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3. THEORETICAL BACKGROUND

3.3. F ILLET QUALITY PARAMETERS

No início deste trabalho, propus-me a pesquisar como se configuram as relações entre humanos e animais em um contexto urbano contemporâneo, bem como o papel dos zoológicos e seus espécimes nesse mesmo cenário. Pensando especialmente a partir desses dois questionamentos, dialoguei com autores como Bruno Latour, Donna Haraway, Hans Jonas, Keith Thomas e Tim Ingold, que tematizam a imparcialidade da ciência na reconstituição da realidade, as fronteiras e relações entre humanos e animais, bem como os jardins zoológicos, espaços que proporcionam um contato direto com espécies de vida selvagem. Todos esses estudos proporcionaram-me a capacidade de realizar algumas reflexões.

Desde os pets até os animais selvagens, pelo menos aqueles com os quais temos contato numa situação controlada oferecida pelos zoológicos, parece haver na experiência contemporânea certa humanização dos animais, no sentido de tê-los como seres bastante próximos, até mesmo fazendo parte de nossas famílias. Eles passaram a ser vistos como um indivíduo “semelhante”, no sentido de ser objeto de direitos, que merece não apenas não sofrer, mas também ser feliz e se beneficiar dos recursos voltados ao bem-estar animal; muitas vezes por meio de produtos e serviços que buscam atender mais o desejo de seus donos do que as próprias necessidades do animal de estimação.

É interessante observar que esse status de “semelhante”, embora seja mais evidente nos pets, também alcança, em certa medida, os animais selvagens dos zoológicos. Esses contatos têm a capacidade de proporcionar relações singulares, ao mesmo tempo de alteridade e de identificação, na experiência de sujeitos urbanos.

Carvalho (2002), discutindo a literatura sobre a história social das relações com a natureza, resgata que o processo civilizatório foi construído como sendo o polo oposto ao da natureza selvagem, outrora sinônimo da barbárie e ignorância. A dominação da natureza, e posteriormente a deterioração desta e do próprio ambiente urbano, “[...] impulsionou o surgimento de um sentimento estético e moral de valorização da natureza selvagem, não transformada pelos humanos” (p 45). Sendo assim, os animais enquanto partícipes dessa ideia de natureza boa e bela muitas vezes são vistos como seres com um papel reparador nesses contextos urbanos, como se representassem uma ordem natural dentro da concepção de natureza boa e bela. No triste caso ocorrido em abril de 2011 – conhecido como a Tragédia de Realengo, ocorrido no bairro de Realengo da cidade do Rio de Janeiro –, é possível encontrar um exemplo de como esse papel de representar uma natureza boa e bela está presente nesses

contextos e é, por vezes, atribuído aos animais. Na ocasião, um homem de 24 anos, ex-aluno da Escola Municipal Tasso da Silveira, invadiu o local e atirou de forma indiscriminada nos estudantes, matando dez meninas e dois meninos e ferindo dezenas de alunos. Após a intervenção de policiais, o homem disparou contra si mesmo, cometendo suicídio. Na carta14 encontrada com o assassino, ele aborda, entre outros assuntos, os animais, vistos por ele como seres do bem e que precisam de nossa proteção: “[...] os animais são seres muito desprezados e precisam muito mais de proteção e carinho do que os seres humanos que possuem a vantagem de poder se comunicar, trabalhar para se alimentarem [...]”.

Gostaria de salientar que não é pretensão fazer aqui qualquer tipo de defesa ou justificativa do ato, pelo contrário. Tratava-se de um homem doente e me solidarizo com as famílias das vítimas pelo ocorrido. Contudo, chama a atenção que, mesmo na configuração de uma patologia psicossocial, esse valor contemporâneo relacionado ao caráter puro e bom da natureza como contraponto do mundo humano é acionado no imaginário do jovem de Realengo. Naquele caso, essa defesa dos animais está provavelmente relacionada ao seu sintoma e às suas dificuldades sociais, reposicionando a polarização entre natureza boa e sociedade hostil de forma particular na configuração de seu transtorno mental. Esse é um evento crítico porque estressa uma característica que também aparece em situações “normais”, em que o desajuste e o desconforto com a vida social estão situados em níveis toleráveis e manejáveis, mas não deixa de indicar um continuum que permite que essa associação e identificação com os animais, como expressão da compensação pelas frustrações com a vida social entre os humanos, seja possível em diferentes gradações na sociedade urbana contemporânea.

Neste trabalho busquei discutir a dimensão educativa presente nas relações entre humanos e animais em contextos urbanos mediadas principalmente por espaços como os zoológicos. Considerei que estes espaços são pedagógicos e educam no sentido em que Steinberg (1997) utiliza a expressão “pedagogia cultural”. A autora mostra como a educação ocorre em diferentes espaços em nossa sociedade, incluindo a escola, porém abrangendo também outros lugares, como bibliotecas, jornais, cinema, TV, assim como os zoológicos. Considerando a educação como processo inerente à cultura – e esta é não só produtora, como também produzida, afeta e é afetada pelas próprias vivências culturais, pelo educar e pelo aprender (BRANDÃO, 2002) –, torna-se relevante para os educadores compreender as

14 O trecho foi resgatado de uma reportagem publicada em um site de jornalismo, disponível em:

<http://g1.globo.com/Tragedia-em-Realengo/noticia/2011/04/leia-trecho-da-carta-do-atirador-que-invadiu- escola-no-rj.html>. Acesso em: 12 jan. de 2012.

mudanças de atitudes que ocorrem em nossa sociedade; aqui, especificamente, as relações para com os animais.