Tomemos agora como objeto de análise as obras poéticas dos verde-amarelos Menotti e Cassiano publicadas pela “série novíssima”.
Em Chuva de Pedra (1925)189, de Menotti Del Picchia, apesar de o autor pretender
uma mudança mais radical em termos formais (afirma ser este seu “primeiro livro de versos”, enquanto os anteriores seriam “poemas”, com “estrutura traçada sobre plano premeditado”), repete-se o mesmo artifício panteísta ao qual o autor estava constantemente associado no período anterior: mãos de nuvens que quebram pedaços de gelo, riachos que correm com seus pés invisíveis, roupas que dançam em fila. O “eu/alma” surge como metáfora da fumaça que voa, do coqueiro ansioso, “a esteira de prata no espelho dos rios”. Temáticas tidas como tipicamente brasileiras são introduzidas no livro “de versos”.
Em “Meus heróis”, Menotti expõe a transposição sofrida por figuras clássicas gregas para um cenário de realidade nacional em seu próprio imaginário, mostrando o contraste entre o mundo clássico e suas vivências em paisagem brasileira:
189 O exemplar de Mário de Andrade na coleção do IEB contém a dedicatória de Menotti ao autor, registrando a
forte presença do neo-indianismo a que se inclinarão os verde-amarelos: “Ao Caríssimo Mário de Andrade – um dos caciques de nossa taba – com um abraço do Menotti. S.Paulo, 14-12-1925.” O livro propriamente dito é uma oferenda à famosa pianista Antonietta Rudge Miller, amante de Menotti, com quem o autor manterá o romance de toda uma vida: “Este livro, engendrou-o tua genialidade. A poesia que o anima fluiu do teu espírito único. É tua música encarnada no meu verbo. Tu foste a artista, eu o artífice paciente. Ao teu gênio, ao teu coração irmão e amigo, dedico religiosamente”. Os dois amantes só se casarão oficialmente em 1968, após a morte da primeira esposa de Menotti, D. Pitutica, poucos meses antes. Menotti contava então 76 anos, e Antonieta Muller, 82 anos. Antonieta ficara viúva em 1953 do primeiro marido, Charles Müller. Menotti foi “divorcista” durante todo esse período, defendendo na imprensa ardorosamente a causa. Cassiano Ricardo e sua terceira esposa, Maria de Lourdes Fonseca Ricardo, foram padrinhos do casamento de Menotti e Antonieta.
quando fitava o truculento Aquiles, via, na memória, a errante estátua eqüestre do lendário Dente de Ouro
montado no seu redamão de narinas fumegantes... Quando pensava em Ulisses,
seguia um bando de ciganos [...]. (1925:13)
Esse mesmo movimento se apresentará no poema “Meus Deuses”, no qual os deuses latinos trazidos pelos pais de Menotti, “sátiros caprípedes”, “lindas sereias”, “níveas ninfas” são transplantados para a nova pátria, onde a Mãe D’água “sabia bruxedos tão bem como as Circes homéricas”. No final do poema, os deuses importados são expulsos:
Mas os sacis-pererê, ciumentos e ferozes morderam o pescoço dos centauros e enxotaram da mata os faunos forasteiros. O caapora espantou com a fumaça
do seu anestesiante cachimbo os deuses emigrados...
E só ficaram os manitós selvagens.
E eu me prosterno aos pés dos manipanços! (1925: 15,16).
Na paisagem urbana, Menotti descreve becos povoados por mulheres “endomingadas”, homens fumadores de cachimbo e gramofones loucos que parecem roucos. O amor pelo corpo da cigana, comparado a uma fruta tropical, enquanto o pensamento caminha até o convés dos navios “para ir buscar os beijos falsos das francesas” são imagens que retratam o jogo entre elementos tomados como nacionais em contraste com os estrangeiros nos poemas do autor.
A saudade surge como “doença da raça” (1925:71), o espelho como um “retângulo de luar”. No charco, “os grilos músicos” juntam-se ao “jazz-band” dos sapos para uma ópera futurista.
