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O medo não é privilégio de quem é materialmente menos favorecido — o que não nega o fato de que, na parcela da população em que a miséria em todas as suas facetas foi e continua sendo maior, as pessoas são mais suscetíveis a todo tipo de medo, seja em função da fragilidade das condições materiais de vida, seja em função da carência afetiva. E esta última talvez seja a que mais condiciona as criaturas a um padrão de comportamento em que impera a falta de autonomia, o complexo de inferioridade, as mais variadas limitações.

Todavia, na perspectiva de Delumeau (1996), a elite ocidental teve medo da inversão de hierarquias. Os agentes do medo ou os possíveis subversivos eram representados pelos boêmios, pelos mendigos, pelos vagabundos, que, além de serem acusados de vetores da Peste, eram consideradas pessoas capazes de cometer qualquer crime e, por isso, foram repudiados. Quem também complementa essa visão é Duby (1999:46): "Os ricos tiveram medo, medo dos pobres, que se tornaram muito numerosos e inquietantes."

A situação na sociedade atual não parece muito diferente, haja vista o modo como se tem tratado as pessoas que se encontram na situação de

morar nas ruas, embaixo de pontes e viadutos. Haveria também, quanto a esses seres humanos, medo da subversão e da inversão de hierarquias?

Senão para solucionar, pelo menos para amenizar o caos vivido pela civilização européia no passado, havia certas necessidades.

Para romper esse círculo maldito, era preciso que fossem reunidas muitas condições: uma alimentação mais abundante e mais regular, o escoamento da superprodução rural, o emprego nas fábricas da mão-de-obra disponível, impostos mais justos, um enquadramento administrativo mais sólido, o sufrágio universal, uma forte organização sindical (Delumeau, 1996:202).

Muitas dessas conquistas foram alcançadas. Contudo, nem o direito ao voto, nem a capacidade de produção e exportação da produção rural, nem a organização dos sindicatos têm garantido a todas as pessoas qualidade mínima de vida, apesar de tantos esforços e medidas paliativas.

Ainda do ponto de vista religioso, há duas maneiras de interpretar a profecia apocalíptica. Uma que insistiu e insiste na promessa dos mil anos de felicidade na qual ainda acreditam algumas denominações protestantes, como os adventistas e as testemunhas de Jeová; outra que acredita na crença do Juízo Final. Ambas se afirmam amparadas pelos textos bíblicos. Sobre os mil anos de felicidade, está descrito no livro de Apocalipse: "Ele prendeu o dragão, a antiga serpente, que é o diabo e Satanás, e amarrou-o por mil anos. E lançou-o no abismo, e ali o encerrou, e pôs selo sobre ele, para que mais não engane as nações, até que os mil anos se acabem" (Ap 20, 2 e 3). Sobre a crença no Juízo Final, em que acreditam muitas denominações, um dos evangelhos afirma: "Então, dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: vinde, benditos do meu Pai, possuí por herança o Reino que vos está preparado desde a fundação do mundo" (Mat 25, 34). Os amaldiçoados, por sua vez, terão como destino a condenação eterna: “Então, dirá também aos que estiverem à sua esquerda: apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos" (Mat 25, 41).

Os textos bíblicos, interpretados de forma tão variada como têm sido, deixam no imaginário coletivo o pavor de um Deus como pai severo e nada

humano. Discurso bem eficaz para disseminar o sentimento de culpa e torturar a humanidade, limitando sua condição e direito à vida.

O medo nesse contexto apresenta outra face: a do Anticristo.

Lutero acreditou que, lançando o pavor nas almas, as atrairia mais facilmente para sua nova doutrina e por isso que falou tanto do Juízo Final e do advento do Anticristo [...]. Se o vento sopra, se a tempestade agita o mar, é anúncio evidente do Juízo Final, do advento próximo de Jesus Cristo! (Georges Wizel, apud Delumeau, 1996:223).

O discurso protestante denunciava o papa como Anticristo e a Igreja Católica como a Besta do Apocalipse, crença comum ainda hoje. O catolicismo procurava defender-se dessa idéia, alegando que, segundo os evangelhos, ninguém podia prever o fim dos tempos: "Porém daquele Dia e hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, mas unicamente meu pai" (Mat 24, 36) — ou seja, a Igreja Católica embasava sua defesa nas próprias palavras de Cristo.

