É nossa motivação pessoal conhecer algumas facetas do trabalho do leitor de PLE, nomeadamente o do Camões, I.P., pois, da nossa experiência, observámos que este desenvolve, nas universidades de acolhimento, um alargado número de tarefas.
O Camões, I.P., tem atualmente quarenta e quatro leitores (Camões, 2014, p. 9) em sessenta e um países (Camões, I.P., 2015a).
De uma forma muito resumida, e sem pretendermos problematizar os vários papéis que lhe são atribuídos, o leitor do Camões, I.P. é um professor de Português L2 ou LE em universidades estrangeiras ao qual compete igualmente promover a cultura portuguesa na comunidade ou universidades com as quais colabora (Camões, I.P., 2015b).
Esta duplicação de encargos faz com que, por um lado, o leitor seja um professor, sobre o qual recaem tarefas académicas (reuniões, relatórios, investigação, preparação e atividade letiva e atendimento aos estudantes), por outro, seja um dinamizador cultural das atividades do(s) seu(s) leitorado(s) e das atividades da Embaixada (o leitor exerce funções de “adido cultural” de Embaixada em países em que não existe conselheiro, em capitais onde existe Embaixada). O leitor, muitas vezes, dirige os Centro de Língua Portuguesa da rede do Camões, quer dizer que a coordenação/gestão do espaço, das atividades letivas e das atividades culturais estarão a seu cargo. No plano europeu, o leitor, enquanto coordenador de um “instituto” que promove a língua e cultura no país onde reside, é chamado ainda a atividades de representação e planeamento de atividades culturais, por exemplo no seio da rede EUNIC . Ademais, a 30 atividade de programação cultural requer ainda que este estabeleça consecutivamente relações com vários parceiros do plano nacional e internacional com instituições relacionadas com o panorama artístico. Esta “duplicação” de funções encontra-se legalmente descrita na legislação que prevê as tarefas desse funcionário polivalente, nomeadamente oDecreto Lei nº 234/2012 de 30 de outubro do Ministério dos Negócios Estrangeiros.
Exclusivamente no plano académico e a partir do nosso contacto no terreno, ficámos com a perceção de que uma das grandes forças do leitor, para além dos conhecimentos filológicos, está relacionada com o input decorrente da sua “qualidade de nativo”. Em entrevista à chefe do
EUNIC é acrónimo da rede da Comissão Europeia conhecida como European Union National Institutes 30
Departamento de Estudos Luso-brasileiros da Universidade Carolina, a Professora Doutora Šárka Grauová compara o leitor a uma “vitrine” da cultura portuguesa, por este ser “muitas vezes o primeiro português com o qual os alunos têm um contacto pessoal”31
Muitas vezes, o leitor é o único falante nativo que os alunos e os seus colegas professores têm a possibilidade de contactar, sobretudo quando falamos de cidades mais pequenas, como o caso de Olomouc, na República Checa, em que, recorrentemente, ouvimos dos alunos e docentes opiniões sobre a dificuldade em conversar com um nativo . 32
Estamos em crer que o leitor é um mediador cultural entre ambos os países em questão e que este papel é muito relevante ao longo da sua missão académica. Por exemplo, das cinco universidades analisadas no capítulo anterior, em quatro delas (Universidade Carolina, Universidade de Salamanca e Universidades de Sófia e Veliko Târnovo) as disciplinas relacionadas com a cultura e civilização são lecionadas por docentes portugueses.
No corrente ano letivo, tivemos a oportunidade de lecionar uma destas disciplinas, Cultura Portuguesa Contemporânea, na Universidade Carolina. Aqui seria interessante observar os tópicos que os alunos estavam mais interessados em debater quando foram chamados a sugerir temas de trabalho ao longo do programa. Das suas opções, os discentes estavam mais curiosos em conhecer aspetos da cultura relacionados com hábitos, civilização e formas de pensar dos portugueses, do que com a cultura com C maiúsculo , input traduzido, acreditamos, 33 pela “qualidade de nativo”, no sentido em que, provavelmente, será mais simples para o aluno ter um maior conhecimento sobre, por exemplo, a música portuguesa, através de vários meios, do que de algumas tradições, gastronomia, sobre o modo como os cidadãos se relacionam com a cultura ou curiosidades sobre Portugal, tópicos chamados a debate por estes.