No “Jardim Tropical” (1925:31), rezam lírios de mãos postas, cravos deixam escorrer sangue das pétalas, papoulas tornam-se arcebispos. É a humanização das flores, a vivificação das coisas e animais, a mesma transposição empreendida em “O Aranhol” (1925:33) e “O que dizem as cousas” (1925:43). As metáforas que relacionam mundo natural
e corpo humano marcam os poemas de estréia de Menotti Del Picchia na fase nacionalista. A temática das raças aparece também nos poemas, mesmo naqueles que tratam da paisagem urbana de São Paulo ou da Baía da Guanabara, no Rio de Janeiro, também transformada em imagem poética antropomórfica.
Jardim da Luz. Uma sabrada de sol faísca sobre o casco de um bombeiro que apaga o incêndio tentalico do olhar de uma mucama de azeviche
negra e bela como um bárbaro fetiche. (1925:57)
Ou:
A Urca taciturna anacoreta resiste à tentação das nuvens
que dançam em seu redor como mulheres nuas. [...]
Uma barca ondulante
acena o tropismo racial e nômade das travessias [...] (1925:59,60).
Amor, pátria, corpo e paisagem natural se confundem em mais de um poema, por meio dos exercícios panteístas de Menotti.
Belo corpo floral... Belo corpo aromal... país louro e selvagem única do meu olhar... Por ela passeia minha mão
Langue.
Tuas veias azuis são riachos de sangue, teu peito é um vale de beleza estranha,
onde se ergue a cada lado de uma montanha, em cujos píncaros que enrista
o meu beijo faz proezas de alpinista (1925:82).
A temática racial reaparece na obra República dos Estados Unidos do Brasil (1928), o que corresponderia, segundo o próprio Menotti Del Picchia, ao seu ingresso efetivo na fase em que se enquadrou “na corrente literária nacionalista denominada ‘verdamarela’”, quando seu pensamento tomaria nova direção, “despindo os poemas de todo erotismo para integrá-los numa objetividade formal impressionista e, às vezes, numa voluntária ênfase pseudo-épica ou polêmica” (1928/1958: 15).
O livro se divide em oito seções: Cenário, Canto Inaugural, História, Arcos de Bambu, Paisagem, Nobiliarquia, Coração e Babel. Novamente, o panteísmo marca a poética do autor, cujas memórias de infância reconstroem seu amor pela terra “onde o Senhor ensaiou o drama americano, inaugurando as experiências vitoriosas da nova civilização” (1928:5), ou seja, a América e, particularmente, o Brasil.
O sol latino
raiou na manhã lusitana
sonora de arcabuzes e de prantos de guitarras e teu amante marinheiro,
filho do bacharel e de Paraguaçu, com pé bandeirante riscou as fronteiras da maior pátria americana.
Depois os reis magos do universo vieram nos navios
ofertar-te as primícias de todas as raças
e, como a hóstia feita com trigo de todos os celeiros, um povo forte e livre comungou a consciência da Pátria Nova! (1928:8).
Em “Canto Inaugural”, a mestiçagem racial é saudada em versos que exaltam a riqueza de uma terra brasileira que surge como um corpo feminino e saudável. Mais uma vez,
o autor desenvolve a relação metafórica terra/pátria/corpo tão característica do pensamento político da época. A raça negra, ou crioula, aparece, como sempre, associada à morenidade da terra. Elementos associados por outros autores à brasilidade, como a preguiça de Macunaíma, de autoria de Mário de Andrade, surgem reinterpretados em novos contextos poéticos.
Terra morena
de carne capitosa e tropical
embalando com o leque das palmeiras a preguiça do seu corpo mestiço e virginal, terra ardente
de carne voluptuosa e aromal, recendendo a baunilha e a canela como uma crioula banhada de orvalho matinal...
