“Para o aluno surdo [...] o caminho da aprendizagem necessariamente será visual, daí a importância de os educadores compreenderem mais sobre o poder constitutivo das imagens, tanto no sentido de ler imagens como de produzi-las”. ( REILY, 2003, p.169). Farias (2006) argumenta que surdos compartilham, visualmente, experiências de mundo por meio de imagens e movimentos que os cercam. Concordamos e entendemos, a partir desta premissa, a necessidade específica de esta comunidade atingir o uso social da linguagem imagética: compartilhar leituras e produções de imagens reconhecendo objetivos e características (gramaticais e sintáticas) envolvidas neste processo. De acordo com Reily (2003), as seguintes habilidades estão envolvidas na leitura e produção de imagens: construção de significados, exercício da imaginação (pensamento abstrato), coesão e coerência do pensamento, percepção de sequencia lógica dos fatos, percepção da intertextualidade (imagens remetem a outras já conhecidas, criando uma rede de conexões). Ao perceber este processo, o leitor tem a oportunidade de identificar a função intertextual na linguagem visual. Lendo imagens, tornamo-nos mais capazes, então, na leitura do mundo, pois esta nos requer semelhante desempenho.
Outro aspecto relevante quanto ao letramento visual de surdos diz respeito à cultura. “Pessoas surdas fazem parte de um grupo visual, de uma comunidade surda, que pode se estender além da esfera nacional, a nível mundial” (SUTTON-SPENCE; QUADROS, 2006, p. 111). O conhecimento, neste caso, é transmitido visualmente (SUTTON-SPENCE; QUADROS, 2006), portanto, consideramos que conhecer os elementos envolvidos no processo de letramento visual é fundamental para que educadores de surdos tornem-se capazes de estimulá-los na compreensão do mundo imagético, tão próximo e atraente a todos os envolvidos no silencioso e rico universo surdo.
Aceitamos o desafio de buscar rota alternativa para o processo de comunicação do olhar que ouve, neste percurso, encontramos a linguagem da fotografia. Elegemos a fotografia entre as pontes para o letramento visual das pessoas surdas. Sim, existem outras como as línguas de sinais. Medeiros et al (2010) nos recordam que estas acontecem por meio de gestos no espaço, enquanto lemos os sinais no corpo do outro; ou, ainda, impressos, quando significamos imagens e as contextualizamos, de modo que as línguas de sinais estimulam o letramento visual.
Nesse sentido, Santaella (2012, p. 11) menciona a existência de um “leitor-espectador
da imagem em movimento, no cinema, televisão e vídeo”. Concluímos que, se existem
visual. A autora afirma também a existência de leitores na linguagem das artes plásticas e, portanto, entendemos as artes plásticas como pontes para o letramento visual. Finalmente, esta estudiosa da linguagem confirma a preferência de um grupo de leitores pela linguagem fotográfica.
Nossa opção por envolver-nos com esta para impulsionar o letramento visual dos surdos fundamenta-se em decorrência da percepção de que a foto é um referente, afirma a existência. Parece estar sempre a dizer: é isto (BARTHES, 2012). Assim, a fotografia se constitui de uma referência real. De outra forma, Tiburi e Achutti (2012, p. 53) afirmam que “a fotografia guarda, porta na sua essência, uma capacidade discursiva”. Os autores definem discurso como gesto de convencimento, ainda que não autoritário.
Entendemos, portanto, que a fotografia é capaz de representar a realidade sob o ponto de vista do autor da imagem e, desse modo, atua como veículo para a elaboração do texto elaborado por ele.
Assim, pensamos que, ao construir um discurso e elaborá-lo por meio da linguagem fotográfica, vivenciamos a escrita e leitura do mundo, necessidade básica humana, mas, frequentemente, inacessível às pessoas surdas, como já mencionamos anteriormente neste texto.
