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Os dados empíricos levantados pela pesquisa confirmou, na industria sucroalcooleira, as transformações dos agronegócios brasileiros in dicadas por Wilkinson (2010), em particular a internacionalização dos grupos que atuam nos mercados das principais commodities

183 agroindustriais. Os dados confirm aram também a presença de elem entos das transformações do capitalismo contemporâneo, indicadas por Fligstein (2001) e a presença dos

“intermediários” financeiros do capitalism o, indicados por Folkm an e outros (2006), e por Froud;Williams (2007), agindo também na indústria sucroalcooleira. As fusões e aquisiçõ es, enquanto estratégias financeiras82, compartilhadas tanto pelos empresários tradicionais como pelos investidores institucionais, nacionais e internacionais, indicam uma possível versão brasileira do “capitalismo investidor”, no sentido indicado por USEEM (1993), mais evidente, sobretudo, na segunda metade da primeira década do século XXI.

A pesquisa tam bém indicou a pertinência do referencial teórico, sobretudo a noção de campo, habitus, capital e espaço social da soci ologia econômica de Pierre Bourdieu utilizada em conjunto com as noções de campo organizacional, concepções de controle e atores sociais hábeis sugeridas por Neil Fligstein. Este estudo perm itiu analisar com o o ca mpo sucroalcooleiro, cristalizado e institucionali zado desde o inicio dos anos 1990, estaria se transformando em um novo cam po: o cam po sucroenergético. As forças que estariam na posição dominante do cam po sucroenergético seriam, em grande parte, formada pelos dominantes do cam po sucroalcooleiro, por grandes investidores ligados aos m ercados de commodities agroindustriais, petróleo e energia, e pelo Estado.

A “quase u nanimidade” em torno do etanol ind icaria as relações de fo rça neste novo subcampo econômico. Nos últimos anos, os críticos da indústria sucroenergetica praticamente não têm tido espaço na grande m ídia e, consequentemente, o acesso ao grande publico quase não ocorre ou, quando ocorre, é imediatam ente respondida pelos dominantes, como ilustram

82 Fligstein (1990) adverte sobre a importância entre estratégia e co ncepção de controle. A primeira pode ser fruto de concepções de controle distintas. Neste caso, fusões e aquisições poderia ter sido concebida por aqueles em que prevalece a concepção de controle de marketing, visando ampliar market share, ou ampliar portfólio de produtos. Mas, a m esma estratégias poderia ser fruto da concepção de c ontrole financeira, para quem as aquisições seria uma forma mais rápida de crescimento se co nfrontada com a opçã o de construção de novas plantas industriais.

184 os casos de denuncias sobre prática de trabal ho escravo e danos am bientais causados por grandes grupos industriais.

Os grupos sucroalcooleiros tradicionais, ao abrirem o capital, não deixaram de imputar suas contribuições nas novas formas de adm inistrar os negócios, criando um a espécie de governança corporativa “fa miliar”. Este fato p ôde ser id entificado de for ma exemplar na composição do Conselho de Adm inistração do grupo NOVA AMÉRICA, incorporado pelo grupo COSAN, e m 2009, e, em menor grau, no grupo SÃO MARTINHO. No primeiro, apenas representantes da fa mília (Rezende Barbosa) com punham o Conselho de Administração, até a incorporação. Já no se gundo, a família detém algo próximo a 65% das ações, formando o grupo de controle.

No grupo SÃO MARTINHO, em 2009, a presidência executiva (CEO) deixou de ser ocupado por um representante da família e passou para um profissonal do “mercado”, com experiência em finanças. Meses depois, a mesma operação iria ocorrer tam bém no grupo COSAN, quando o presidente do Conselho, Rube ns Ometto, deixou a presidência executiva (CEO) para um executivo do “mercado”, também com experiência em finanças corporativas.