Que linda terra minha terra natal! (1928:9-13)
Na seção “História”, surge o poema “A Inauguração” (1928:17), que descreve a inauguração da futura República dos Estados Unidos do Brasil, com a chegada das caravelas de Cabral e a recepção feita pelas “delegações da terra”: “pássaros, parasitas, caciques e serpentes”, carijós, botocudos, bororós e “pajés bêbedos de sangue tapuia”. No poema o autor homenageia o governador de São Paulo, na presidência do país:
E Pedro Álvares Cabral
para inaugurar a pátria de Washington Luís fincou na terra uma cruz.
Segue-se o poema “Batismo” (1928:19), que descreve o momento da chegada do Brasil menino, nos braços de D. Pedro I, no riacho do Ipiranga, para a cerimônia de criação de uma democracia brasileira:
Ouviu-se um grito imenso
anunciando ao universo
que acabava de nascer a maior democracia dos [trópicos!]
Menotti saúda a bandeira e a noite africana, registra a presença dos negros, com recurso a onomatopéias e expressões que identificam a cor da pele, como “carne de piche da tropa africana” (1928:23), dos quilombos e da violência do escravismo, da “senzala-presídio cercada pela matilha de capitães do mato” e do “sinhô branco pronto para deflorar noivas”, ou seja, do fazendeiro que, “de botas e requenque, é pior que um régulo de Badumbê!”. A língua brasileira surge como o presente de natal recebido pelo menino Jesus dos três reis magos.
Os três reis fizeram um acampamento das raças e ensinaram o povo menino
a falar a língua misturada
de Babel e da América. (1928:26).
O trio romântico é constituído pela saudade, pelo banzo e mal de pays.
Menotti mistura à apologia patriótica um tom sátiro, que chega a ridicularizar o processo eleitoral, em que se trocava o voto por um par de botas e, de repente, a urna era roubada debaixo das barbas de um coronel.
Na “Tarde Fazendeira” (1928:48), nascem os mestiços:
Tarde cabocla
Com banzo de pretos nas sombras carícias de escravas mulatas nas palmas dos longos coqueiros. [...]
foi numa tarde como esta que vieram ao mundo os mestiços da raça...
Aos pretos, é associada a execução dos trabalhos braçais para os senhores brancos: “A preta velha lava roupa branca”. A serra Jabaquara abrigaria os negros:
Espinha dorsal do planalto trincheira de sílex e basalto erguida pela terra contra o mar,
teus contrafortes agasalharam a liberdade africana incorporando a raça negra à espécie humana,
serra do mar (1928:52).
Menotti deixa entrever os conflitos entre índios e brancos na formação do Brasil e trabalha ainda metáforas que associam os aborígines brasileiros ao mundo vegetal e à madeira:
Cacique Jequitibá, onde está tua tribo? Foi o homem branco
de pele macia e de passos miúdos que apunhalou teus guerreiros? [...]
Cacique Jequitibá: no festim da tua morte teu inimigo branco fará com teu corpo a trave do seu teto
o berço do seu filho
e a caixa do seu ataúde...(1928:53, 54).
Com “Nobiliarquia”, Menotti homenageia uma série de personalidades da história do Brasil (Anchieta, Paes Leme, Bilac, Aleijadinho, Pinheiro Machado, Rui Barbosa e Euclides), até alcançar Jeca, poema em que pretende descrever o “drama da raça” no Brasil. O livro termina com “Torre de Babel”, no qual o autor descreve a confluência dos imigrantes e a confusão de línguas na cidade de São Paulo.
Quando adentra a década de 1930, Menotti já havia constatado que um dos principais problemas do Brasil estava no processo de desenvolvimento de uma democracia nos trópicos. No romance A Tormenta (1932), no qual o autor procura reconstituir os acontecimentos históricos na cidade de São Paulo durante a Rebelião de 1924, tensões em
torno da adequação de um regime democrático no Brasil tornam-se claras.190 Vale retomar o
prefácio do livro, datado em 1931.
A República Tropical não é o Brasil. Pode ser o Brasil ou qualquer outra democracia organizada em curtos séculos sobre o trópico pela convergência de um cosmopolitismo no qual haja nítido predomínio da cultura ocidental.
