sarriera (2008) contribui de modo significativo, pois insere o indivíduo em um contexto, ressaltando o papel deste na construção de sua identidade. Observa-se assim que não se consegue desenvolver a identidade “bicultural” tão facilmente como sugerem Sanches, Spector e Cooper (2000). Pizzinato e Sarriera (2008) também esclarecem que a “identidade bicultural” é originalmente um conceito aplicado aos descendentes de imigrantes ou como se posicionam as crianças imigrantes no cruzamento bicultural que vivenciam. Paiva (2007) também mostra que a identidade para ser entendida precisa levar em consideração os elementos de cognição, afeto e ação da pessoa como sua adesão ao grupo. Ao afirmar que o expatriado pode adquirir uma identidade bicultural, os autores parecem não estar levando em consideração estas definições.
Apesar do modelo bicultural de executivo ter sido apresentado como a solução para o problema do ajustamento, Freitas (2000) esclarece que a vivência em outro país não é definida apenas por elementos cognitivos, ou seja, conhecer sobre uma outra cultura não habilita o detentor desse conhecimento a bem vivê-la, pois o expatriado é alguém que diferentemente do turista, deve enfrentar e reacomodar psicologicamente os seus desconfortos e frustrações. Pelo fato de não existir um modelo de homem global, torna-se necessário nesse processo de vivência, de acordo com a autora, o apoio da empresa para desenvolver um ambiente mais acolhedor, que facilite o aproveitamento e a expressão das diferenças.
A proposta de um modelo bicultural de expatriado esbarra na necessidade de algo que a literatura sobre expatriação considera mais importante, que são as políticas de AIRH voltadas à expatriação.