À medida que as em presas passaram a apre sentar a governança cor porativa, elas se reorganizaram em busca de desenv olver formas estabilizadas de organ ização interna, m as também como uma fonte de legitimidade externa. Concentração de poder não seria u ma “boa prática” de governança corporoativa. Daí as du as principais empresas familiares com capital aberto terem quase que ao m esmo tempo mudado o perfil de seu CEO. Além do CEO os diretores executivos financeiros (CFO) passaram a ocupar um a posição de destaque. Estes profisionais passaram a ser recrutados no “mercado”, como exemplificado pela COPERSUCAR e pela BÜNGE. Além disto, os CFOs tornaram-se candidatos “naturais” ao

185 cargo de CEO, sem elhante ao que aconteceu no capitalismo investidor norte-am ericano (USEEM, 1993).

A adesão às novidades gerenciais ocorre também porque elas apresentam soluções para problemas historicamente enfrentados pelos grupos tradiciona is, particularmente a questão da sucessão hereditária dos negócios e do seu controle, como ilustrado no processo de fusão entre os grupos Vale do Rosário e Santa Elisa, posteriormente incorporados pelo grupo LDC-SEV.

Se por um lado os dados indicam como representantes da indústria sucroalcooleira estariam se convertendo às finanças e passan do a adotar as estratégias e as organizações prescritas pelo m ercado financeiro, por out ro, alguns dos novos entrantes tiveram que s e curvar as especificidades desta industria, como ilustrou o pedido de recuperação ju dicial do grupo INFINITY BIO ENERGY e a aquisição da BRENCO pela ETH.

Para se apresentarem conforme os padrõe s exigidos pelo mercado financeiro, os grupos empresariais passaram a adotar ferramentas de gestão, a exemplo dos sistemas ERPs e dos padrões internacionais de relatórios soci oambientais. Os ERPs tornaram -se ferramentas centrais para a operacionalização da dom inação financeira. Estes sis temas derivam dos antigos MRP (Material Requirements Planning), softwares de gestão de estoque, típica atividade da adm inistração da produção. Atua lmente, no âm bito das grandes em presas, os ERPs contribuem, fundamentalmente, para a governança corporativa, sobretudo para facilitar o acompanhamento “online” dos relatórios fi nanceiros. Tanto no grupo COSAN com o no grupo SÃO MARTINHO e ta mbém na COPERSUCAR o software de gestão intergrada (ERP) é o SAP. Este f ato não seria coincidência e sim indicador de isomorfismo institucional mimético, mas também normativo e coercitivo (DIMAGGIO; POWELL, 1991), seja pelo fato do SAP ter se tornado um a espécie de “grife” dos ERPs , recomendado pelas principais

186 consultorias internacionais, seja pelo fato de que poderia facilitar o entendim ento com novos investidores, uma vez que contempla as regras contábeis de outros países, a exemplo do grupo COSAN na bolsa de Nova Iorque.

O SAP seria respon sável pela interface com o m ercado financeiro e teria caráter performático, uma vez que grande parte das plan tas industriais que operam no país, inclusive aquelas do grupo COSAN, utilizam um módulo da concorrente brasileira de software ERP, a empresa TOTVS. A TOTVS se tornou a m aior empresa do setor no Brasil e nona do m undo, após adquirir a empresa DATASUL, em 2008 (FOLHA ON LINE, 24/07/2008). Esta última havia incorporado a empresa PRÓXIMA, maior fornecedora de software para informatização da indústria sucroalcooleira, seja na parte agrícola como industrial. A TOTVS e DATASUL cresceram a partir de fusões e aqu isições. A TOTVS contou com o BNDESPAR como investidor tanto na m odalidade venture capital como na de private equity. Atualm ente a BNDESPAR possui pouco mais de 5% de participação na empresa (TOTVS, 2012). Os ERPs que “rodam” nas empresas seriam uma espécie de softwares “híbridos”, com componentes de diferentes fornecedores de ERPs ou “módulos” ERPs.

