Levando em conta o cenário que se acabou de descrever, como podemos situar o trabalho de Jorge Andrade na TV Globo, que começou em 1973 com Os ossos do
barão, até a produção de O grito, em 1975?
Em meados da década de 1970, a TV Globo já tinha a maior audiência do país. O caráter experimental das novelas das 22h tinha dois aspectos: oferecia-se alguma liberdade artística aos autores, e estes, ao mesmo tempo, tinham sua eficiência testada. A liberdade criativa moderada (mas bem razoável, para um sistema de produção industrial) não isentava os escritores de suas obrigações básicas: em primeiro lugar, produzir cinco capítulos por semana (a novela das 22h não era exibida aos sábados);10 e
com estes garantir uma audiência média e repercussão positiva, conforme a expectativa da empresa. Se bem-sucedidos, os dramaturgos manteriam seus empregos e poderiam até ser promovidos ao horário nobre das 20h, como aconteceu com Lauro César Muniz, em Escalada (1975), e iria acontecer em seguida com Dias Gomes, quando Roque
Santeiro foi censurada (agosto de 1975).
Em 1975, o tema ―telenovela‖ é capa da revista Veja pela segunda vez (a primeira capa, em 1969, é comentada na conclusão desta tese). Aparecem os retratos de Glória Menezes, Francisco Cuoco, Tarcísio Meira, Regina Duarte e Eva Wilma,
10 Variações excepcionais podem ter acontecido eventualmente, como no caso de Bráulio Pedroso, que
gostava de improvisação. José Wilker, que fazia o papel do hippie Bandeira, conta que nos scripts havia indicações como: ―Então Bandeira entra na sala e fala o que quiser‖ (disponível em memoriaglobo.globo.com/Memoriaglobo/0,27723,GYN0-5273-229777,00.html, acesso em 10 ago. 2011).
36 compostos solenemente como as faces presidenciais no monte Rushmore. A chamada de capa é ―No país das telenovelas‖.
A reportagem destaca espectadores exemplares, escolhidos por sua variedade. A telenovela virou a ―grande mania nacional‖. O olho da matéria anuncia: ―Histórias da telenovela, que em dez anos fez do Brasil a terra prometida das emoções em capítulos‖ (A GRANDE MANIA..., 1975, p.70). São histórias de espectadores de várias idades, regiões e faixas de renda — no litoral do Paraná, em Recife, em Ilhéus, no interior do Rio Grande do Sul, na fronteira com o Uruguai. Não é apenas o ―espectador típico‖ que assiste novelas. O texto indica que ―a televisão brasileira tornou-se capaz de atingir a quase totalidade do país‖, ultrapassando largamente o perfil estabelecido pela Divisão de Análise e Pesquisa da TV Globo, que definia a maioria estatística dos espectadores como ―uma mulher [com] mais de 30 anos e dois filhos, curso secundário incompleto, [que] trabalha no comércio, mora nas periferias das grandes cidades e pertence às chamadas classes C e D‖ (A GRANDE MANIA...,1975, p. 75).
No meio da reportagem há um box intitulado ―O futuro das telenovelas‖, com sinopses das próximas estreias. Entre cinco resumos (um deles incerto, pois ainda não estava decidido quem substituiria às 20h a reprise de Selva de pedra, depois da proibição de Roque santeiro), consta O grito, prevista para o horário das 22h: ―A história conta a vida dessas pessoas, esmagadas pela cidade grande e sua luta para preservar a própria individualidade‖ (A GRANDE MANIA...,1975, p.77).
Os autores de novelas aparecem em outras reportagens. Em abril de 1974, logo após o fim de Os ossos do barão, Jorge Andrade e Dias Gomes estão juntos na entrevista das páginas amarelas de Veja (a organização do texto sugere que os dois foram entrevistados separadamente, e depois as respostas foram reunidas na edição). Jorge Andrade declara que sua experiência com Os ossos do barão foi de ―liberdade
37 total de criação‖ e ―felicidade total e absoluta‖ (ZIROLDO; SALEM, 1974). Ele havia sido convidado a adaptar suas peças de sucesso, e teve a liberdade de escrever da sua maneira:
[...] como telespectador, Andrade confessa que se limitava a assistir aos telejornais e, provavelmente, a partir do convite de Daniel Filho, a O bem
amado. Esta pouca intimidade com a TV foi, ao mesmo tempo, o principal
motivo de Jorge Andrade ter sido convidado pela Globo, e o maior problema que ele enfrentou para escrever a sua novela. ―Eles pediram que eu escrevesse com a maior liberdade e que não procurasse trocar ideias com nenhum outro autor ou qualquer outra pessoa ligada à TV‖, conta ele (OSSOS NA TV, 1973).
A versão televisiva de Os ossos foi considerada bem sucedida pelos diretores artísticos da empresa e outros profissionais da área (SILVEIRA, 1974; TÁVOLA, 1975a) e deixou boas memórias aos admiradores do gênero (ALENCAR, 2004, p. 140), sendo regravada em 1997, com adaptação de Walter Durst (BOA HISTÓRIA..., 1996).
Quanto à audiência de Os ossos, Jorge Andrade afirma que a obra foi assistida por 900 mil espectadores, em média, no Rio de Janeiro.11
Na entrevista a Veja, Jorge Andrade considera que a televisão ―foi corretíssima‖ com ele e elogia a direção e os atores, pois as cenas no vídeo eram ―exatamente como as havia imaginado‖. Com a experiência, ele teria feito uma descoberta ―muito importante para um escritor‖: a possibilidade de ―dizer, através da TV, tanto quanto eu posso dizer através do teatro‖. Quase ao fim da entrevista, Andrade manifesta novamente seu otimismo: ―É um veículo aberto a toda a espécie de sensibilidade. Se eu tenho qualidades, se eu realmente tenho uma visão do mundo, se tenho alguma coisa de importante a dizer, eu posso dizê-lo através da TV‖ (ZIROLDO; SALEM, 1974, p. 6).
A entrevista flagra um entusiasmo pontual, depois de uma experiência que deu certo. Considerando a estratégia de tentativa e erro já mencionada, podemos sugerir que
11 Artur da Távola escreve no jornal O Globo, no ano seguinte, que um ponto de Ibope, no Rio, era
38 o sucesso de Os ossos estabeleceu o clima favorável para que Jorge Andrade escrevesse
O grito. Na relação com a emissora, ele provavelmente teria conquistado o direito de
escolher com certa liberdade o tema e estilo de sua próxima novela.