Na nossa visão, este docente funciona como charneira entre culturas (em atividades extracurriculares de âmbito académico), entre cultura e língua (enquanto professor através do input descrito acima) e entre língua, cultura e diplomacia (enquanto áreas vitais na prossecução da sua atividade).
Entrevista disponível para consulta no Anexo 2. 31
Segundo os dados do setor consular da Embaixada de Portugal na República Checa, referentes ao 32
último semestre do ano civil de 2014, residiam em Olomouc 4 portugueses. Em Praga, no mesmo período, o número de portugueses registados era de 304. Segundo informações desta Embaixada, acredita-se que este número seja superior, abarcando parte da comunidade portuguesa que não se encontra registada. Contudo, Olomouc apresenta um maior número de alunos de Português (117) em comparação com Praga (76), segundo dados da Universidade Carolina, referentes ao ano letivo 2014/2015.
O professor norte-americano Milton J. Bennett distingue cultura com C maiúsculo e minúsculo. Para 33
este investigador, da Cultura ou cultura objetiva fazem parte as artes, música, drama, literatura ou dança, relacionadas com instituições culturais. Ao passo que cultura, ou cultura subjetiva, são as características psicológicas de um determinado grupo, ou seja, mais o seu pensamento e comportamento diário do que as instituições por ele criadas. (Bennett, 1998, p.2)
Parece-nos claro que há, na atividade do leitor do Camões, I.P., um ponto de encontro constante: aquele que une a língua (enquanto docente) e a cultura (enquanto programador e conselheiro cultural). O mesmo acontece na sala de aula onde desempenha, ao mesmo tempo o papel de professor de filologia e de mediador entre duas ou mais nações. Esta “dualidade” de funções faz do leitor uma “criatura polimórfica”, como refere Cunha (2014, p. 39), em relatório de mestrado no qual procura precisamente refletir sobre o papel do leitor do Camões, I.P.
Como pretendíamos aprofundar o nosso conhecimento sobre algumas facetas da atividade profissional do leitor, procurámos obter mais algumas informações junto da Prof.ª Doutora Grauová, Chefe do Departamento de Estudos Luso-brasileiros da Faculdade de Letras da Universidade Carolina, em Praga, que passamos a descrever nos próximos parágrafos.
Na sequência da entrevista, a responsável pelo Departamento de Estudos Luso-brasileiros referia que o professor português traz uma ampla gama de mais-valias ao Departamento. Estas relacionam-se essencialmente com a “qualidade” de falante nativo e com a ligação à cultura portuguesa, como já tínhamos também referido. Mas não se resumem a estas. O apoio institucional, a “perspetiva diferente do modo de funcionar do Departamento e das atividades por ele desenvolvidas” e o “enriquecimento do leque de perspetivas sobre literatura e cultura portuguesas” são alguns dos aspetos que considera mais positivos na atuação do leitor na universidade.
A professora considera que o leitor deve ir além dos ensinos meramente técnicos e que, nos dias de hoje, “o contato mais pessoal e aberto é uma contribuição importante para manter os alunos motivados, tendo os alunos motivados um desempenho maior”.
Contudo, a Doutora Grauová não considera que o leitor seja chamado ao Departamento sobretudo para servir de ponte cultural/civilizacional. Segundo as suas palavras, este desenvolve uma “ampla gama de atividades”, considerando, por exemplo, a sua atividade pedagógica de suma importância, devido à inestimável “competência de falante nativo, tanto no que concerne à língua falada, quanto estilística e linguagens especiais”.
Concluímos que o leitor atua sob um vasto leque de funções, as quais têm características bem distintas (por exemplo como professor e “adido cultural”). Veja-se o rigor científico exigido para lecionar a alunos de diferentes graus de ensino em Universidades tendo a seu cargo, simultaneamente, a representação educativa e cultural nacional em território estrangeiro, ao mesmo tempo que assume a gestão de espaços, infraestruturas e recursos humanos. Desta forma, acreditamos que o leitor deve ser um agente com um alargado número de competências e, ao mesmo tempo, dotado de versatilidade, agindo de acordo com o que é esperado nos diversos palcos em que atua.