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De que forma Juazeiro do Norte, Crato e Barbalha alcançaram o ano de 1964? Qual era a situação econômica? Como se organizava e se distribuía a sua população? Em suma, como se apresentava o Cariri e as suas classes sociais naquela trágica quadra da vida brasileira?

Responder essas questões invoca a necessidade de um breve retorno no tempo. Comecemos, pois, esse retorno pela expressão mais aparente e manifesta desse processo, que tem a ver com a estrutura e dinâmica populacional.

Nesse instante, cabe enfatizar que dos anos 1960 até o início do decênio 1980, houve não somente a quase duplicação do número de habitantes da região do CRAJUBAR, mas uma maior centralidade do elemento urbano. No primeiro caso, não é difícil constatar isso ao tomarmos como referência a evolução demográfica da área do triângulo caririense no período considerado:

ANO BARBALHA CRATO JUAZEIRO DO NORTE 1960 23.575 59.464 68.494

1970 25.370 70.996 96.047 1980 30.966 80.677 135.616 Fonte: IBGE/Juazeiro do Norte.

Quanto ao segundo caso, relacionado a maior centralidade do elemento urbano, tomaremos por base a cidade de maior crescimento demográfico que, em larga proporção, refletiu melhor o fenômeno da urbanização. No artigo “Informes sobre demografia de Juazeiro do Norte”, Walker (1984) sugere uma população de 135.687 para o mencionado município no ano de 1980, expressando uma ligeira diferença em comparação com os números oficiais do IBGE. Deixando de lado essa nuança, e traçando um paralelo entre os censos de 1970 e 1980, o que mais chama a atenção é a dinâmica das relações entre cidade e campo, senão vejamos:

ANO JUAZEIRO DO NORTE POP. URBANA POP. RURAL 1970 96.047 (população total) 80.643 15.404

1980 135.687 (população total) 126.093 9.594

Fonte: Boletim do Instituto Cultural do Vale Caririense, nº 11, 1984.

Utilizemos o critério absoluto ou relativo, importa sublinhar o crescimento da população urbana. Enquanto ela cresceu nos dois sentidos, a dinâmica demográfica rural era terminantemente oposta, pautando-se por uma queda relativa e absoluta em número de habitantes. Não temos a intenção de tentar elucidar esse fenômeno rapidamente e de uma só vez. Feita essa ressalva, tentemos formular uma primeira explicação.

Tudo tem a sua causa, determinação, salvo aquilo que acontece na condição de acidente, contingencialmente. Tal qual na expressão popular, o que não podemos é tomar a “casca pelo caroço”. Dito isso, é imprescindível recuperar o conjunto de transformações vividas no plano regional nos anos que precederam à instauração do regime de força, bem como isso progrediu singularmente durante o drama do militarismo. É a descrição e o entendimento das mudanças de um quadro geral mais complexo que tendem a nos conduzir à compreensão das mudanças demográficas.

Nos anos 1950, o Cariri assistiu à formação da primeira empresa de sociedade anônima: A Aliança de Ouro Comércio e Indústria Ltda. Sobre esse fato, se pronuncia um dos seus protagonistas, Antônio Corrêa Celestino:

Devemos informar que antes da fusão das firmas Celestino & Cia, Teixeira & Cia, Feijó de Sá, e Aliança de Ouro Comércio e Indústria Ltda., em Aliança de Ouro S/A Comércio e Indústria, não havia, no interior do Estado nenhuma Sociedade Anônima com fins comerciais ou industriais (2008:29).

Essa ação poderia, sem grandes esforços, desnudar o fato de que uma “mentalidade capitalista”, ainda que primária, já se introduzira em segmentos dos

homens de negócio da região, refletindo em tons quase meridianos as mudanças21que ali

começavam a se operar. Falando de modo genérico, as classes dominantes locais procuravam novas fontes de receita em um momento em que a economia brasileira estava sob o influxo de incontáveis transformações. Aqui, não partimos da noção de avanço da racionalidade capitalista, mas da evolução das condições que arrastavam o Cariri em feitio de um vagão atrasado da máquina capitalista nacional. Nessa direção, o próprio Celestino - que, nas suas palavras, procurou sempre se conduzir com muita parcimônia nos negócios - expressaria a sua filiação a esse esforço dos investidores regionais em busca de saídas para os seus negócios:

Fui experimentando determinados segmentos, continuando com o que se apresentava positivo e abandonando aqueles que não prometiam bons resultados. Muitos dos que no começo abandonamos, com o correr do tempo, tornaram-se ótimos negócios (2008:29).

