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Essa figura é encontrada no imaginário popular como um homem que andava com um saco nas costas, no qual colocava crianças que roubava para matar e tirar-lhes o fígado. Daí a denominação papa-figo. Assim, em tempos passados, os pais apropriavam-se das histórias que envolviam esse ente, contadas geralmente em rodas de conversa, para amedrontar seus filhos e assim tê-los sob controle.

Esse universo cultural inspirou o xilógrafo Nilo para construção da cena “Papa-figo ronda criança” (Figura 5), onde representa a versão da narrativa que ouvia, dos mais antigos, na sua infância. Para esse xilógrafo, as histórias do papa-figo “tinha um cunho moral”, Segundo este, o ente não existia; servia apenas para provocar medo nas crianças.

Sua versão poética traz como pano de fundo o meio rural em cena noturna. No segundo plano, crianças assustadas na janela de uma casa e, no primeiro plano, o papa-figo representado por um homem idoso, com aspecto de mistério.

Figura 6 – Papa-figo ronda criança.

Na tradição pernambucana, no livro Assombrações do Recife Velho, Freyre refere-se a essa figura como outra versão do lobisomem:

Diz que um ricaço estava dando pra lobisomem, alarmando a população. Empalidecendo, amarelando, perdendo toda a cor de saúde, como em geral os homens que dão para lobisomem. Tornando-se mais bicho do mato do que homem de sobrado. Desesperado de encontrar cura ou alívio para seu mal na ciência dos doutores recorrera o ricaço ao saber misterioso dos negros velhos. Um dos quais depois de examinar o doente rico dissera a família: “Ioiô só fica bom comendo figo de menino.” “Figo” no português do negro queria dizer fígado. Diz-se que o próprio negro velho se encarregou de sair pelos arredores do Recife com um saco às costas. Ia recolhendo menino no saco (...) Desses meninos sussurra a lenda que o africano, protegido pelo branco opulento, arrancava em casa o fígado para a estranha dieta do doente (2000, p. 97).

Assim se esboçam diante de nós duas variantes: uma construída em suporte xilográfico a partir da memória de Nilo e a outra apoiada na tradição oral pernambucana. Diante das versões, nos indagamos: como a crença no papa-figo foi concebida no Cariri? As pessoas acreditavam mesmo na sua existência? Seria o papa-figo outra versão do lobisomem?

Nas investigações, a concepção revelada trouxe indicações de que o papa-figo, no imaginário caririense, não está representado da mesma forma como em Pernambuco, como uma versão do lobisomem. A similitude dos elementos está na retirada do fígado humano para cura de doença.

Dona Antônia Josefa da Conceição,114 de 86 anos, residente no Município de Nova Olinda, afiança a existência desse elemento como “uma laia de gente que tem, que tira figo das crianças, tira figo de quem morre, tira figo de quem quiser pegar para fazer remédio (...) pra ele e até pra nós.”

Segundo esta narradora, no passado, quando o papa-figo aparecia, as crianças viviam escondidas porque ele as enganava oferecendo presentes para depois prendê-las, cortar debaixo da costela e retirar-lhes um pedaço do fígado e, ao sair, ainda deixava para os pais uma quantidade de dinheiro em cima do corpo da criança morta.

D. Zulene Galdino115 certificou a existência dessa prática em sua infância: “Papai nos trancava. Ele dizia que fazia medo andar pela estrada; o vei do figo cortava criança e tirava o figo pra fazer Biotônico, ainda hoje a gente pensa que é verdade!”

A narrativa em seu dinamismo a heterogeneidade, constitutiva dos artefatos culturais que, inseridos no âmbito da estrutura de sentimento, demonstram uma atualização da figura, posto que os elementos que enuncia foram originados no presente e divulgam uma nova configuração. Sobretudo, quando se referem ao papa-figo como sujeito que “tira o fígado das pessoas para fazer Biotônico”, insere-se no contexto da propaganda idealizada por Monteiro Lobato no início do século XX, para o fortificante Biotônico Fontoura, que teve ampla divulgação no território nacional. Este medicamento, bastante utilizado no meio rural, era uma composição escura, a base de ferro, usada para amenizar ou mesmo curar as anemias causadas por parasitose intestinal.

Partindo do exposto, os dois exemplos nos mostram a existência da crença no papa-figo com uma força fidedigna realçada pela performance das

114 Durante a entrevista, Dona Antônia aponta o conhecimento de muitos entes fantásticos

sobre os quais já ouviu falar através das narrativas contadas pelos mais antigos e narra um pouco sobre cada um, além de indicar a presença de um rio encantado que corre sob o lugar onde mora, embaixo da terra, além de mencionar uma estreita ligação sua com uma entidade do candomblé e assumir que faz reza forte para outras pessoas em troca de dinheiro.

115

Entrevista concedida por Zulene Galdino, 59 anos, em outubro de 2008, no Município do Crato – Ceará.

narradoras, porém não revelam qual o tipo de doença que poderia ser curada com o remédio a base de fígado humano. Para essa pergunta, o poeta Abraão Batista traz a resposta:

A crença no papa-figo Também no sertão existe Doença que dá no homem. E sabem em que consiste? É em crescer a orelha Uma coisa muito triste E quem tem esta doença Vive sempre a procurar Crianças que estejam sós Para o fígado tirar

E comer pois só assim A doença vai curar116 Papa-figo assombrava Somente com o seu nome Se os grandes tinham medo, E das crianças nem se tome Pois o pavor era maior Do que se morrer de fome O papa-figo era um homem Por um rico recomendado Para caçar fígados de jovens Para curar um leprado Porque o doente era rico Vivia sempre guardado

Na última estrofe, o poeta cita a doença, além de articular uma síntese das variações, como também referência à diferença entre o rico e pobre, articulando relação de poder econômico que justifica a possibilidade da morte de alguns para que outros pudessem salvar suas vidas. Nesse caso, um rico.

De acordo com dados da Antologia da Literatura de Cordel,117 o poeta caririense Abraão Batista, marcado pela “cidade mística” do Juazeiro do Norte, conta que, quando garoto, foi orientado pela mãe por meio de conselhos retirados dos folhetos de cordel e da Bíblia. Assim, quando pequeno,

acreditava nas histórias de almas, lobisomens e papa-figos, revividas nos

116 MEDEIROS, Eugênio Dantas de. A estória de um lobisomem. Academia de Cordelistas do

Crato, 1993, p. 2.

117

CEARÁ, Secretaria de Cultura, Desportos e Promoção Social. Antologia da literatura de

cordel, v. I, p. 50, Fortaleza: trabalho elaborado pelos pesquisadores do Projeto Literatura

versos que compõe.118 Assim, o imaginário vivido pelo poeta perpassa uma

corrente, um elo de contação, traduzido nos textos, revelando o caráter formador dessa experiência, que passou a ser um diferencial na sua obra, ou seja, o papel preponderante de suas origens para concepção de mundo relatada nos seus escritos.

Essa maneira de representação da realidade faz com que seus autores disseminem o lugar de uma conexão de textos onde são, ao mesmo tempo, leitores e co-autores de produção de sentidos e significados. Para Baczko, no texto Imaginação Social, os imaginários sociais são forças reguladoras da vida em grupo, constituem vários pontos de referência no vasto sistema simbólico que os grupos produzem, sendo, através deles, que uma coletividade designa a sua identidade, além de elaborar uma certa representação de si. Esses imaginários, além de estabelecerem a distribuição de papéis, posições sociais, contribuem para os sujeitos manifestarem suas crenças e construírem códigos de comportamentos.