* [...]
A formidável inquietação da República Tropical é o movimento espasmódico de uma ciclópica matriz social parturejando a Era Nova. Toda a gestação é dolorosa e todo o parto cruento.
*
Após a tormenta virá o Caos. Após o Caos, a Aurora. A grande ambição é fixar esses três momentos cíclicos que nos darão a Pátria Nova. A Tormenta já se desencadeou. É dentro do Caos, no qual se debate a República Tropical, que foram escritas estas palavras de desespero e de sangue (1932: 5).
Menotti utiliza na obra analogias que permitem constatar na civilização tropical os mesmos problemas detectados no processo de evolução e crescimento de uma planta. As falas de seus personagens deixam entrever a orientação naturalista que permeava a visão do autor sobre o desenvolvimento e os problemas de transplantação de uma civilização nos trópicos (1933/1958: 20). De várias formas, afirma, porém, virtudes da sociedade brasileira em formação.
Ali, como em toda a República Tropical, processava-se a verdadeira fraternidade política: não havia preconceitos de cor, de credo ou de origem. Três clubes misturavam nos seus salões, colonos vindos de todas as pátrias, subsistindo uma única divisão de classes, essa, aliás, de caráter mundial: a da
190 Em A Tormenta, Menotti Del Picchia reconta de forma romanceada a revolta de 1924, em São Paulo. A
cidade fictícia é Sidéria, no estado do Cruzeiro, uma das Federações da Republica Tropical. As personagens do romance são visivelmente inspiradas em personalidades reais da época, artistas modernistas e políticos.
O próprio protagonista do romance é Paulo, homônimo de Menotti. Alguns nomes de óbvia alusão aos escritores e artistas modernistas são: Saul Stop (Raul Bopp), o casal Sancho Guerra e Sibila (Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral), Marciano (Cassiano Ricardo), Nabor (Villa-Lobos) e Plauto (Plínio Salgado). Personalidades políticas como Ataualpa (Ataliba Leonel), Dr. Bonifácio (Carlos de Campos) e o rebelde General Teodoro (Isidoro) também são retratadas nas páginas do romance. Por meio dos episódios associados à rebelião, Menotti propicia ao leitor flashes e percepções sobre a sociedade paulista da época.
fortuna. Essa divisão é que tornava um desses clubes o “aristocrático”, mas nos seus bailes, realizados com elegância e luxo, viam-se, no fundo, os mesmos colonos vindos do continente europeu, asiático ou africano, somente colonos que haviam tido mais sorte e feito mais depressa sua fortuna (1932/1958: 177,178).
Outro romance publicado por Del Picchia também no início da década de 1930 é
O Despertar de São Paulo (Episódios do Séc. XVI e do Sec. XX em São Paulo na terra bandeirante) (1933). O autor retoma, na primeira parte, episódios fictícios do período da
fundação de São Paulo, em cenas cujos personagens são Nóbrega e Anchieta (“o Santo da raça”) e “índios e mamelucos ilustres”, pioneiros no bandeirismo, em uma cidade de vida “nascente semi-selvagem” (1933: 133), mas que fundaria uma nacionalidade.
Passado, presente e futuro se fundem no romance, pois no primeiro ferreiro de São Paulo já estaria o “gérmen humilde do futuro parque industrial paulista”, segundo as imagens registradas por Menotti (1933: 29). Na segunda parte, o autor recria uma “epopéia paulista do século XX na terra dos bandeirantes”, com “romantizações de pequenos episódios reais” (1933:203) sobre a Revolução de 1932, quando “tipos fortes da raça” se uniriam em defesa do bandeirismo paulista. “Raça de gigantes... [...] Os gigantes da Piratininga constitucionalista destacaram-se, como estátuas de bronze, dos clarões das granadas e das explosões cegantes dos canhões ditatoriais” (1933: 203). Contra a ditadura de Getúlio Vargas e em defesa de uma forma brasileira de democracia, Menotti argumentará em seus escritos nos anos seguintes, como veremos no próximo capítulo.