No passado, o pavor a Satanás tornou-se uma obsessão para o povo, uma paixão sem medidas, que teve o apoio da imprensa no século XVI. Enfatiza-se em Delumeau (1996) que, nesse período, a Europa conheceu duas faces do Diabo: a de origem popular e mais próxima do politeísmo era a de um Diabo benfazejo, familiar e até humano; a outra, de extração erudita, acreditava num Diabo expulso do Paraíso por ocasião do Pecado Original e posto aqui na Terra para atormentar os homens até o fim dos tempos, fazendo-os oscilar entre as perniciosas paixões materiais e a elevação espiritual. A única saída para escapar à tentação do Diabo seria e continua sendo muita oração, jejum, fé e sacrifícios, como a doação dos dízimos e ofertas, a constante freqüência aos templos, etc.

A elite cristã européia foi atormentada desde o século XIV por todos os medos de que se falou até aqui. Saliente-se, entretanto, que o pior momento aconteceu por ocasião da Reforma, quando houve uma cisão da qual a Igreja ainda não se recuperou, o que justifica sua premente necessidade de combater Satanás e seus agentes, representados pelo

estrangeiro, pela mulher, pelo judeu, pelos feiticeiros, por qualquer concepção divina incongruente com a sua.

Ao longo deste percurso histórico, é possível dizer que a história dos medos sempre esteve inserida na luta de classes e, com certeza, os mais fortes sempre saíram vencedores. Delumeau lembra que, em 1760, o bispo de Tours afirmava que os mendigos eram o rebotalho da República, não pela miséria corporal, pois dessa havia de ter compaixão, mas pela miséria espiritual, porque essa provocava horror.

Ainda hoje, as misérias dos excluídos incomodam a sociedade, que diz compadecer-se deles. A quem esmola, até no sentido afetivo, são oferecidas opções, como asilos, casas de caridade, orfanatos, abrigos, restaurantes com comida barata, atendimento gratuito ou parcialmente gratuito em clínicas psicológicas públicas ou pertencentes a entidades ditas filantrópicas — enfim, as mais precárias qualidades de vida e de educação. Aumentam-se os mecanismos de segurança: carros blindados, guardas particulares, alarmes sofisticados, muros e grades cada vez mais altas. Parece utópico defender a melhor distribuição de renda e, sobretudo, a educação com mais qualidade para todos. Até quando?

Ao narrar essa pequena história dos medos de nossos antepassados, notamos que a categoria passional do medo aparece sempre relacionada a aspectos religiosos. Como vimos, o pavor das águas, da Peste Negra e da noite, o medo causado pelo choque entre uma cultura predominantemente oral e uma cultura letrada, com o nascimento da imprensa, bem como os conflitos religiosos entre católicos e protestantes, além do receio que a classe dominante manifestava em relação aos menos favorecidos, marcaram a vida das civilizações passadas; alguns ainda persistem, em menor proporção, na civilização atual. A intensidade desses medos na vida das pessoas, no passado, pode ser justificada pelo contexto em que viviam essas civilizações: ou, ainda, pelo avanço do conhecimento e das ciências, ou pelo pequeno espaço de que dispunha a sociedade. Nosso próximo passo será examinar o material que coletamos junto a alunos, professores e funcionários da Escola Estadual “Azevedo Soares”.

Capítulo IV

Exame do corpus

Começaremos a análise do corpus de nossa pesquisa com o documento denominado "Normas de convivência", elaborado em 2005, com a participação da direção, do corpo docente e de estudantes, representantes de sala da Escola Estadual "Azevedo Soares".

Essas "Normas" foram apresentadas ao corpo discente e a seus pais e mães, aos quais foi solicitado que assinassem o documento, como forma de conhecimento e reconhecimento do conteúdo. Pais e mães assinaram as "Normas" sem nenhuma objeção e até comentaram que a escola deveria mesmo conduzir suas atividades com rigidez. Quanto aos alunos e às alunas, embora sua reação também tenha sido de passividade, argumentaram sobre o uso do telefone celular em caso de necessidade e a tolerância de dez minutos de atraso no horário de entrada, no período noturno.

Evidentemente, para o bem da organização social, as instituições assumem um discurso autoritário, ditam regras e imputam sanções. Nesse sentido, a criação do documento é válida. Importa-nos, entretanto, verificar em sua constituição as nuances lingüísticas utilizadas e refletir sobre o impacto das normas no auditório — os sujeitos de nossa pesquisa.

Optamos por transcrever literalmente o documento, para em seguida, proceder aos comentários.