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A atividade científica se materializa numa ampla variedade de produtos. Dois desses produtos são as dissertações de mestrado e as teses de doutorado. Elas possuem características específicas que as diferenciam de outras modalidades de produtos científicos. Deve-se destacar que, com as características que lhes são peculiares, elas podem servir como o espelho da produção científica de uma área, tendo em vista a representatividade desse tipo de produto no âmbito da produção científica de uma forma geral:

Teses e dissertações são tipos de documentos que apresentam uma pesquisa original sobre determinado tema. Observa-se que a terminologia brasileira é o contrário da norte-americana. Nos EUA utiliza-se o termo dissertação (dissertation) para o trabalho de conclusão do doutorado e tese (thesis) para o mestrado. Esse documento é divulgado após a exposição feita pelo aluno, perante banca examinadora, ter sido por esta aceita em sessão pública realizada numa faculdade ou universidade. É um tipo de documento importante pois, geralmente, é o coroamento de pesquisa feita durante anos (CUNHA, 2001, p. 31).

Na definição acima constam os elementos mais importantes que caracterizam as teses e dissertações: a questão da nomenclatura, a necessidade da aprovação de uma banca e a exigência de originalidade. Elas representam uma instância de pesquisa sistematizada, que exibe continuidade e possui controle, uma vez que os projetos precisam ser aprovados no exame de seleção, de qualificação e defendidos perante banca examinadora. Além, naturalmente, da última frase, que destaca o fato de serem pesquisa com maior duração, envolvendo não apenas o estudante mas também o orientador. Mas há ainda uma outra

característica definidora desse tipo de registro da produção científica, que aponta que a tese:

é, de certa maneira, a ‘obra-prima’ dos colegas de antanho que aspiram a se tornar doutores. A prova escrita (...) de que se está, dentro de uma determinada área, capacitado a levar a termo uma pesquisa; de dominar uma técnica; de contribuir para o avanço do conhecimento, da reflexão, da análise ou da criação (BEAUD, 1997, p. 10).

As dissertações e teses são, assim, realizadas por pesquisadores discentes, isto é, que são alunos de um determinado programa de pós-graduação (no caso do mestrado são, normalmente, juniores, pesquisadores em início de carreira). Dada essa condição, precisam, enquanto pesquisadores, provar sua capacidade de conduzir uma pesquisa e, por não terem a autonomia de um cientista, precisam estar em sintonia com as linhas de pesquisa dos programas de pós-graduação, em termos dos assuntos estudados, autores citados, referenciais teóricos adotados e procedimentos metodológicos utilizados. BUFREM considera as teses e dissertações “fontes privilegiadas de produção de conhecimento” (1996, p. 6) por sua característica de formação de recursos humanos capazes de atuar na área de produção científica.

Outra questão central é a da originalidade, da contribuição para o acervo de conhecimentos de uma área específica, tal como define DAVINSON (1977, p. 27), que aponta que “in librarianship circles it is conventional wisdom to accord to theses and dissertations a high value as repositories of important new or re-appraised knowledge”2. Essa também é a

posição de duas autoras brasileiras, conforme é destacado a seguir:

Dissertações e teses ocupam um papel relevante na produção científica não apenas em decorrência da formação de R.H. subjacente, mas pelo produto resultante em si mesmo (Gracelli & Castro, 1985). A importância deste produto decorre de, por via de regra, trazerem contribuições realmente inovadoras, especialmente os doutorados, quer por exigência pessoal, quer institucional, quer por tradição, quer para atender a preceitos legais (WITTER, PÉCORA, 1997, p. 77).

Enfim, pode-se perceber que há uma série de elementos que ao mesmo tempo particularizam as teses e dissertações enquanto produção científica, mas que também lhes

2 Tradução do autor: “nos círculos biblioteconômicos, é uma concepção comum que dissertações e teses

conferem importância a ponto de serem representativas como diagnóstico do estado da arte de um determinado campo. Esses vários aspectos podem ser resumidos na citação seguinte, que articula tanto os fatores ligados ao processo em que se desenvolvem as teses e dissertações (iniciação do pesquisador, busca de titulação, avaliação por uma banca) quanto ao conteúdo mesmo delas (a contribuição original que trazem para o enriquecimento do campo ao qual pertencem), na definição desse tipo de documento:

A definição de tese tem duas dimensões. Em primeiro lugar, ela é um instrumento de pesquisa destinado a promover a aquisição de novos conhecimentos com objetivos de interpretação, predição e controle do fenômeno em estudo. Em segundo lugar, ela é uma atividade acadêmica necessária à obtenção de um título de pós-graduação ao nível de mestrado ou doutorado (LEITE, 1978, p. 1).

Uma outra característica das teses e dissertações é o seu caráter essencialmente monográfico, isto é, são pesquisas que tratam de um único tema. Essa característica é particularmente relevante para a pesquisa proposta nesta tese, pois o que se pretende é utilizar um instrumento de classificação para documentos na área de comunicação. Se é possível se lidar com documentos que tratem de apenas um tema, obtém-se uma condição melhor para a verificação da eficácia do sistema de classificação construído. Essa característica está presente na seguinte definição de tese:

A tese de doutoramento é considerada o tipo mais representativo do trabalho científico que deve ser monográfico. Trata-se da abordagem de um único tema, exigindo uma pesquisa própria à área científica em que se situa, com os instrumentos metodológicos específicos (SEVERINO, 1980, p. 153).

O autor destaca também a característica das teses de terem que, necessariamente, pertencer a uma área de conhecimento específica, com a possibilidade de serem penalizadas caso isso não ocorra – o que é mais um fator a torná-las objeto adequado para a primeira utilização de um sistema classificatório construído especificamente para uma disciplina científica. Essas duas características se repetem para as dissertações:

Também a dissertação de mestrado deve cumprir as exigências da monografia científica (...) Deve ser elaborada de acordo com as mesmas diretrizes metodológicas, técnicas e lógica do trabalho científico como na tese de doutoramento. A diferença fundamental em relação à tese de doutoramento está no caráter de originalidade do trabalho (...) Tanto a tese de doutoramento

como a dissertação de mestrado devem ser, pois, monografias científicas que abordem temas únicos bem delimitados (SEVERINO, 1980, p. 154).

Contudo, apesar dessa importância, dissertações e teses são instrumentos e fontes pouco consultados e utilizados. Algumas razões são apontadas para isso. Para CUNHA (2001, p. 31), isso ocorre “devido à reduzida tiragem, quase sempre custeada pelo próprio pesquisador, e também pela falta de um mais amplo controle bibliográfico”. Já para DAVINSON,

academic theses provide a fascinating field of study for the librarian, who is frequently told, sometimes quite stridently, that not enough use is made of such materials, and that at least a part of the reason is the librarian’s instinct to preserve this fragile and often unique material whole and unsullied by burying it deep in stores (1977, p. 7)3.

Enfim, considerando todos estes fatores e as características das teses e dissertações, evidencia-se ser possível utilizá-las como um dos referenciais adequados para a identificação do “estado da arte” de um campo científico.

3 Tradução do autor: “teses acadêmicas proporcionam um fascinante campo de estudo para o bibliotecário, a

quem é freqüentemente reclamado, algumas vezes de forma alarmada, o fato de que não é feito um uso suficiente desses materiais, e que parte da explicação deste fato é o instinto do bibliotecário de preservar esses frágeis e muitas vezes únicos materiais inteiros e intactos, enterrando-os no fundo de caixas”.