Fonte: Arquivo do CEPD.
Com a passagem dos alunos de alfabetização para a 1ª série e a chegada de novos alunos na turma de alfabetização, surgiu a necessidade de haver mais salas para atender a todos. Foi quando o CEPD recebeu algumas doações financeiras e até um pequeno lote de um terreno próximo à sua sede. Assim foram construídas, de modo simples, mais duas salas de aulas, próprias para as aulas da escola. A construção da escola teve o apoio e a contribuição ativa das crianças e dos moradores de Oiticicas. Um grande grupo se mobilizou para viabilizar a construção do pequeno e simples prédio da escola. Dessa forma, foi dado o passo inicial para a estruturação da sede própria da Escola Allan Kardec, conforme narra Everaldo:
O interesse era pelo fato das pessoas estarem juntas. Havia uma sopa e, ao entorno dela, uma conversa. Conversávamos sobre coisas da vida, sobre questões cristãs conforme a Doutrina Espírita. Sem violentar as pessoas, a obra não deixava de ser Espírita, mas não queríamos a conversão das pessoas. Nós nos empenhávamos para que elas participassem das reuniões espíritas, mas logo entendemos que não deveríamos forçar e que algumas vezes levar para um determinado caminho era uma forma de coerção. Nós tratamos de deixar à vontade, porque o trato espírita é o carinho. Se educa com carinho com atenção, com respeito, esses são os valores inerentes ao trabalho espírita. Vimos, pouco tempo depois, que não devíamos chamar para o trabalho espírita, e sim esperarmos a espontaneidade.
O crescimento da escola e das atividades de atendimento às crianças ficou acima do esperado. Na escola, estimava-se à época, o trabalho iria até a segunda série, mas essa meta foi superada, chegando a atender até a quarta série. O número de crianças atendidas passou à marca de cem participantes e isso saiu do controle, pois não se esperava tal crescimento, bem como os demais desdobramentos de tais ações.
Não sabíamos o desdobramento. A comunidade se motivou, as mães viam e se espantavam com as crianças lendo e escrevendo. A comunidade tinha a percepção à novidade que ali havia uma escolinha. Mas que a precariedade da educação pública era muito grande. Sem recursos, muito complicada, não estou dizendo que hoje não tenha, mas antigamente era muito mais difícil. Como tocávamos em uma necessidade das pessoas, não tínhamos mais como controlar e, em certa altura, nós achávamos que até não tinha mais como crescer. Mas as pessoas batiam na porta, e a gente ficava com o coração na mão. Desta forma nós fomos impelidos ao crescimento. (Everaldo)
A demanda sempre aumentava, mas o entendimento da importância do cuidar do próximo e a consciência cristã impediam que os trabalhadores do CEPD rejeitassem qualquer criança e/ou família que buscasse auxilio. A partir desse crescimento, o CEPD buscou novas parcerias para suprir as necessidades materiais que apareceram com o aumento do número de atendidos. Como a maior demanda estava na escola, Everaldo buscou junto ao Governo do Estado do Ceará um apoio para manter a obra.
Nós tínhamos a necessidade da escola, e fomos pedir a ajuda ao Governo do Estado, aí eles
disseram “A gente apoia uma marcenaria”. Já pensou? Assim são as coisas. A gente precisa
de escola, e eles oferecem uma marcenaria. Assim mesmo, fizemos uma parceria para instalar a marcenaria, pois o governo quer coisas produtivas, escolas não. (Everaldo)
Sobre a responsabilidade de promoção da educação, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira (1996) afirma em seu art. 2º:
A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.
Ainda sobre esse ponto, o ECA no seu art. 53 enfatiza o direito à educação para
crianças e adolescentes, visando a “pleno desenvolvimento de sua pessoa, preparo para o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho”, e, em seguida, ainda estabelece, de
modo mais claro, os deveres do Estado e dos pais/responsáveis para a efetivação desse direito. Quanto à responsabilidade, o ECA declara:
Art. 54. É dever do Estado assegurar à criança e ao adolescente:
I - ensino fundamental, obrigatório e gratuito, inclusive para os que a ele não tiveram acesso na idade própria;
II - progressiva extensão da obrigatoriedade e gratuidade ao ensino médio; III - atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino;
IV - atendimento em creche e pré-escola às crianças de zero a seis anos de idade;
V - acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um;
VI - oferta de ensino noturno regular, adequado às condições do adolescente trabalhador;
VII - atendimento no ensino fundamental, através de programas suplementares de material didático-escolar, transporte, alimentação e assistência à saúde.
§ 1º O acesso ao ensino obrigatório e gratuito é direito público subjetivo. § 2º O não oferecimento do ensino obrigatório pelo poder público ou sua oferta irregular importa responsabilidade da autoridade competente.
§ 3º Compete ao poder público recensear os educandos no ensino fundamental, fazer-lhes a chamada e zelar, junto aos pais ou responsável, pela freqüência à escola.
Em vista desses documentos, fica nítido o desrespeito e o descompromisso do poder público com a educação de crianças e adolescentes dessa região. A não garantia do direito à educação, pode desencadear uma série de problemáticas socais, assim como comprometer o desenvolvimento integral do ser humano. Não garantir condições para a efetivação de processos educativos é negar possibilidades de “ser mais”.