Lembremos, de passagem, que ao lado da formação da antes citada sociedade anônima - e mesmo nos anos subseqüentes - surgiram novas situações econômicas: a primeira empresa de transporte coletivo, o aeroporto, a primeira companhia telefônica e a eletrificação de Paulo Afonso. Devemos igualmente recordar a existência de três pequenos bancos: o Banco de Sobral S/A, o Banco do Cariri S/A e o Banco de Juazeiro S/A, sem esquecer a existência de instituições financeiras e creditícias de expressão nacional, nomeadamente o Banco do Brasil. No caso do Banco de Juazeiro S.A, será por meio de encampações que se tornará uma poderosa instituição financeira sob a direção da família Bezerra. Foi sobre essas bases econômicas parcelarmente renovadas que o Cariri adentrou nos tempos do militarismo. Ou seja: A questão de fundo é que a eletrificação e certa complexificação das atividades econômicas foram conduzindo o espaço caririense a se incorporar às transformações vivenciadas na arena nacional, em que pese à lentidão do ritmo no plano das localidades examinadas.

Para encerrar as observações, recordemos que em fins dos anos 1950, surgiu a Faculdade de Filosofia do Crato, que, em seu desenvolvimento, servirá de base para organização da Universidade Regional do Cariri (URCA). Deve ser posto em relevo a

21 Não vislumbro a existência de uma “mentalidade capitalista”, a parte e acima dos processos reais e

fator decisivo e quase único de mudanças objetivas que ocorrem em volta dos seus sujeitos. A abstração weberiana precisa ser posta de ponta a cabeça se queremos utilizá-la com alguma eficácia. Ou seja, necessitamos partir dos processos sociais objetivos e destes para o terreno mental e ideológico onde aqueles são subjetivados.

participação nesse processo de Dom Vicente22 de Paulo Araújo, primeiramente bispo

auxiliar e depois bispo diocesano do Crato. Sob o lema episcopal “Ao vencedor darei o maná”, Dom Vicente atuou no papel de “mensageiro da modernização”, estimulando a formação da Rádio Educadora, de escolas e da própria faculdade. A Rádio Educadora surgiu predicando “a difusão do útil, do bem e da verdade”, conforme o seu slogan e não deixou de estar a serviço do projeto modernizante-empresarial, algo que não passou ao largo das preocupações do bispo. Nesse sentido, a industrialização deveria ser vista como algo útil dentro de uma estratégia que almejasse alcançar o desenvolvimento regional. Os industriais “modernizadores” - sobre os quais nos deteremos concisamente mais adiante - poderiam tomar para si as “promessas aos vencedores” que vinham do Apocalipse. A industrialização cumpriria a função de alimento para os justos, o maná escondido para o mundo do capital. Esse foi o saldo definitivo de uma trajetória em que o progresso das letras e da comunicação acompanhou a lenta introdução da manufatura23 capitalista através da metalurgia, das indústrias de plásticos, cimento, cerâmica, beneficiamento do milho, mamona e algodão.

Como veremos, o maná não era farto e as promessas, na prática, não foram capazes de retirar o estigma de uma estrutura economicamente atrasada. Em termos mais concretos, a modernização findou se revelando menos aprofundada do que, em verdade, se aspirava. Mas ao acentuar a sua relevância no quadro regional contribuiu para atrair contingentes da população rural para que se estabelecesse entre as quatro paredes de uma das três urbes, notadamente Juazeiro do Norte. Convém referir que ainda que a tíbia modernização contribuísse para movimentações demográficas no sentido campo-cidade, essas movimentações não foram determinadas fundamentalmente por esse fator, conforme verificaremos em seguida. Agregaríamos igualmente que, decerto, não houve nenhuma paridade nesses dois processos distintos

22 Dom Vicente pareceu sempre um homem de negócios, tanto quanto um representante de deus

preocupado com os problemas espirituais da sua gente. José de Brito Filho, a quem entrevistamos em 18 de dezembro de 2009, chamou-nos a atenção para esse detalhe. Por outro lado, o líder máximo da igreja no Cariri utilizou a capacidade empreendedora da igreja e a sua força mobilizadora para se colocar, por exemplo, entre as massas e o reduzido e determinado agrupamento comunista que teimava em se aproximar de setores da classe trabalhadora, inclusive e notadamente daqueles de origem rural. Com o êxito da estratégia reacionária, em 1964, o chefe da Diocese do Crato se tornou um aliado de primeira hora dos governos militares e coube a segmentos da igreja católica o controle do processo de constituição e orientação dos sindicatos rurais no Cariri. (Sempre que citarmos algum passagem do depoimento de José de Brito Filho o registraremos como BRITO FILHO, 2009).