Coadunamos, ainda, com Gonçalves (2013, p. 31) ao conceituar a fotografia: “[...] um
texto híbrido que ao emudecer as palavras, desafia a construção do seu significado, exigindo a „fabricação‟ de um texto relacional entre imagem e palavra”. Deduzimos, por conseguinte, que esta se apresenta como linguagem adequada para estimular tanto a compreensão, quanto a criação de significados na produção e leitura de textos (escritos, fotográficos, gestuais e outros) por autores e leitores surdos. Nessa perspectiva, vejamos o que nos diz o leitor surdo Marte (membro do grupo participante deste estudo): “No momento em que eu olho, eu me
acalmo. Parece que posso usar as informações. Eu associo e consigo responder, interagir”. (Entrevista nos Apêndices). Nossa percepção é de que o insumo deste jovem para
a compreensão de textos é o olhar. De acordo com Salkeld (2014, p. 45), a abordagem semiótica propõe que “tratemos tudo como um texto a ser lido”. Acordamos com este autor e entendemos que, de fato, para as pessoas surdas, o olhar configura-se como recurso para a compreensão na leitura dos textos em que se constitui o mundo. Portanto, a seguir, voltamos nosso olhar sobre a linguagem fotográfica, essencialmente relacionada ao olhar, posto que “qualquer coisa que se diga sobre fotografia tem necessariamente relação com o ato de olhar” (SALKELD, 2004, p. 106) e a comunidade surda (focalizada em nosso estudo) faz uso da linguagem do olhar de forma essencial para se comunicar.
Sintetizando...
Apresentamos, abaixo, o pensamento dos principais autores integrantes desta seção do nosso estudo e organizamos em um quadro:
Quadro 2 – Letramento(s) e surdez: os múltiplos olhares
Autor Conceito
Soares (1998) Uso social da leitura e escrita; inserção na cultura.
Street (1984) Letramento(s) – diversidade de linguagens e escrita e
multiplicidade de níveis de habilidades, conhecimentos e crenças, no campo de cada língua.
Rojo e Moura (2012) Multiplicidade cultural, semiótica e textual (novas formas
pelas quais as populações se informam e se comunicam).
Gesueli (2003) Surdos significam a escrita a partir do seu aspecto visual
Reily (2003) Necessidade da sistematização do letramento visual para os
surdos
Guimarães (2010) Letramento na escrita da luz (linguagem fotográfica)
Fonte: A autora (2015)
Vislumbramos a mutação sofrida pelo processo de aquisição da escrita na atualidade e, hoje, concebemos a(s) escrita(s) da Língua, do corpo (dança), da luz (fotografia) e outras mais... Desse modo, identificamos a relevância de se refletir a respeito da diversidade de linguagens e culturas que se aproximam de nós, primordialmente por meio das novas tecnologias. Logo, configura-se como urgente a renovação das práticas relativas ao processo de letramento. Focalizando este processo no âmbito da surdez, consideramos a demanda da sistematização do letramento visual para a população surda. Assim, apontamos o uso social da escrita da luz para os surdos como forma de promover a leitura e a compreensão da cena contemporânea no âmbito desta comunidade.
2.3 SOBRE FOTOGRAFIA E SEUS ARRABALDES
Louca ou séria? A fotografia pode ser ambas as coisas: séria, se o seu realismo permanecer relativo, temperada por hábitos estéticos ou empíricos (folhear uma revista
no cabeleireiro, no dentista); louca se esse realismo for absoluto e, se assim se pode dizer original, fazendo regressar à consciência amorosa e assustada a própria marca do Tempo: movimento propriamente revulsivo, que altera o curso da coisa, e que chamarei para concluir o êxtase fotográfico”. (BARTHES, 2012, p. 130). Como surgiu a fotografia? O que significa? Como se constitui? Quais são as suas funções? Em que direção caminha? Quais são as suas possibilidades como ferramenta de apoio na formação de leitores surdos? Muitas são as interrogações... Focalizamos estas ao construir este capítulo do nosso estudo, pois as consideramos significativas para nos conduzir a algumas respostas e várias outras indagações a respeito do tema por nós abordado nesta pesquisa. Então, vamos nos envolver com cada uma das questões acima expostas à luz do
pensamento daqueles que nos referenciam teoricamente.10