De acordo com os dados levantados ne sta pesquisa foi possível constatar a internacionalização da propriedade na indústria sucroalcooleira , seja pelos investim entos de grandes grupos especializados em commodities agrícolas, como os grupos BÜNGE e LDC ou por investimentos realizados por representantes da indústria de capital de risco ligados a investidores internacionais, como o grupo BRENCO, incorporado pelo grupo ETHbioenergia, o grupo INFINITY BIO ENERGY i ncorporado pelo grupo BERTIN, o grupo AGROERG, o grupo CLEAN BRAZI L ENERGY e a CNAA adquirida, em 2011, pela BRITISH PETROLEUM.

187 O caso do fundo de investim entos TERRA VIVA ilustra como os fundos de pensão vêm utilizando os arranjos de private equities com Governança Corporativa, para “terceirizar” os investimentos na indústria sucroalcooleira à gestora DGB investimentos.

Zilbovicius; Dias (2005) cham am atenção pa ra o processo de “financeirização da produção” que estaria ocorrendo no capitalismo contemporâneo subordinando as for mas tradicionais de organização da produção. No caso do cam po sucroalcooleiro a terceirização das atividades de corte, carregamento e tran sporte de cana-de-açúcar, transferidos para grandes empresas de logística, ilustraria a tendênci a de “financeirização da produção”, ou pelo menos parte dela. Ainda que a terceiri zação impacte nos custo s, com aumento n as despesas de serviços, ela é uma estratégia que possibilita a liberação de recursos que estariam imobilizados nos ativos necessários à colheita mecanizada, para serem investidos em outras atividades mais rentáveis. O caso do grupo COSAN ilustra a qu estão: tercerização das operações de CCT de cana de açúcar e investimentos em transporte ferroviário de açúcar e álcool, em distribuição de com bustíveis e lubrificantes, etc. Ma s a força desta estratégia n ão se restringe aos potenciais ganhos financeiro s, pois ela é apresentada tam bém como uma forma de minimizar as críticas e os problem as trabalhistas envolvidos na colheita manual de cana de açúcar.

A presença de investidores institucionais ligados à indú stria de capital de risco é marcante, particularmente a BNDESPar, com participação nos grupos SantelisaVale (atual LDC-SEV), BRENCO (atual ETH Bi oenegia) e no grupo São Martinho83. Empresas criadas por meio de arranjos de private equities, o grupo BRENCO e o INFINI TY BIO-ENERGY, após a crise de 2008 e o longo período de preços baixos para o açúcar e álcool, anteciparam o

83 No grupo São Martinho a participação foi modesta, segundo informação fornecida pelo setor de atendimento ao cliente do BNDES, atendendo à solicitação do autor.

188 desinvestimento, procurando compradores ou novos sócios, contribuindo para o processo de consolidação e concentração da indústria. Dê certa for ma, este seria um sinal da reestruturação do próprio campo e a consolidação da indústria ocorre, sobretudo, por meio das incorporações de grupos que ocupam posição dom inada na indústria, seja os m enores grupos tradicionais ou aquele s que se posicionam como dominados/desafiantes, sobretudo os negócios criados por gestores de private equities.

O grupo COSAN ilustra a coexistência de va lores tradicionais e “m odernos”. Por um lado, a empresa reúne os atributos que a colocam numa posição de liderança da indústria, não apenas em termos de fatia de mercado, mas, sobretudo, no âmbito da inovação e apresentação de novas formas de operar e organizar os negó cios da indústria. Po r outro lado, é possível constatar estratégias tradicionais que refletem o dese jo de rep resentantes da f amília em permanecer no contro le dos negócios do grupo , conforme ilustrou o episódio da COSAN Limited.

Enquanto organização de representação da corrente dominante, a UNICA tem atuado no sentido de reverter um a imagem negativa da indústria sucroalcooleira, acum ulada nas décadas anteriores. Apo stando nas “boas práticas ” agrícolas/industriais e de gestão ela te m ocupado uma posição de liderança, procura ndo mudar o “espírito do capitalismo” das atividades sucroalcooleiras. O m odelo de su stentabilidade e a argum entação da indústria sucroalcooleira estão ancorados na idéia de que a produção sucroalcooleira contribui positivamente no ciclo do elem ento químico Carbono, portanto, a s ustentabilidade estaria vinculada a idéia de crédito de carbono.

