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Første masterrealisering og betraktninger rundt regirollen

A anáfora constitui uma estratégia de retomada de referentes com ou sem antecedente no co(n)texto. Como já dissemos, a progressão referencial acontece na base de uma complexa relação entre linguagem, mundo e pensamento, estabelecida como centro no discurso. A progressão referencial ou continuidade referencial gerada pela referenciação não implica a necessidade de retomada das mesmas anáforas, nem sua manutenção, uma vez que o encadeamento referencial organiza-se num sistema correlacionado a uma rede multidimensional. Dessa forma, a ligação linear da textualidade não é uma condição necessária, já que a textualização ocorre num processo de multilinearização. O procedimento anafórico, que exige atividades inferenciais retrospectivas e prospectivas para a interpretação, constitui um exemplo típico de multilinearização.

No caso da anaforização pronominal e nominal, os referentes podem ser introduzidos diretamente por uma atividade de designação, por intermédio de SN definido. Em outros casos, há referentes que são inferidos por relações entre os elementos já introduzidos no texto mediante o processo de associação ou outros, os chamados processos de inferenciação. Também pode ocorre uma alusão referencial através de SN indefinido sem a necessidade de identificação de elementos especificáveis quando acontece o chamado processo de construção referencial. Nesse caso, a referenciação é constituída no processamento de informações variadas, estabelecendo uma gama de alusões referenciais, embora no contexto essas alusões possam se restringir e estabilizar-se.

Com essas observações, postula-se que nem toda referenciação requer uma lexicalização explícita em relação aos referentes designados. No entanto, pode ocorrer a lexicalização mediante situações ou fatos representados numa porção textual: as rotulações (sumarização) ou nominalizações que encapsulam enunciados inteiros. A designação pode apresentar características de retomada correferencial; a inferenciação pode constituir uma remissão, mas nunca com sentido correferencial, e, assim, a construção referencial apresenta uma referenciação induzida e sugerida no discurso sem remissão pontualizada, sem retomada e correferenciação.

Considerando a progressão referencial como uma questão de relações anafóricas no seu sentido amplo, convém registrar as relações que a anáfora pode reproduzir no texto. Seguindo Marcuschi (1999:10),

1. nem toda anáfora é pronominal;

2. nem toda anáfora (pronominal ou não) é correferencial; 3. nem toda anáfora (pronominal ou não) é retomada;

4. nem toda anáfora (pronominal ou não) tem um antecedente explicito no co-texto;

5. nem toda anáfora nominal correferencial é co-significativa.

Essas relações supõem uma noção ampla de anáfora enquanto estratégias de referenciação que ocorrem numa relação entre fenômenos discursivos com configurações diversas: pronome-nome; pronome-oração;

nome-nome; nome-oração ou relações em que o antecedente nem é especificado. Desse modo, percebe-se que não há necessidade de retomada e correferenciação para se ter uma relação anafórica.

Marcuschi (1998) propõe, para estabelecer as possíveis relações de construção das cadeias referenciais, o quadro geral a seguir, por meio do qual podemos perceber como as relações anafóricas podem contribuir para a progressão referencial.

Quadro geral das relações anafóricas

Relações anafóricas Esquema categorial

{1} retomada explicita de antecedente por repetição de item ou construção linguística com estabilidade/continuidade referencial

{1}

+ correferência - recategorização + co-significação {2} retomada explicita do antecedente por

pronome com estabilidade/continuidade

referencial

{2}

+ correferência - recategorização - co-significação {3} retomada implícita de antecedente por

sinonímia, paráfrase, associação, metonímia com estabilidade/continuidade referencial.

{2}

+ correferência + recategorização - co-significação {4} com remissão e retomada implícita de

antecedente não pontualizado e com orientação referencial realizada por dêiticos textuais

{4}

- correferência + recategorização - co-significação {5} com remissão e retomada implícita de

antecedente e reorientação referencial por nominalização/verbo ou hipo/hiperonímia.

{5}

- correferência + recategorização - co-significação {6} com remissão sem retomada de

antecedente e reorientação referencial por rotulações metalinguísticas ou de força ilocutória.

- correferência ? recategorização ? co-significação {7} sem remissão e sem retomada de

antecedente, com construção referencial induzida por pronome/nome ou construção nominal.

? correferência ? recategorização ? co-significação

A indicação (?) na coluna de Esquema Categorial significa que não há propriamente uma progressão com relação direta, mas indireta sem que as categorias sugeridas como parâmetros de comparação sejam pertinentes para a análise.

Segundo Marcuschi e Koch (1998), a progressão referencial não implica necessariamente a correferência16, ou seja, ela pode ocorrer como uma

reativação ou reconstrução fundada num contexto gerado no interior do próprio texto sem implicar retomada de referentes, mesmo fazendo uso de repetições de itens lexicais. A co-significação no caso de pró-formas nominais na progressão textual não é necessária para implicar que há correferenciação. A co-significação17 relaciona-se diretamente com a recategorização18, entendida

a partir de Apothéloz (1995) como uma categoria fundamental para explicar os processos de heterogeneidade semântica no processamento textual – estratégia produtora de coerência e coesão implícitas. Ela constitui de modo particular um aspecto muito relevante para o esclarecimento dos processos referencias na fala.

