Durante o nosso trabalho, que intitulámos “Identidade(s) profissional (ais) dos formadores de adultos”, conduzimos o estudo de forma sistemática e coerente no sentido de encontrar respostas às questões que formulamos e às hipóteses lançadas no início deste trabalho.
Para o efeito, o enquadramento teórico foi sustentado por perspetivas e abordagens diversas acerca da identidade profissional e sua relação com a cultura organizacional, recorrendo a alguns autores, nomeadamente Claude Dubar, Leonor Torres e Renaud Sainsaulieu, entre outros. Esta revisão teórica revelou-se fundamental na identificação, problematização e na compreensão das realidades empiricamente observadas. A abordagem que efetuamos às políticas públicas permitiu contextualizar e compreender a sua influência na consolidação ou reconfiguração das identidades e das representações profissionais. As políticas de educação, na pretensão de responder às necessidades de alterações sociais, redefinem-se permanentemente num espaço de tempo mais curto do que o ciclo de vida profissional, obrigando a que o formador se reconverta sistematicamente numa lógica darwinista.
Tendo como referência algumas pesquisas bibliográficas que serviram de suporte ao nosso enquadramento teórico, verificamos que as conclusões obtidas no contexto empírico selecionado corroboram algumas das análises preconizadas, por Claude Dubar e Renaud Sainsaulieu. No que diz respeito à identidade profissional dos formadores verificamos também que a cultura do contexto de trabalho molda as representações profissionais dos formadores, uma conclusão reiterada na linha da investigação académica de Leonor Torres (1997).
A primeira questão, que deu mote a este estudo: identidade profissional ou identidades profissionais dos formadores de adultos, quando levantada conduziu-nos à investigação das representações sociais construídas pelos formadores, aos fatores intervenientes no processo de construção da sua identidade profissional e à reflexão acerca da influência dos diferentes contextos macrossociais, bem como a análise do efeito das organizações e das políticas públicas nas práticas quotidianas aquando do exercício da sua profissão. Estas questões foram todas elas refletidas e expostas ao longo desta dissertação.
Pensamos que o estudo desta temática tornou-se um trabalho de investigação pertinente e significativo, visto o contexto macrossocial atual caracterizado pela instabilidade, complexidade e mudança, revelando-se igualmente interessante para todos os investigadores ligados à educação, particularmente ao campo da educação de adultos.
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A metodologia selecionada para o efeito foi predominantemente qualitativa, inscrita no paradigma construtivista e dentro desta a escolha do estudo de caso como método de investigação, com recurso a técnicas de tratamento de dados de natureza quantitativa. Quanto às técnicas referidas, optamos pela entrevista semiestruturada e, como já referido, pelo inquérito por questionário. Os dados obtidos através destas técnicas foram apresentados no Capítulo IV, dando resposta às hipóteses lançadas no início desta investigação.
A análise aos resultados obtidos levaram-nos a reiterar algumas conclusões pertinentes, ambíguas até, como o facto das perceções relativamente à situação profissional dos formadores estudados serem genericamente positivas, até com sentimento de realização profissional, não obstante pairar um sentimento profundo de insegurança pela instabilidade que a profissão acarreta. O futuro sendo incerto e a reconfiguração uma certeza, o desconhecimento da prospetiva trajetória profissional conduz à sensação transversal de não ser uma profissão para a vida.
Relativamente à construção das suas identidades profissionais podemos verificar no nosso estudo três formas identitárias, ou três diferentes modos de identificação do seu trabalho, de acordo com as perspetivas teóricas estudadas: os formadores que encaram a profissão em função do “ofício”, aqueles que a encaram em função do “coletivo de trabalho” ou ainda em detrimento da “função”.
Apesar de os formadores terem uma imagem profissional positiva, contudo não encaram a profissão como oportunidade de carreira. Alguns destes formadores afirmam mesmo que já se sentiram vítimas de desprofissionalização, levando a uma facilidade de mobilidade na sua atividade profissional, o que é caracterizado como identidade estruturada no “ofício”. Esta situação obriga estes profissionais a enveredarem por um “nomadismo por necessidade” dada a importância atribuída ao facto de ter ou manter o emprego e arranjarem estratégias de ajustamento à organização de modo a evitar a exclusão. Nesta forma identitária, também observada no nosso estudo, o profissional privilegia o facto de ter emprego em detrimento do sentimento de realização profissional, uma identidade estruturada no que é designada por “colectivo de trabalho”.
Também não podemos deixar de referenciar os formadores que apresentaram um modelo identitário estruturado na “função”, ou seja, também observamos profissionais que se movem pela forte expetativa de ascensão profissional e promoção interna, com o intuito de apostar na sua evolução contínua e garantir o lugar desejado.
Um outro fator observado e que consideramos importante foi a prática profissional dos formadores estar condicionada por fatores organizacionais ou, conforme é referido em vários estudos, pela cultura organizacional. De acordo com a análise efetuada à cultura por via das representações dos formadores constatamos uma tendência para uma “cultura diferenciadora”, como refere Torres nos seus trabalhos, isto é, existe algum grau de partilha e identificação em determinados grupos de referência com representações sociais, expetativas e opiniões homogéneas.
Pela razão acima apresentada, parecem-nos justificados os resultados que apontam o facto de os formadores com vínculo permanente terem uma posição mais positiva e homogénea comparativamente com aqueles que apresentam um vínculo temporário ou ocasional. Relativamente a estes formadores com vínculo temporário ou ocasional também verificamos que estes apresentam uma maior tendência para a sua identidade profissional estar mais dependente de fatores macrossociais. Além disso, e de acordo com os resultados apresentados, os formadores que não se definem profissionalmente enquanto formadores atribuíram maior importância a esses fatores macrossociais como condicionante à profissão de formador, comparativamente com o grupo de formadores que se definem claramente enquanto formadores.
Estas foram algumas das conclusões importantes que retiramos deste estudo e que foram alvo de uma análise mais aprofundada nos capítulos que comportam a parte empírica desta dissertação.
Todavia, temos consciência que qualquer investigação é sempre um processo inacabado que introduz sempre novas questões, questões essas que poderão ser alvo de continuidade em estudos posteriores. No nosso caso, indicaríamos a necessidade de estudar, por exemplo, o tipo de formação, conhecimentos ou até o perfil profissional do formador que atua especificamente no campo da educação de adultos.
Um resultado, de entre vários obtidos, indicou-nos que num grupo de formandos com experiências diversificas e grande heterogeneidade cultural são fatores que complicam a tarefa do formador no sentido de possibilitar uma aprendizagem significativa para todos. Esta questão remete-nos para o questionamento acerca qual perfil competências exigido, qual o manifestado, e o qual o perfil efetivamente desejável?
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Será que é suficiente a formação geral em ensino ou as poucas horas atribuídas ao curso de formação pedagógica de formadores para se estar habilitado a trabalhar com esta modalidade de ensino e titular-se de formador profissional?
Estamos em crer que um estudo assente nestas premissas poderia ser uma mais-valia para a compreensão de alguns insucessos da formação profissional, ao mesmo tempo que poderia tornar-se na alavanca necessária para uma reflexão crítica acerca dos projetos de educação e formação de adultos adotados em diversos contextos.