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Conforme Farias Filho (2007), “O processo de industrialização do Cariri teve início com a agroindústria da farinha de mandioca e o beneficiamento de algodão” (p. 208).

que, em seu devir, se combinaram: urbanização/industrialização, de um lado, desterritorialização do homem do campo, de outro. Essa desterritorialização, na prática, indicava que o trabalho do homem de campo estava se separando das suas condições objetivas de existência.

No caso de Juazeiro do Norte, havia um agravante: a diminuta área24 de domínio municipal, inferior a 250 km2.

Em suma: as condições de vida e trabalho estavam mudando no Cariri, lentamente, quando sobreveio à ruptura institucional. Aqui cabe uma reflexão. Essas mudanças, de fato, são lentas. Elas não são o resultado de uma ou duas gerações. Ao contrário, elas são o resultado contraditório dos muitos esforços de incontáveis gerações. A nosso ver, a geração que coincidiu com o regime militar teve aí um papel decisivo.

Para nos situarmos rigorosamente face ao problema, não custa trazer a tona os traços essenciais da economia regional, até pelo menos meados da década anterior ao golpe militar. Devem ser postos em relevo a proeminência da agricultura e formas rudimentares de organização econômica, dentre as quais as oficinas, um artesanato tradicionalíssimo e estruturas comerciais em desproporção com o desenvolvimento geral do país. Nesse contexto, é que surgiu na região um agrupamento empresarial se propondo a “modernizar” essa região periférica do capitalismo brasileiro, superando o seu “subdesenvolvimento”. Posteriormente, muitos deles serão chamados de “capitães do progresso”.25 No interior desse grupo, saltam a vista nomes como os de José Feijó de

Sá, Antônio Costa Sampaio, Pedro Cruz Sampaio, Edmundo Morais e Antônio Corrêa Celestino. Essa era a vanguarda de um capitalismo em formação, praticamente embrionário, e constituiu a primeira turma de “capitães do progresso”, uma fração das classes dominantes locais que, no espírito da época, identificou modernização com

24 Juazeiro do Norte procurou compensar o seu escasso território crescendo na direção de Crato,

Barbalha e Caririaçu, engendrando um nítido processo de conurbação. Não resolveu, contudo, o dilema da terra para agricultura. Mais ainda: com a extensão da modernidade ao campo, o preço da terra tendeu a aumentar e esse fator reforçou, ainda mais, o fluxo campo-cidade. Isso explica o alto grau de urbanização de Juazeiro, comparável aos níveis ingleses (95%), bem como a reduzidíssima participação da agropecuária em seu PIB: menos de 1%.

25 Em 1973, foi lançada, em Juazeiro do Norte, uma revista intitulada EXECUTIVA, e em um dos seus

textos, há uma referência a essa expressão “capitães do progresso”, ou seja, homens “que em suas atividades específicas souberam oferecer um pouco de si em prol de uma cidade, em benefício de sua gente” (p.11). No corpo do texto, são destacados os nomes de Hidelberto Mendonça (empresário do comércio) e do multi-empresário Ivan Rodrigues Bezerra.

industrialização. Doutro lado, a família Bezerra foi deslocando, gradativamente, o eixo dinâmico das suas atividades da agropecuária para iniciativas nas áreas industriais e financeiras. Por fim, não é possível reduzir ao silêncio o nome de Antônio Pita, considerado por Aderson Borges de Carvalho como “o maior capitalista e industrial algodoeiro daquele tempo” (1999:165).

Quando ocorreu a derrubada do governo constitucional de João Goulart, os golpistas encontraram suporte político e ideológico na fração empresarial26 dos “modernizadores”, bem como na hierarquia diocesana, que atuara em período próximo como membro societário do Banco do Cariri. No caso dos empresários, como intelectuais orgânicos de uma classe em constituição, não raro, se consagrarão como companheiros de arma do militarismo vitorioso. Aos padres, a quem dedicaremos uma seção a parte, caberá uma função ideológica típica daquilo que Gramsci convencionou nomear de intelectual tradicional, aspecto do problema que não nos furtaremos de examinar no seu devido tempo.

À parte isso, os noviços empresários caririenses - de resto, a maior porção do empresariado brasileiro - perceberam que os fatos vinham tomando uma direção evidentemente arriscada para os seus negócios. Acentuando o seu impulso de ação, a classe trabalhadora urbana e do campo se projetava na conjuntura. Para sermos mais nítidos, sobreveio um rápido crescimento dos sindicatos, das lutas de massas e da participação da classe operária. Nisso residia a essência do problema: mais do que o espectro do comunismo, essa, em linhas gerais, era a questão que os homens de empresa consideravam inadmissível por princípio.