Sabemos que as categorias são instáveis, e só ganham sua estabilidade na situação discursiva. Não são dadas ad hoc (permanentes nem definidas). A discretização do mundo em categorias não é dada absolutamente a priori, mas varia segundo as atividades cognitivas que operam com elas. “[...] os objetos não são dados segundo as propriedades intrínsecas do mundo, mas construídos através de processos cognitivos dos sujeitos aplicados ao mundo concebido com um fluxo contínuo de estímulos”.

O importante, então, é ter presente que o individuo, no decorrer do discurso, possui à sua disposição uma diversidade de alternativas para designar referentes. No seu percurso de fala, pode escolher elementos lexicais variados, porém uma das conseqüências dessa variação é que os termos escolhidos não operam como co-significativos, porque a significação está sempre e essencialmente contextualizada. Por isso, a relação dos processos de recategorização com termos ou elementos não sinônimos são relações

16 Remissão que retoma o referente como sendo o mesmo já introduzido (identidade de

referentes); dá-se, no geral, com retomadas por repetição, sinônimos ou designações alternativas para o mesmo referente: nomes e pronomes.

17 A relação de co-significatividade se dá como uma relação léxico-semânctica dos elementos

linguísticos que constituem as relações anafóricas.

18 Remissão a um aspecto co(n)textual antecedente que pode ser tanto um item lexical como

uma idéia ou um contexto que opera como espaço informacional (mental) para a inferenciação. Essa remissão pode ou não se caracterizar como retomada (parcial, total ou similar), que se realiza por processos fundados numa relação em geral estereotípica, com mostram Bleiber, Schanedecker e Ujma (1991:5-64). Uma característica de todas as remissões referencias que envolvem recategorização é a não-cosignificatividade.

correferenciais, o que nos leva a crer que correferencialidade e co-significação no sentido lexical não coincidem.

Conforme nos fala Marcuschi (1998:178), a seleção lexical pode ser vista como um mecanismo no discurso e criar seus objetos, mas isso não garante adequação referencial. Através de Apothéloz e Béguelin (1995:241), Marcuschi (1998) ainda afirma que a adequação referencial sofre mais restrições socioculturais do que ontológicas. Pois é por meio das restrições socioculturais que as estratégias de designação dos referentes atuam no discurso como atividade de categorização, haja vista os casos que servem de recursos retóricos como as figuras metáfora, metonímia, analogia etc. abordadas no capitulo anterior.

Nem a adequação referencial nem a continuidade referencial podem ser vistas sob a ótica da uniformização, uma vez que se trata de ocorrências e de mudanças de elementos anafóricos. Apothéloz (1994) enfatiza que pode haver pluralidade de estratégias de designação anafórica, porém nem todas podem ser co-significativas. Já Marcuschi (1998), em sua reflexão, sugere que não se deve continuar a observar a anáfora sob o aspecto referencial somente, mas que ela depende de modelos cognitivos em atuação.

Voltando ao quadro geral das relações anafóricas de Marcuschi (1998), prosseguimos introduzindo as noções de anáforas diretas e indiretas com as siglas AD e AI, descritas por Schwarz (2000 – [2007]), Marcuschi (2005) e das anáforas esquemáticas (AE) (Marcuschi, 2000), as quais, por sua vez, se encaixam nas anáforas indiretas. Marcuschi (2005), ao tratar das anáforas diretas e indiretas, amplia e enriquece a noção de anáfora, sobretudo em se tratando daquelas que possuem relações estabelecidas por pronomes e nomes sem retomada de antecedente explícito. Assim, o autor amplia e aprofunda os conceitos das relações anafóricas {6} com remissão sem retomada de antecedente e reorientação referencial por rotulações metalinguísticas ou de força ilocutória e {7} sem remissão e sem retomada de antecedente, com construção referencial induzida por pronome/nome ou construção nominal.

Numa tentativa de associar as relações estabelecidas para as anáforas no quadro acima, descritas de {1} a {7}, poderíamos dizer que as relações anafóricas {1}, {2}, {3}, {4} e {5} constituem as anáforas diretas (AD), visto que

caracterizam para Marcuschi (2005:55) a AD enquanto retomada de referentes previamente introduzidos, estabelecendo uma relação de co-referencia entre o elemento anafórico e seu antecedente. Marcuschi acrescenta que isso ocorre mesmo nos casos em que a AD não requer identidade de significação nem identidade estrita entre anáfora e antecedente. Já as relações anafóricas {6} e {7} constituem as anáforas indiretas (AI), uma vez que o autor atribui a elas uma noção com considerável alargamento:

Trata-se de expressões definidas [e expressões indefinidas e pronominais] que se acham na dependência interpretativa em relação a determinadas expressões [ou informações constantes] da estrutura textual precedente [ou subseqüente] e que têm duas funções referenciais textuais: introdução de novos referentes (até aí não nomeados explicitamente) e a continuação da relação referencial global (2005:59).