Por outro lado, não há pronunciam ento dos grupos empresariais e nem m esmo dos órgãos governamentais sobre os efeitos negati vos que a atividade sucroalcooleira gera no ciclo do elemento Nitrogênio. De acordo com CARDOSO ET. AL. (2007), o uso intensivo de

189 insumos industriais nitrogenados na agricultura, em geral, e na produção de cana de açúcar em particular, têm contribuído negativam ente no ciclo do Nitrogêni o. Diferentemente do desequilíbrio do Carbono cujos impactos seriam , notadamente, de âmb ito global, a exem plo do efeito estufa, o desequilíbrio do Nitrogênio teria impactos locais e regionais. Portanto, se do ponto de vista do ciclo do Carbono, a produ ção de biocom bustíveis seria considerada sustentável, o m esmo não ocorre quanto em relação ao ciclo do Ni trogênio e de outros elementos.

Os esforços dos defensores do álcoo l combustível estariam concentrados em justificar sua sustentabilidade e el evá-lo à catego ria de commodity. Nos postos das redes de distribuição de combustíveis, o termo álcool vem sendo substituído por etanol, como parte da campanha pró ethanol. O esforço para transform ar o álcool com bustível na commodity

ethanol ilustra como a teoria econôm ica dominante ignora a im portância das dimensões não

econômicas dos mercados, uma vez que, a idéia de commodity que está fortemente ligada ao pressuposto de produtos “substitutos perfeitos”, do qual a formalização econômica clássica e neoclássica depende, tem sido socialm ente construída, mesmo no que diz respeito aos aspectos jurídicos.

De acordo com os dados empíricos, também ficou comprovada a participação direta do Estado na indústria sucroalcooleira. O Estado tem apoiado o processo de consolidação da indústria de form a convencional, ou seja, fi nanciando as operações de incorporações e aquisições e, de forma menos convencional, participando como acionista e, em alguns casos, com representante no conselho de adm inistração das empresas nas quais possui participação significativa. Por m eio da BNDESPar o Estado apóia e participa diretam ente da industria sucroalcooleira, mas também contribui para a difusão da lógica financeira no m eio

190 empresarial brasileiro e para a legitimação do predomínio das finanças na sociedade brasileira contemporânea.

A dominação financeira na indústria sucroalcooleira pode ser percebida na medida em que a im agem negativa do setor foi sendo subs tituída por aquela onde a indústria aparece como portadora de soluções ene rgéticas que não comprometem o equilíb rio da nature za. Conforme indicado pelos dados empíricos, na r eestruturação da indústria os instrumentos de natureza financeira (Fusões e Aquisições; Private Equities; Abertura de Capital; Governança Corporativa; Sustentabilidade Empresarial; ERPs; etc) pas saram a ser adotados d e forma recorrente pelos grupos que passaram a dominar a indústria. Mesmo que as críticas persistam e as denuncias sobre lucros extraordinários auferidos pelos industriais, sobre condições desumanas de trab alho e sobre práticas de degradação ambiental co ntinuem, elas perdem força e repercutem relativamente pouco na sociedade, quando comparada com a propaganda a favor do etanol. Mesmo quando o etanol não está viável economicamente para o consumidor brasileiro, devido, por exem plo, às decisões recentes de se produzir m ais açúcar do que álcool, dado o preço favorável para o açúcar, os consum idores não se revoltam ou exigem o fim de subsídios e apoio governamental. Pelo contrário, geralmente, os problemas decorrentes da alta do preço do etanol são atribuídos, sobretudo pelos próprios industriais, a alguma falha de política de governo.

In document Kultur og identitet i merkevarer (sider 41-44)