Quanto a isso, não supomos que os proprietários caririenses - de loja, fábrica ou terra - pudessem problematizar a situação senão por dentro do quadro descrito. Embora, não se constatasse a generalização desse cenário de agitação social para as fronteiras internas do Cariri, as então chamadas “classes produtoras” locais pareciam não estar dispostas a pagar para ver. Na pior das hipóteses, existiria uma solidariedade de classe atando os proprietários de diversos matizes, independente do ponto do país onde

26 Obviamente, que essa é a regra, o que não significa a inexistência de dissensões nos estratos

empresariais. Mais adiante, se distinguirá o ex-engenheiro da PETROBRÁS e empresário Eudoro Santana, proprietário da CECASA, preso e torturado pelos órgãos repressivos da ditadura militar. Aqui, fica evidenciado o caráter de exceção do regime militar. Para salvaguardar as relações capitalistas de produção, o bonapartismo não exclui medidas repressivas contra frações da classe burguesa.

estivessem estabelecidos e do grau alcançado pelos conflitos classistas no âmbito de cada localidade.

Tomando a realidade como era, parece-nos patente para os donos dos meios de produção e troca que a direção acertada estivesse em modernizar o capitalismo, mas para isso a disciplina social era uma condição imprescindível. Por isso, não se constrangeram em criar centros de múltiplas atividades conspiratórias, empreendendo uma campanha para solapar as bases de um governo constitucional. Pode-se dizer que as classes dominantes já não acreditavam que o governo João Goulart fosse capaz de assegurar essa disciplina social. Em face desse problema e num contexto de polarização da luta de classes na América Latina, o recurso ao golpe militar se afigurou como uma perspectiva quase natural. Não era de surpreender, pois, que nos anos de reação, essa projeção teórica das forças empresariais, sob o controle de uma sucessão de governos arbitrários, ganhasse as condições essenciais passíveis de realizá-la.

Antes de fecharmos essa seção, queríamos avançar em um ponto que tem a ver com as transformações econômicas em curso no período cuja referência é a instalação do regime político militarizado. Tem, sobretudo, a ver com o caráter das classes dominantes locais, uma vez que elas também se encontravam em um trajeto de idas e voltas, suscitando novas saídas para os seus negócios. Vejamos.

Marx nomeou de burguesia nascente à classe dos burgueses que se desenvolveu no mesmo solo em que prosperou o Estado Absolutista e a acumulação primitiva de capital. Quanto a nós, empregaremos aqui a expressão burguesia nascente para descrever e nomear a classe dos proprietários de terra que fizeram migrar parte do seu cabedal para o setor comercial-usurário e, posteriormente, para o plano da atividade fabril propriamente dita e finanças modernas. Visto em perspectiva, a área rural estava deixando de ser o único cenário da história do Cariri, ainda que a separação campo- cidade não se revelasse suficientemente nítida. Nesse movimento, estava contido o uso intensivo de fundos públicos e da política de incentivos fiscais que, em certo sentido, é anterior a tomada do poder pelos militares, em 1964. Esse movimento, em nossa compreensão, garantiu à classe dominante local, partindo de algumas das suas frações, o desenvolvimento inicial das relações capitalistas27 de produção. Resumidamente,

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Ainda que se queira prender a um modelo único de organização inicial do capitalismo, ignorando as particularidades das relações capitalistas que mal começavam a se organizar no Cariri, não há como não

tínhamos uma classe dominante formada de distintos tipos e dentro dela sobressaiu um estrato com “vocação” industrializante.

Percebe-se com isso que utilizamos a terminologia de Marx para nos referirmos às frações dos grandes proprietários de terra e comerciantes que, em fins dos anos 1950 e ao longo da década seguinte, fizeram a transmigração da sua alma campestre- mercantil para o purgatório urbano-industrial, uma vez que o paraíso só poderia vir com a consolidação desse processo. Mas estamos nos reportando a uma burguesia industrial não-consolidada, começando a se estabelecer como tal, em particular com o uso de subsídios governamentais no marco das ações da SUDENE, criada em 1959. Tanto a burguesia descrita por Karl Marx dependeu do Estado Absolutista, quanto a burguesia do nordeste, e especificamente, a do Cariri, por nós descrita, dependeu da ação do Estado burguês militarizado. Para se modernizar, os proprietários de terra e de capital comercial ou usurário, nunca prescindiram do aporte - explícito ou não - do santo padre Estado, em que pese às mistificações em contrário professadas pelos liberais, de ontem e de hoje.