Clara pertencia a uma família nobre de Assis de grande prestígio, filha de Favarone de Offredúccio e Madona Hortolana, o pai dedicava-se ao governo dos seus territórios enquanto sua mãe tomava uma vida mais devota e corajosa, algo que viria a influenciar a filha, Hortolana teria visitado os lugares santos em Jerusalém e as basílicas de Roma. Clara também passou pelos tempos em que Assis e o seu povo expulsaram a nobreza da cidade, incluindo também a sua família que ficou a perder com a ruína das suas propriedades e tiveram de pedir refúgio a Perúsia. Este acontecimento deixou-lhe uma marca na sua alma e memória sobre um tempo de incerteza, miséria e desgraça, mesmo que todos os bens e propriedades sido retornado à posse da sua família após o seu retorno a Assis, Clara sentia as suas emoções e piedade a exaltarem-se, levando a uma vontade de realizar a prática de atos cristãos de generosidade. Muitos foram atraídos a tal mulher de virtude e piedade, todos com oferendas e propostas de casamento, mas só um homem lhe chamou a atenção e a comoveu, e só ele viria a fornecer o caminho da paz e servidão do Senhor e da sua vontade.135
Pouca é a informação em relação ao primeiro encontro realizado entre Francisco e Clara, sabe-se que ambos iniciaram a sua amizade baseada na devoção e adoração que ambos partilhavam pelo Senhor numa tremenda alegria que lhes enchera o coração, mas afirma-se que Clara ouviu sobre Francisco após a realização da renúncia dos bens materiais que ele realizou no julgamento realizado pela Comuna de Assis como o jovem de um mercador rico que abdicou de tudo, este gesto cativou o coração de Clara. Tal como Francisco, houve um ponto em que sentiu a necessidade de realizar os atos de caridade em nome do Senhor e do bem-estar dos desafortunados, ausentando-se de alguns banquetes e outras celebrações para oferecer esmola e alegrar os pobres e os doentes, nela refletia-se uma alma caridosa. Muitas vezes ela
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viu Francisco a realizar os seus sermões, e até a um ponto ela veio a ter encontros em segredo com o pobre de Assis, este segredo deve-se à necessidade de os pais não saberem pela razão de não aprovarem este comportamento, nem companhia. Francisco falava-lhe sobre Jesus Cristo e a sua vontade e Clara ouvia-o, cativada pela sua palavra. Sempre o viu a saudar toda a gente pelos caminhos por onde caminhava, contagiando todos em redor com a alegria do seu espírito, Clara decidiu então entregar-se à vida ao serviço da pobreza e sujeitar-se à santa virgindade.136
E foi em 1212, durante uma noite que ela saiu do palácio da sua família em direção a Porciúncula para vir ao encontro dos frades que lá se encontravam reunidos na ermida. Ela deixou as suas vestes de nobre para se submeter à pobreza, tremendo de uma imensa alegria que lhe enchia o coração, Francisco veste-a da mesma forma que os outros frades, uma túnica com uma corda a servir como um cinto, cortando-lhe as tranças fartas e põe um véu na sua cabeça.
Na cidade dava-se a falta por Clara, a notícia do seu desaparecimento corria pela cidade. Quando Favarone soube que a filha entendia aderir à vida religiosa e a viver na pobreza, ele enviou cavaleiros para o mosteiro de S. Paulo de Bastia onde os frades menores teriam levado Clara para finalizar o juramento como uma esposa de Deus. Os cavaleiros não atreviam a tocar, pois ela, no momento que chegaram, já tinha concluído a sua iniciação da sua nova vida, e tocar nela poderiam levar à excomunhão, eles ameaçaram e tentaram convencer Clara a abandonar o mosteiro, mas ela não se moveu das suas intenções de servir o Senhor, deixando nenhuma outra opção, os cavaleiros voltam para Assis.137
E com este ato, forma-se a Ordem das Clarissas, o ramo feminino dos Menores que se fixou no Convento de S. Damião, e até mesmo antes de um mês passar, a ordem veio a encontrar-se em crescimento. A maior parte delas vinham da nobreza, Francisco serviu como um mentor a ensinar-lhes o Evangelho e Santa Clara organizava as lições e até veio a compor a Regra para as suas irmãs da ordem. Até aos seus últimos dias, Francisco auxiliou as clarissas, a sua última visita foi já depois da sua morte: o seu corpo foi levado a S. Damião para a despedida de Clara.
136 Cf. Lopes, O Poverello – S. Francisco de Assis, págs. 221-238. 137 Cf. Lopes, O Poverello – S. Francisco de Assis, págs. 221-238.
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Em relação ao modo de viver deste ramo feminino, não se sabe muito, para além das orações ou trabalho, mas tal como os frades, dedicaram-se à pobreza que encaminhava a alma para a verdadeira liberdade e alegria, distribuindo todos os bens para se juntarem a ela nesta vida que as espera. Afirma-se que Francisco via em Clara o rosto da madona Pobreza devido à sua devoção e espírito gentil, e durante quarenta anos viveu de tal forma seguindo o Evangelho.
As exigências da pobreza na ordem eram elevadas, que até o papa Gregório IX em 1228 pediu que Santa Clara as mitigasse, oferecendo-lhes rendas para o sustento do seu mosteiro, mas a Sorella Clara138 recusa formalmente tais cuidados, afirmando
que só viria a aproximar-se do pecado.139
Muitos foram os feitos realizados por Clara, o que teve maior relevância ocorreu em setembro de 1240 quando um exército às ordens do Imperador se aproxima de Assis, subindo os muros do mosteiro, a Santa levanta-se e exige que as irmãs tragam o Sacramento enquanto ela implora «Guarda, Senhor, este pequenino rebanho que os lobos assaltam, pois eu não o posso já defender.»140 O perigo sobressaltava, mas Cristo
responde às suas preces «Sossega, filha, que sempre o guardarei.»141 E foi neste
momento que os assaltantes fogem, a causas para tal ocorrência sendo desconhecidas, um ano depois o mesmos exércitos continuavam o cerco sobre Assis, as irmãs, em jejum, imploram a Deus para que concede-se a sua proteção sobre a cidade, e novamente, estes retiram-se.
A 11 de Agosto de 1252, Santa Clara falece, os seus últimos momentos recheados de louvores e cânticos ao Senhor que lhe abençoara a sua vida, entregando a sua alma para o Reino de Deus e juntar-se a S. Francisco.142
138 O termo “sorella” significa irmã em italiano.
139 Cf. Lopes, O Poverello – S. Francisco de Assis, págs. 221-238. 140 Lopes, O Poverello – S. Francisco de Assis, pág.237.
141 Lopes, O Poverello – S. Francisco de Assis, pág.237.
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